O bilhete ida e volta custou 120 contos, qualquer coisa como 600 euros. Era o único documento e à nossa espera em Havana estaria alguém  da agência oficial de turismo. Nada mais. O resto foi andar à deriva, ou melhor, durante muitos dias, sob controle das autoridades turísticas.

Seis da manhã foi a hora da chegada a Havana.
 Antes de se passar na alfândega era obrigatório o visto. O que, por sua vez, exigia, previamente, o registo e o pagamento de um hotel.
 No balcão do turismo (Inturist) estava à nossa espera a Ayola, o nosso contacto.
 Deu-nos um voucher para quatro dias no hotel Capri. Uma surpresa com o preço do hotel: $280 USD.

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créditos: Andarilho.pt

O aeroporto indiciava que tínhamos regressado algumas décadas no séc. XX.
 A confirmação foi na saída. Dezenas de carros parados, modelos norte-americanos dos anos 50.
 O bafo de ar quente e húmido ajudava a criar um ambiente diferente. Tropical.
 A temperatura  média no verão é de 32 graus e há mais humidade.

Enquanto esperávamos por um táxi, a Ayola deu-nos a explicação oficial sobre a obrigatoriedade de todos os pagamentos dos turistas serem apenas em US dólares – é para simplificar a vida ao turista que não precisa de cambiar dinheiro.

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Pois era…. já antes, na URSS, tivemos essa experiência! O turista pagava mais do dobro! Oficialmente só podíamos usar dólares.  Hoje a situação é diferente.

Como não estava fácil apanhar um táxi a Ayola ofereceu-nos boleia no seu Lada.
 Na viagem, enquanto descobríamos as ruas da cidade, Ayola falou-nos da aposta que Cuba estava a fazer no turismo. Em 1989 tiveram 200 mil turistas e Varadero era uma praia de sonho.
 Ficou marcado para depois do almoço um encontro para definirmos o programa da viagem.

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Hotel Capri créditos: Andarilho.pt

O hotel Capri ficava na zona nova da cidade. Um edifício grande, mais de uma dezena de andares, mas que precisava de obras de restauração. Os quartos estavam decadentes, sujos e com vestígios de muito uso.

A exceção eram os candeeiros, cujos candelabros resplandeciam porque estavam protegidos por plásticos.

Nessa manhã não havia água quente e a TV estava avariada. Os corredores de carpete azuis tinham lixo. No entanto, deviam ser confortáveis porque numa manhã acordámos com o corredor cheio de coreanos a praticarem taekwondo. Exercitavam os músculos e as cordas vocais com gritos de combate. 
Simpático para os vizinhos que queriam descansar.

O melhor de tudo era a simpatia dos empregados e o pequeno-almoço com sumo de melancia, pão, tarte, compotas e café cubano.

Malecón

Um dos passeios mais interessantes em Havana era no Malecón, uma avenida ao longo do mar.

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Malecón créditos: Andarilho.pt

Tem 8km de extensão e era muito frequentado, principalmente por casais de namorados ao entardecer. Durante a noite havia muitas tendas que vendiam sumos e fritos. Existiam também espaços de diversão que chamavam cabarets.

O Malecón separa física e simbólicamente o Atlântico, em direção aos EUA e os prédios e praças de Havana.
 Em alguns locais estavam afixados cartazes, dirigidos para os EUA, com mensagens contra os gringos.

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Malecón créditos: Andarilho.pt

A avenida tem um muro ao longo do mar. Frequentemente, vagueavam por aqui alguns miúdos. Fugiam do calor com banhos na água e também se via com alguma frequência gente a boiar em câmara-de-ar dos pneus. Quatro anos depois, em 1994, alguns cubanos - os “balseros” -  improvisaram embarcações com este tipo de material para tentarem a travessia até à Florida.

