"E não quero viajar em figurão; quero ir a toda a parte, quero ver as coisas à vontade, quero que façamos assim uma viagem em operários."

O gosto tardio pelas viagens

Depois de enviuvar, Fialho de Almeida entrou numa fase da vida em que o tempo sobrava e o dinheiro não o preocupava em demasia (a sua falecida esposa era de uma família de proprietários alentejanos abastados). Aliás, poderá ter sido essa falta de urgência – o bom casamento – que limitou o engenho de Fialho de Almeida em produzir uma grande obra literária, principalmente ao nível da ficção, e vencer algumas das suas limitações estilísticas, embora a sua fina ironia e sentido crítico lhe tenham conferido algumas das páginas mais ilustres da língua portuguesa.

Fialho de Almeida
Retrato de Fialho de Almeida (1857-1911) @wikipedia | Public Domain créditos: wikipedia

10 anos de viagens

A partir de 1901, Fialho de Almeida viaja com alguma regularidade pela Europa. Na década que teve pela frente até à sua morte em 1911, em Cuba (a do Alentejo), Fialho conheceu a França, a Bélgica, a Suíça, e a Espanha. Mas, foi principalmente o país vizinho que prendeu a sua atenção e nele sobretudo a Galiza, que percorreu calmamente em três ocasiões: entre 10 e 25 de Setembro de 1903; 3 de Junho e 16 de Julho de 1905; 23 de Setembro e 10 de Outubro de 1907 (juntamente com Leon). Os apontamentos que deixou, hoje guardados e tratados, são um importante elemento do património cultural português e galego. Ao lermos as suas páginas sobre a Galiza, não podemos deixar de sentir a enorme ternura que essa terra fecunda do noroeste da Península Ibérica despertou no combativo e enérgico alentejano.

A notável biblioteca de viagens de Fialho de Almeida

Ocatálogo da sua extensa e rica biblioteca tem mais de 300 páginas.

É interessante notar que muitos dos títulos aí constantes são livros/guias de viagens ou livros sobre o imaginário da viagem, sendo os casos mais notáveis os livros de ficção de Júlio Verne que hoje ainda continuamos a ler: A Ilha Misteriosa; Á Roda da Lua; Da Terra à Lua;Aventuras de Três Russos e Três Ingleses; Aventuras do Capitão Hatteras; O Deserto de Gelo; Os Ingleses no Pólo Norte;Cinco Semanas em Balão;Os Filhos do Capitão Grant; Viagem ao Centro da Terra; Vinte Mil Léguas Submarinas. Esses volumes colocam o leitor perante vários cenários de viagens intercontinentais por terra, mar (à superfície ou não), até mesmo para o exterior do planeta ou para o interior dele. Esses são livros que rasgam horizontes e têm estimulado a imaginação de gerações, especialmente no tempo de Fialho de Almeida, antes de o cinema se tornar “mainstream” e a rádio, a televisão ou a internet serem inventadas.

Relativamente aos títulos de não ficção é interessante notar que cerca de metade desse conjunto é sobre Espanha e boa parte trata sobre a Galiza. Anotamos aqui alguns: Esbozos e siluetas de un viaje por Galicia,de Lisardo R. Barreiro; Por los Rios Bajos – Notas de Viage por Galicia, dePerez Nieva Alfonso; Recuerdos de Galicia, de Vesteiro Torres. Alguns títulos de história e cultura galega também lá aparecem. Encontram-se também livros deconsulta como o Guia para los viajeros de los Ferrocarriles de España, Francia y Portugal y de los servicios maritimos, do qual dispunha duas edições, uma de 1905 e outra de 1907 e que devem ter sido essenciais no planeamento das duas viagens que fez ao país vizinho em cada um desses anos.

Baiona
Baiona, Galiza | Pixabay créditos: Pixabay

A Galiza em 1905 e hoje

O desafio para percorrer essa terra irmã que é a Galiza, que pela sua proximidade com Portugal tantas vezes desconsideramos, torna-se insuperável ao lermos os cadernos de viagem (no nosso caso seguimos a edição Cadernos de Viagem. Galiza, 1905, publicado pelo O Independente em 2001). E o mais interessante é, mais de cem anos depois, encontrarmos as suas palavras nas ruas, pracetas e monumentos, ainda vivas. E às quais não ficamos indiferentes.

Percorra na galeria abaixo alguns dos sítios percorridos pelo escritor:

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