Entrámos e percorremos a sua espinha dorsal (eixo norte-sul) a seis pés no chão. Foi um percurso lentamente saboreado, ao ritmo dos seus passos e dos nossos olhos, afinal este era o primeiro lugar que visitávamos em Pequim. Queríamos absorver cada pedaço, cada cor, cada telhado, cada rosto.

Há uma simetria perfeita nesta arquitetura, à medida que avançamos vamos encontrando os cinco principais salões, cada um separado por corredores abertos: o Salão do Reis Celestiais (the Hall of the Heavenly Kings –Tian Wang Dian), o Salão de Harmonia e Paz (the Hall of Harmony and Peace – Yonghegong), o Salão de Bênçãos Eternas (the Hall of Everlasting Protection –Yongyoudian), o Salão da Roda de Dharma (the Hall of the Wheel of the Law – Falundian), e o Pavilhão da Felicidade Infinita (the Pavilion of Ten Thousand Happinesses – Wanfuge).

De residência do imperador Yong Zheng passou a mosteiro, sendo vivido como lugar ativo de culto. Passámos a porta principal e se alongarmos o olhar, e o estendermos longe, percebemos nuvens de fumo que se repetem uma após outra: são mãos sem fim a lançar incenso para ser queimado nos incensários de ferro.

Quero guardar o que aqui se vive, o cheiro intenso a incenso, os rituais de rezas que – na harmonia dos gestos – me parecem danças cujos movimentos percebo através dessas nuvens de fumo-incenso. Não sei o que dizem, os movimentos são acompanhados de um silêncio que apenas o seu destinatário poderia pôr em palavras, ou talvez nem ele. Ficamos a ver.

Fomo-nos sentado, fomos andando: ora a passos lentos, ora a passos largos (quando os pequeninos dela se apressavam em correrias), fomos pela sombra oferecida pelos telhados largos que – nas suas pontas - apontam o céu. E nós olhámos: os telhados, o céu. Quero levar comigo este equilíbrio entre as cores fortes e a calma dos que ali moram – dos que ali fazem o seu dia a dia, a sua casa – em contraste com o movimento de vai e vem dos que estão de passagem: imagino que, por estes corredores, se estivessem a cumprir promessas antigas, que tenha sido um dia carregado de emoção para muitos dos peregrinos que se cruzaram e partilharam – generosamente – connosco aquele espaço (que é seu).

E nós, o que lhes demos em troca dessa generosidade? Respeito, interesse, atenção, aceitação. O olhar atento sobre o outro, na vontade de o ver. Quanto à Mia, o que havíamos imaginado está já a acontecer, aqui, no nosso primeiro destino. Ela está aqui, a ver, connosco, não queremos que perceba o que está a acontecer (é um entendimento que não é para hoje), mas expô-la a esta diferença é já fazer nascer nela o conhecimento da sua existência e com este o respeito pela mesma.

E ela viu, sentou-se: numa calma que não é a sua; calou-se: num silêncio que não é o seu; observou: rituais de uma religião que lhe é tão desconhecida quanto qualquer outra. E observará outras: para um dia, quando achar que é o momento, num ato livre, consciente e consentido (e com sentido) escolher a sua, se assim o entender. E eu gosto de a ver: aqui, daqui.

Este artigo foi originalmente escrito em Menina Mundo

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