Fotografias & filmagens

Em frente ao monumento dedicado às vítimas del Maine o Geraldo, meteu conversa. Perguntou a nossa opinião sobre Cuba. Era jovem, disse que era mecânico e tinha acabado de arranjar um carro a um turista. Prontificou-se a levar-nos a Havana velha.

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Monumento vítimas del Maine créditos: Andarilho.pt

Enquanto eu fazia as primeiras filmagens apareceram outros turistas com os quais meteu conversa e desapareceu.
 Este comportamento foi repetido várias vezes. Começavam o contacto por mero acaso e, depois de satisfeita a curiosidade, iam embora.

Os cubanos metiam-se pouco com os turistas. Quando o faziam era para o mercado negro de dólares ou de produtos cubanos. Quanto a serem fotografados ou filmados o comportamento era quase antagónico.

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Alguns até se ofereciam para serem fotografados. Outros, quando percebiam que eram o alvo das câmaras, desapareciam de imediato. Uma vez, perante uma fastidiosa insistência de um jovem, virei a camara de filmar para ele e nunca mais o vi.

Cerco à embaixada de Espanha

O acesso a Havana velha pelo Malecón implica passarmos em frente da embaixada de Espanha. Fica no quarteirão que dá acesso à avenida principal.

Na altura vários cubanos refugiaram-se no interior da representação diplomática e o edifício estava rodeado de medidas de segurança.

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Militares em redor da Embaixada de Espanha créditos: Andarilho.pt

Todo o quarteirão estava cercado com uma barreira amarela. No interior do perímetro de segurança estavam muitos militares. Segundo a versão oficial, protegiam a embaixada de novas incursões. Apesar da polémica os militares nada fizeram para nos impedir de fotografar e filmar. Um deles explicou-nos que eram criminosos que se tinham refugiado na embaixada. Havia liberdade em Cuba, estava tudo bem.
 O único problema que verdadeiramente o incomodava era a presença dos militares cubanos em Angola onde tinha um filho.

Os cubanos circulavam em frente do edifício e pareciam ignorar o que se passava. Passei por lá várias vezes e uma das últimas foi num táxi. O condutor tinha 25 anos. Foi o contacto que mais me marcou nesta viagem a Cuba.

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Questionado sobre o que se passava, respondeu com a versão oficial.
 Após alguma insistência da nossa parte, começou por dizer que não eram apenas delinquentes os que ocupavam a embaixada. Também estavam estudantes, médicos e desempregados. Muitos deles estavam em desacordo com o regime. São dissidentes políticos.
 Este descontentamento encontra-se também em outros cubanos que gostariam de sair do país.

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Muitos outros iriam pedir refúgio em outras embaixadas se não fosse a proteção policial. 
Agora (em 1990),  já nem os estudantes vão para os países de Leste. Com a abertura no Leste europeu (perestroika)  Fidel fechou as portas aos estudantes, e estamos ainda mais desalentados. O líder cubano procurava na altura aliados na América Latina.

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Praça da Revolução créditos: Andarilho.pt

O jovem taxista achava que as reformas iam demorar, o que só vai contribuir para o isolamento de Cuba. Ele próprio gostaria de sair. Estava sem expectativas, o que posso fazer?Nos EUA, na Europa, cada um define a sua vida. 
Já parados em frente do hotel Colina ele perguntou: que fazes tu? Respondi: Sou jornalista.
 Pois, acrescentou ele, escolheste a tua profissão, o que gostavas de fazer. Pode correr bem ou mal. Mas foi uma escolha tua. Eu não. O meu horizonte termina neste vidro e apontou para o para-brisas do carro. Escolheram que eu seria taxista. Vai ser esta a minha vida. Quando muito, porque sei línguas e contacto com turistas, podem mandar-me para guia turístico. Olhei para o vidro e fiquei amargurado. Depois desta conversa prometi nunca mais regressar a Cuba enquanto se mantiver o atual regime.

Passeo Martí

Havana é uma cidade muito quente e húmida, repleta de prédios coloniais, muitos deles degradados.

