Estamos mesmo ao lado da forje do ferreiro, num anexo da casa de Mateus Miragaia em Donfins, Jarmelo de S. Pedro, concelho da Guarda. As chamas ganham intensidade com a ajuda de uma ventoinha que substitui o antigo fole.

Mateus Miragaia
créditos: Who Trips

Em breve o fogo atinge a temperatura suficiente para incandescer o metal que vai ser martelado por Mateus Miragaia para dar corpo a uma tesoura de tosquia. Conforme ele próprio nos disse, “é o único a fazer as tesouras de tosquia em Portugal”. Depois da forje vai moldar o ferro, “já lhe dou aqui umas pancadas”.

A fase inicial, forjar o ferro, é determinante para a qualidade final, para uma tesoura que seja eficaz na tosquia da ovelha. “A técnica da tesoura vai logo de princípio, se ela não for forjada como deve ser depois não se consegue. Outro cuidado é ao amolar a parte de dentro. Se ganhar um pouco de calo depois em vez de cortar mastiga.”

Mateus Miragaia leva o ferro ao lume até ficar incandescente e depois, com muita agilidade e movimentos breves, expõe o metal à força do martelo. Foi assim que aprendeu em 1957 com um cunhado e o ferreiro Augusto Jarmelo, do qual preserva a marca.

Mateus Miragaia
créditos: Who Trips

Em Donfins de Jarmelo havia na altura vários ferreiros. Na toponímia da aldeia ainda se encontra a rua com o nome dos artesãos. Eram vários artesãos, fabricavam vários tipos de peças mas só o ferreiro com quem Mateus Miragaia aprendeu é que sabia fazer as tesouras.

Mateus Miragaia
Rua em Donfins créditos: Who Trips

Alguns bem tentaram mas não conseguiram. Ser ferreiro de tesouras de tosquia dava mais rendimento. “Quando comecei a trabalhar diziam que alguns ferreiros tinham inveja de quem fazia as tesouras porque ganhava mais dinheiro. O motivo era simples. Uma tesoura leva muito menos material do que outras peças, como por exemplo uma enxada, e na altura o que se pagava era o material não o trabalho, as muitas horas que levava a fazer uma peça”.

Mateus Miragaia
créditos: Who Trips

Mateus Miragaia foi dos poucos que aprendeu a arte mas esteve tentado a emigrar. “Dar o salto” como fizeram muitas outras pessoas e que, de certa forma, contribuíram para a quase total desertificação de Donfins. “A vida da gente nova muda com muita facilidade. Quando vim da tropa, em 1975, pensei em emigrar e ainda falei com um passador que me pediu 8 contos”. Só que no dia combinado um outro homem ofereceu-se para emigrar e ele ficou em Donfins. “Pensei: já que não fui agora, também não vou.”

Mateus Miragaia
créditos: Who Trips

Ficou em Donfins e com a ajuda da mulher trabalhavam noite e dia para conseguirem fazer uma dezena de tesouras por dia. Como não havia aços laminados as tesouras eram mais difíceis de fazer. Começavam a produção em Janeiro e terminavam em meados de Maio.

Mateus Miragaia

A produção anual oscilava entre 1.500 a duas mil unidades. Nada comparável com as cerca de uma centena que produziu em anos recentes. As máquinas substituíram as tesouras. Todos os rebanhos são tosquiados com uma máquina. “Quem gasta as minhas tesouras são os reformados que têm três ou quatro ovelhas”. Os pastores, só esporadicamente utilizam a tesoura, apenas quando uma ou outra ovelha tem um problema. “Como a tesoura é uma ferramenta muito sensível deixa de cortar com facilidade e eles compram outra. Há também quem compre como recordação.”

Mateus Miragaia
créditos: Who Trips

Mateus Miragaia assume com naturalidade o fim da sua arte e em algumas alturas até produz outros instrumentos. Como é o caso das facas que diz serem melhores do que as de fábrica. As facas que produz servem também de exemplo para justificar o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”. “Dizem que isso é normal. Por exemplo, as facas que estalam ficam para uso em casa. A qualidade não é inferior mas como estalam não têm venda. Ficam para consumo de casa. É por isso que existe esse ditado.”

Mateus Miragaia
Os brinquedos em metal foram feitos por Mateus Miragaia créditos: Who Trips

A arte de Mateus Miragaia foi também o encanto dos filhos e de outras crianças da aldeia que brincaram no quintal. Em muitos brinquedos feitos na oficina e que ainda podemos ver a arte do improviso. Um dos filhos, Rui Miragaia, seguiu a vocação do progenitor na arte de trabalhar o ferro e é um artista plástico que o pai admira: “desde garoto que ele tem queda para o ferro".

Mateus Miragaia
Retratos em ferro de Rui Miragaia créditos: Who Trips

"As caras das pessoas em ferro têm tido muita aceitação e eu admiro a facilidade com que ele faz aquilo”. Mateus Miragaia exprime ainda o seu contentamento por haver uma “continuação do ferro, a ferrugem continua cá em casa.”

Mateus Miragaia
Trabalho de Rui Miragaia em Jarmelo sobre o drama de Inês de Castro créditos: Who Trips

Algumas das esculturas de Rui Miragaia podem ser vistas no exterior da casa dos pais em Donfins e também na aldeia de Jarmelo que retratam o drama de Pedro e Inês de Castro.

Mateus Miragaia
Mateus Miragaia créditos: Who Trips

A arte das tesouras de Mateus Miragaia faz parte do programa da Antena1, Vou Ali e Já Venho, e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

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