Senhoras e senhores, meninos e meninas, sejam bem-vindos aos circo Phare: Os medos e as angústias

Eram medos que se espalhavam pelo dia, pela noite, pelos sonhos que todos sonhavam: ora rosto indefinido, ora ausência de rosto – só voz, barulho. Silêncio. Às vezes eram feitos de silêncio, repartiam-se em angústias silenciosas, caladas de voz: chegavam de pés leves; passos mudos que os iam ganhando, a cada um. Primeiro aos bocados, às partes, para depois os ganharem em todo. Tremiam-lhes as pernas, gritavam-lhes as bocas, fugiam-lhes e encolhiam-se-lhes os corpos, fechavam-se as vidas.

Depois vinha a coragem – às vezes voragem – e abriam-se os corpos mingados pelo medo, cresciam em vontade de o ver, de lhe conhecer o rosto ausente, de saber as raízes que o alimentam. Uniam-se todos contra ele – uniam braços, pernas, cabeças – e juntos subiam mais alto para lhe chegar, para o agarrar, para o abafar. Calaram-no. Ganharam voz, força, vida.

Foi assim o espectáculo que vimos, é assim que o sei partilhar. Agora deixem-me contar-vos de tudo o que mora nos intervalos e bastidores do mesmo:

Fez-se silêncio - atento -, na tela projectavam-se rostos de crianças e jovens. E é aqui que esta escola de artes performativas se distingue de qualquer outra. Os rostos que nos mostravam eram dos jovens artistas e outros acolhidos pela instituição. Ao mesmo tempo descobríamos a história de cada um. Em comum: um passado marcado por abusos, negligência, pobreza, abandono, rua.

O Circo Phare é apenas uma vertente da Phare Ponleu Selpak (PPS), uma instituição sem fins lucrativos que trabalha com crianças carenciadas e vulneráveis, jovens adultos e respectivas famílias, com três eixos de intervenção: escola de artes, apoio social e programas educacionais.

O espectáculo é uma melodia ecléctica onde música, dança, acrobacia, malabarismo e contorcionismo transpiram a cultura cambojana, num misto de teatro tradicional e moderno. Além da performance, ressalta a teatralidade, a expressividade, emoção, energia e entusiasmo de cada um dos artistas. Artistas não apenas no palco mas na volta que deram às suas vidas, fazendo dos seus talentos um escape a todas as adversidades. Resiliência: é disso que são feitos.

Foi a nossa primeira ida ao circo juntos, em família. Foi aqui, em Siem Reap, um circo diferente, um circo sem números com animais forçados e maltratados em troca de entretenimento. E, para lá disto tudo, somam-se e crescem as razões para esta ida a este circo: todos os rendimentos são reinvestidos em actividades Phare Ponleu Selpak.

A Mia, viu e ouviu: atenta. Assustou-se com o barulho dos medos ali exibidos, surpreendeu-se e aplaudiu malabarismos, acrobacias e cantorias.

Para lá do momento bem passado, foi momento de (re)lembramos que há lutas, vidas, possibilidades e oportunidades desiguais. Tão desiguais. E, se do lado cheio da balança – onde tudo há – há quem se esqueça de ser grato pelo que tem a custo de um nada; no lado mais leve, onde nada parece existir, há quem faça dessa ausência alento para subir mais alto para lhe chegar, para a agarrar: à vida.

Este artigo foi originalmente publicado no blogue Menina Mundo.

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