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Em algumas ruas da cidade sucediam-se prédios com andaimes a segurar o piso superior créditos: Andarilho.pt

As fachadas eram tipicamente hispânicas com cores em tons suaves de azul, verde, amarelo e branco.
Alguns edifícios tinham no interior estacas que seguravam o teto do piso superior. Um processo que se repetia pelos andares seguintes. Muitos prédios estavam neste estado. Por vezes uns a seguir aos outros.

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Jardim no Passeo Marti créditos: Andarilho.pt

Uma excepção é Paseo de Martí, que se inicia no quarteirão da Embaixada de Espanha. É uma das avenidas mais interessantes de Havana. As fachadas dos prédios foram recuperadas e o efeito era espetacular. Longas colunas e paredes e telhados com ornamentos. 
A arquitetura barroca e neoclássica era visível em alguns edifícios e monumentos.

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No largo central destacava-se claramente o jardim (central park), o Capitólio e o Hotel Inglaterra.
 É um edifício lindíssimo.

O Capitólio é também um edifício interessante, com arquitetura inspirada no Capitólio dos Estados Unidos, em Washington, e começou a ser construído em 1926.
Foi a sede do governo de Cuba após a Revolução Cubana em 1959.

Toda esta zona está classificada pela UNESCO e foi recuperada com o apoio desta instituição.

As ruas de Havana são numeradas. As que têm nomes são alusivos a revolucionários e outros heróis nacionais e internacionais. Também em muitas ruas encontravam-se edifícios governamentais ou de organizações políticas.

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Área reabilitada pela Unesco créditos: Andarilho.pt

A pobreza era evidente. Em algumas ruas de Havana velha, na área não intervencionada pela Unesco, cheirava a urina e o escoamento das águas era feito para a rua. As crianças vinham pedir gomas, uma ou outra vez alguém nos solicitava a oferta de um produto ou serviço. Nada mais. O único pedinte que encontrámos foi à porta da Catedral. Estava a decorrer uma missa e os fiéis enchiam quase metade doa lugares.
 Sentado nas escadas um homem com alguma idade meteu conversa. Disse que era um comerciante, a sua loja foi “nacionalizada” com a revolução e agora era reformado. Ganhava 65 pesos por mês. A mulher estava doente e como tinha pouco dinheiro, estava a pedir ajuda.
Não se sentia incomodado, nem com receio da polícia, por pedir esmola. Foi o único caso que vimos em Cuba.

O convívio da rua

Havia muito gente descontraída nas ruas, à beira das casas, à janela, a passear... Uns a verem televisão outros na conversa.

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Quase todas as pessoas com mais idade tinham um abano, uma folha ou um livro, para se refrescarem. Fica-se com a ideia que parte do dia de muitos havaneiros era na rua. É verdade que, conforme nos disseram, muitos estavam de férias, mas sentia-se o prazer do convívio nas ruas.

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Nas avenidas principais muitos aproveitavam as sombras. É nas ruas mais estreitas, residenciais, que se viam as pessoas com mais idade a irem a lojas de rua e a conversavam pelo caminho. Outros estavam sentados à porta de casa. Uma camisa leve e um olhar curioso.

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Os mais jovens brincavam, em particular as crianças, que procuravam as ruas mais frequentadas por turistas.

Havana tem mais de dois milhões de habitantes, mas nessa altura, não se sentia a densidade populacional.

Revolução

A iconografia revolucionária encontrava-se em toda a cidade. Em cartazes, monumentos, nomes de praças...

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Também era vulgar no interior das casas estarem pendurados quadros com a foto de Fidel Castro ou Che Guevara.

As expressões revolucionárias nos espaços públicos eram alusivas às metas traçadas pelo governo e ao envolvimento dos cidadãos no esforço comum de desenvolvimento e de defesa da “pátria” e dos valores revolucionários.

