Contrabandeava entre a Aldeia do Bispo, onde vivia, e Valverde.

Penamacor - Valverde
Serra antes de Espanha créditos: Who Trips

O caminho era pela Senhora do Bom Sucesso. Um nome auspicioso para os contrabandistas que tinham receio da Guarda Fiscal e da Guardia Civil.
Habitualmente não ficavam detidos, apenas lhes tiravam a mercadoria. Apesar de ter havido casos de tiros e mortos.

Penamacor - Valverde
Santuário do Bom Sucesso créditos: Who Trips

Do alto do santuário do Bom Sucesso, Luzia Manata seguia acompanhada de mais mulheres e, por vezes, com uma filha e escolhia o melhor percurso para atravessar o rio e a fronteira.

Num dia, no regresso, choveu muito, o rio Torto encheu e mãe e filha tiveram de esperar até de madrugada. As mulheres ataram os xailes umas às outras para ajudar a travessia e dar o sinal de perigo, caso alguma estivesse em dificuldades.

Penamacor - Valverde
Ribeira antes da fronteira créditos: Who Trips

O contrabando seguia escondido no meio da roupa.
O chamado contrabando da barriga deve-se a esta particularidade. Às camadas de roupa para tentar camuflar o contrabando.

A filha de Luzia Manata conta que chegou a atravessar a fronteira com três colchas enroladas ao corpo, cada uma coberta com uma bata.

Penamacor - Valverde
Antigo posto da Guarda Fiscal na fronteira créditos: Who Trips

A mãe, quando tinha muitos pedidos, chegou a usar sete batas para esconder sapatos e louças que vinham presas na barriga.
Outras vezes, levavam calçado muito velho e traziam sapatos novos.
Luzia Manata vendia os produtos em Penamacor e, frequentemente, ia a Espanha já com encomendas.

Penamacor - Valverde
Antigo posto da guarda espanhola na fronteira créditos: Who Trips

Na fronteira, as mulheres eram mandadas parar e depois revistadas pelas mulheres dos guardas. Os polícias espanhóis batiam com uns paus para tentar detectar pelo ruído se levavam alguma coisa no meio da roupa e, se havia alguma suspeita, as mulheres eram encaminhadas para uma casa onde eram revistadas.

Em Penamacor havia Guarda Fiscal e todos se conheciam. Guardas e contrabandistas.
Esta relação e a aceitação social deste tipo de contrabando é descrita de modo muito interessante no estudo Carregos – Estudo do Contrabando na raia central, de António Manuel Conceição Cabana.
Um outro trabalho referente a esta zona da raia é Caminhos do Contrabando de Delfina Ermelinda Pinheiro Campanha Baptista.

Penamacor - Valverde
Sem fronteiras créditos: Who Trips

Abolidas as fronteiras, terminou o contrabando mas não se pode dizer que findou o transporte “irregular” de mercadorias.
Ao revisitar o roteiro de contrabando do santuário do Bom Sucesso até Espanha já não se vê gente a fugir das autoridades fiscais mas, em Valverde, observam-se muitos carros a abastecerem-se de combustível e de botijas de gás.

Penamacor - Valverde
Carro de matrícula portuguesa numa estação de serviço em Valverde créditos: Who Trips

Numa bomba de gasolina estava um carro com a mala aberta. Tinha duas botijas e aguardava que o posto de combustível recebesse novo fornecimento para trazer mais duas para Portugal.

O roteiro do contrabando da barriga faz parte do podcast semanal da Antena1 Vou Ali e Já Venho e pode ouvir aqui.
A emissão deste episódio, O roteiro do contrabando da barriga, pode ouvir aqui.

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