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Havia também referências a momentos revolucionários. Em defesa da independência e momentos decisivos da Revolução cubana. 
Naquela altura, a iconografia e o discurso estava focado no nacionalismo e na construção de heróis.

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Uma dessas referências muito citadas neste cartazes era “Baraguá”, um protesto que fomentou a independência de Cuba de Espanha e é utilizado como símbolo do povo cubano na sua luta pela liberdade.

Nos hotéis, onde os aparelhos de tv funcionavam, havia três canais.
 Um era dedicado aos turistas, o Canal del Sol.
 Transmitia documentários sobre Cuba e vídeos norte-americanos legendados em espanhol.

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Além do Canal del Sol, havia ainda mais dois canais, de programação nacional (em Havana era possível captar um canal emitido a partir de Miami, mas não era transmitido nos hotéis). Os canais nacionais eram a Cubavision e a televisão Rebelde TV.
 Ambas transmitiam um jornal às 20h.
 Num dia, a abertura foi a leitura de uma mensagem de Fidel aos líderes dos países árabes. Dois locutores – uma mulher e um homem – demoram cerca de 10 minutos a ler o texto do “comandante em chefe”.
 Para evitar a monotonia, a leitura era alternada.
 Depois, foi uma notícia sobre a situação no Golfo Pérsico com imagens já vistas em Lisboa três dias antes.

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créditos: Andarilho.pt

As terceira e quarta peças do serviço informativo foram sobre deslocações de Raul Castro a uma região administrativa.
 Ao final da noite, num noticiário chamado 24 horas a abertura voltou a ser a mensagem de Fidel.
 Seguiu-se um comentário do apresentador, onde eram colocados em confronto os pontos de vista do Iraque e dos EUA. O comentário era numa linguagem depreciativa para os EUA e com uma extensa enumeração do material militar norte-americano.
 Neste noticiário foram editadas as mesmas notícias e pela mesma ordem, do jornal das 20h (no dia seguinte, o Granma publicou as mesmas histórias).

Fila para o restaurante

Ao longo das ruas havia pequenas lojas, sapatarias, armazéns do estado e restauração.
 Praticamente em todos os pontos de venda de alimentos os cubanos tinham de fazer fila.

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Por exemplo, nos restaurantes muitas mesas não estavam ocupadas mas os clientes tinham de esperar na rua pelo ritmo do serviço. Por vezes, muito tempo. 
Num restaurante mandaram-nos esperar uma hora. Os restaurantes com comida estrangeira eram apenas dos países de Leste e da China.

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Músicos na Divina Pastora créditos: Andarilho.pt

Na altura um dos restaurantes mais conhecido pelos turistas era o Divina Pastora. Ficava na Fortaleza, na península de Havana. 
O Divina Pastora era um lugar romântico, embora situado numa fortaleza militar. Comia-se bem e não era caro.
 Tinha um bom serviço e os empregados eram simpáticos. 
Um dos pratos foi brocheta de caguama siguanea. É pão frito que leva em cima carne de tartaruga grelhada no espeto. A gratificação aos músicos e empregados teve ser feita rapidamente e, assumida por eles, de modo semi-clandestino.

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Fortaleza créditos: Andarilho.pt

Na Fortaleza formos também aos 12 apóstolos.
 Apesar de várias mesas não estarem ocupadas ou reservadas, tivemos de esperar cerca de meia hora.
 O restaurante servia comida crioula mas não se comparava com a Bodeguita del médio.

Um dos produtos que se via muito em Havana e Varadero eram as arepas, um alimento redondo, em forma de panqueca, de cor amarela e parece ser frita e com recheio.

Em princípio, os turistas não tinham acesso a estas lojas. Uma vez, em Varadero, numa pequena mercearia, a senhora que estava a atender não podia receber o pagamento em dólares. Só em pesos, mas nós não tínhamos a moeda local.
 Foi simpática e ofereceu-nos uma garrafa de leite.

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No dia seguinte fomos oferecer-lhe roupa e canetas. Ficou preocupada com a nossa oferta. Só a recebeu quando não havia mais ninguém na loja e escondeu de imediato o saco por baixo do balcão de madeira.
 Depois, suspirou e agradeceu com um enorme sorriso.

Bodeguita del médio

Mesmo ao lado da Catedral fica a famosa Bodeguita del médio.

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Bodeguita del Medio créditos: Andarilho.pt

Estava repleta. Turistas ocupavam todas as mesas e o bar.
 Conseguimos entrar ao fim de 15 minutos. A tasca tipicamente espanhola mantinha a sua traça original.
 Espaço pequeno, dois pisos, mesas e bancos de madeira e nas paredes não há um pequeno espaço livre. Por todo o lado há inscrições. Nomes e dedicatórias de gente proveniente dos mais variados países.

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Bodeguita del Medio créditos: Andarilho.pt

Comemos arroz, feijão preto, porco, frango, vegetais e mandioca.
 Obrigatório são os mojitos.
 Dois músicos “enchiam” o ambiente.

Charutos para turistas

Os turistas só tinham acesso a lojas da Inturist e habitualmente estavam localizadas em hotéis.
 Vendiam souvenirs a preços muito superiores aos do mercado local.

Em Havana, próximo da Bodeguita del medio, comprámos no mercado negro uma caixa com 25 charutos que custaram 15$USD.
 Na Intourist do Habana Libre vendiam a 119$USD. Embora, nem sempre o negócio do mercado negro corre bem.

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Habana Libre, o hotel de referência em Havana créditos: Andarilho.pt

Apesar de a polícia vigiar as ruas, fomos convidados por dois jovens a irmos até uma casa, não muito longe do restaurante, onde foi feita a transação. Antes de sairmos, um deles foi espreitar à porta. Foi neste ambiente que se desenrolou a compra. Não se estranhe, assim, que por vezes se tenha uma surpresa. Foi o caso de duas turistas que conhecemos em Havana e quando as encontrámos mais tarde, em Varadero, contaram que também tinham comprado uma caixa mas estava vazia.

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Confecção de charutos na Habana Libre créditos: Andarilho.pt

Na altura as lojas só para turistas eram também uma boa forma de aprofundarmos o relacionamento com os locais. Em Varadero era desesperante a espera, só para sermos atendidos, no restaurante do alojamento. Tudo mudou no dia em que um empregado, e depois outro, nos pediram para lhes comprarmos giletes, um desodorizante roll on (uma prenda para a mulher) e “gomas” na Intourist. Oferecemos os produtos e poupámos horas no atendimento do restaurante.

Carros

Poucos carros europeus e norte-americanos.

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A exceção eram os veículos do tempo do Fulgencio Baptista que foi destituído de Presidente de Cuba em 1959. O corte de relações comerciais dos EUA dificultou a manutenção destes carros, mas os cubanos desenvolveram oficinas que conseguiram manter operacionais um número considerável de veículos. Na altura, em 1990, havia muitos a circular, com cores vivas e em bom estado de conservação.

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Era um encanto para os turistas. No entanto, alguns cubanos não sabiam apreciar o que tinham. Em Varadero um carro estacionou e a porta da frente ficou junto a uma pedra no passeio. O ocupante do carro não se importou de abrir a porta e, com força, empurrar a pedra. Já não há carros destes!

Universidade

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A universidade 
de Havana é um edifício enorme e de arquitetura neoclássica.  A entrada é feita por uma longa escadaria. É uma das universidades mais antigas da América. Tinha 16 faculdades.
 Os edifícios estavam encerrados. 
Na zona central, ajardinada, estava um tanque militar que tinha sido conquistado por estudantes durante a revolução.

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Em algumas portas estavam afixados cartazes com slogans revolucionários.
Num outro edifício o destaque era o calendário do campeonato do mundo de futebol que estava afixado num placard.

Varadero

Fomos de táxi até Varadero.
Várias paragens para ver a paisagem.

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Estrada para Varadero créditos: Andarilho.pt

Primeiro montanhas e ambiente rural.
 Uma flora densa, verdejante, que cobria extensas montanhas.
 Em zonas mais planas, o verde era cortado por estradas e caminhos e também por máquinas de extração de petróleo e condutas. Próximo de Varadero surgiram as praias azuis da costa cubana.

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Villa Granma créditos: Andarilho.pt

A Ayola fez a reserva para a Villa Granma.
 Mais uma vez não nos foi possível escolher. O alojamento foi uma opção do turismo oficial.
 Na verdade, também não havia muito mais para escolher. Varadero não tinha um terço das opções que tem hoje.

O Granma era um conjunto de pequenos prédios de apartamentos, cada edifício tinha uma designação. O nosso era Guacanayabo.
 Havia um espaço verde, restaurante e uma loja da Intourist que tinha vários alimentos.
 Os iogurtes de manga eram muito bons.

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A praia de Varadero era de facto muito boa, mas não era tão sensacional como os guias a catalogavam. Areal muito extenso, areia branca e água de azul claro. Ao fim de semana, a praia estava repleta de gente. Cubanos que estavam de férias.
 Num dia desistimos.

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créditos: Andarilho.pt

Noutro dia fomos dar um passeio. Alugamos uma moto e percorremos os arredores de Varadero.
 Vimos alguns empreendimentos turísticos de grande qualidade, junto à costa.
 Era de um destes empreendimentos que partia o helicóptero que transportava turistas até Havana e que fazia voos rasantes sobre as praias.

Livres

Desde a chegada a Havana que a agência de viagens oficial fazia todas as marcações e afirmavam que não havia alternativa para podermos circular com liberdade e sem entraves das autoridades. Já estávamos a ficar cansados de preços inflacionados e serviços de qualidade inferior ao que desejávamos.
 Por exemplo, para o regresso a Havana, a partir de Varadero, a Ayola disse que o melhor transporte era um táxi e vendeu-nos um voucher por 70$USD.

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Hotel Colina créditos: Andarilho.pt

Descobrimos, entretanto, que a outra agência do estado, a Cubatur, tinha um autocarro para turistas e o bilhete custava 30$USD. Foi num destes autocarros o regresso a Havana e, finalmente, nós (nós!) escolhemos o hotel. A opção foi o  Colina.
 Estava muito bem localizado. Próximo do Habana Libre, quase em frente à Universidade e a 300 metros do Malecón.
 Era mais antigo do que o Capri, mas muito mais acolhedor. Um quarto duplo custava 40$USD. Além do mais, era asseado. O Colina tinha um restaurante sossegado e um pequeno-almoço sensacional.

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Vista do hotel Colina créditos: Andarilho.pt

O quarto estava no quinto piso e abarcava uma vista magnífica da cidade. A luminosidade ao final do dia era fantástica. Como se Havana repousasse, envolvida em partículas douradas.
 O prémio da Liberdade.

Cultura

Havana era uma cidade com grande diversidade cultural. Cinemas, música, bailado, moda, exposições...

No Teatro Nacional, na sala Luis Buñuel passava um ciclo de cinema dedicado a Ava Gardner e estava programada a exibição de Indiana Jones and the Last Crusade (Steven Spielberg, 1989).
Numa outra sala, um grupo representava O Metro e, na rua, jovens distribuíam folhetos.

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Desfile de moda créditos: Andarilho.pt

Havia ainda museus, como por exemplo o  Museu de Arte Colonial  e espaços dedicados às artes, o palácio de Marques Arch, um edifício colonial bem preservado onde era possível encontrar trabalhos gráficos de artistas cubanos, e  a  Casa de las Americas . Este último é um edifício de arquitectura moderna.
 Criada meses depois da Revolução a instituição pretendia ser um ponto de diálogo cultural com outros povos do continente americano.
 No dia em que fizemos a visita estava em exposição “Herreros del vodu” do Haiti.
  A entrada era livre. Um funcionário, já com alguma idade,  pensou que éramos brasileiros. Por isso, um dos temas da conversa foram as telenovelas brasileiras, que eram muito apreciadas em Cuba.

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Herreros del vodu créditos: Andarilho.pt

A Dona Beija era transmitida às 21h e deixava as ruas vazias. Nós gostámos de drama. Se não morre hoje, é amanhã. Somos latinos. Só os intelectuais é que não gostam de telenovelas. Até Fidel já viu, pelo menos a Escrava Isaura e disse que gostou. Questionado sobre o acesso gratuito à exposição, o mesmo empregado respondeu-nos que em Cuba era gratuito o acesso a instituições culturais.
Para o teatro já era diferente.
 O preço eram dois pesos e para o cinema era um peso, o valor que já se pagava antes da Revolução. A única diferença é que nessa altura eram exibidos dois filmes: uma estreia e uma reposição.

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créditos: Andarilho.pt

A visita à exposição não foi muito demorada. Ofereceram-nos um folheto explicativo do vodu do Haiti impresso em papel semelhante a papel de embrulho.

Fomos ainda ao teatro assistir a um espetáculo da Companhia de Dança Contemporânea de Cuba. Metade da plateia estava cheia. Indisciplinados. Gargalhadas, conversas em voz alta e pessoas a mudar de cadeira com o espetáculo a decorrer.
 Durante duas horas a Companhia Danza Contemporânea de Cuba apresentou a sua temporada de verão dedicada al cubadanza’90.
 Tagencial, Ultima Cita, Metarmofosis e Escena to bailarines constituiam o programa.
 Gostei muito de “Metamorphoses” de Narciso Medina com música de (vídeo do show em 2008) e achei sensacional “Escena para bailarines”, uma coreografia de Victor Cuellar que ocupou toda a segunda parte.

O número misturava o intervalo com a peça de dança. A plateia, a assistência, fazia parte da cena, com os bailarinos a andarem pelo meio dos espectadores ou por cima, através de uma corda presa num dos balcões.
 Um efeito surpreendente foi a música dos Génesis com a leitura do kama sutra. Inspirada no Fausto de Goethe, esta coreografia exalta “el triunfo del amor y el bien sobre las fuerzas malignas”.

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Praça Havana créditos: Andarilho.pt

Havia outras salas, essas sim, mais sofisticadas e até com espectáculos que mais se assemelham aos cabarets ocidentais.
 O mais famoso era o Tropicana.
 Também era frequente encontrar cubanos em hotéis. Essencialmente ao fim de semana, para o jantar e dar um pé de dança.
 Outros visitavam exposições. Numa delas um grupo de jovens aguardava a vez numa fila para brincarem com computadores. Na parte central do pavilhão estava em exposição artesanato, motos da polícia e num palco desfilava a mais recente moda cubana que tinha modelos desportivos bem elegantes.
 Seria pecado fechar o relato sem falar da Radio Reloj. Foi uma surpresa.

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créditos: Andarilho.pt

Na altura, eu trabalhava numa rádio de informação, com noticiários de meia em meia hora. 
A Rádio Reloj era inédita. Transmitia ininterruptamente notícias. Sem parar. Como também o som de fundo. De um relógio a marcar os segundos.
 A leitura das notícias era feita por dois jornalistas. Durante várias horas. Só paravam de ler noticias para dizerem as horas e o nome da estação. 
Não há sons, comentários, música… Apenas notícias: titulo e lead.

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Em Cuba, nessa altura, era possível ouvir várias estações de rádio.
 Foi um dos nossos hobbies em Varadero. Além das nacionais, havia emissões regionais.
 Em onda média ouvia-se uma rádio emitida a partir dos EUA. O conteúdo era completamente dirigido para Cuba.

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