Não muito tempo depois de ter chegado a Vienciana, a capital do Laos que entrou em lockdown no dia seguinte à minha chegada, recebo um e-mail a dizer que haverá um voo de repatriamento para a Alemanha no dia seguinte. Já há uns dias que a primeira coisa que fazia ao acordar era verificar o e-mail, na expectativa desta notícia. Ainda estava a abrir os olhos, quando vi o tal e-mail e nem o li todo no telemóvel. Apresso-me para ligar o computador, ler o e-mail na totalidade e comprar o bilhete para o voo, antes de ficar sem ele. Nessa altura, não fazia ideia de que existia uma lista inalterável de pessoas designadas ao voo.

Quando compro o bilhete, vejo que só restam 9 lugares e fico tão nervosa que já clicava nas setas para concluir a operação sem ler mais nada que estivesse à frente. Só depois de ter pago o voo é que consegui ler o e-mail de início ao fim, com calma.

Nem acredito que tenho um voo para a Europa. Estava em êxtase e nem cabia dentro de mim. Apressei-me a pensar no próximo passo e ver como chegaria a casa. Não há voos directos de Frankfurt para o Porto. Vou ter de passar por Lisboa. O que interessa é estar em Portugal.

Mas, depois, pensei que andar para trás e para a frente em Portugal não seria uma boa ideia. Não me queria estar a meter em viagens de comboio, metros e aumentar as probabilidades de contágio. Assim, pensei em ir para a França, já que lá tenho uma irmã. Compro voo para Paris, sem pensar em mais nada. Mais tarde confirmo que ela não me pode buscar ao aeroporto. Na França, têm de ter um papel para sair à rua e este não era um motivo válido, muito menos porque não tenho residência no país. Neste momento, toda a minha teoria cai por terra e está visto que de França lá terei de arranjar maneira de chegar a casa, que fica em Esposende.

No entanto, nessa mesma noite, recebo um e-mail a dizer que o meu lugar foi cancelado. Dizem que têm de dar prioridade a outras pessoas e pedem desculpa pelo incómodo. Nesse momento, cai-me tudo. Nem quero acreditar no que estou a ler. Leio o e-mail consecutivamente para ter a certeza que não estou a delirar. É verdade. Não tenho lugar no avião amanhã. Começo a desesperar e decido enviar e-mail para a embaixada para averiguar o que se estava a passar. Mais nenhum dos outros 10 portugueses em lista para esse voo recebeu tal e-mail. Fui só mesmo eu. Com toda a excitação desse voo, acabei por comprar outro e agora? Quem se responsabiliza por isso? Estava em tal stress que nem conseguia pensar.

Descubro que este e-mail só circulou de fontes oficiais para certos contactos, mas que estes contactos fizeram chegar a amigos a informação sobre o voo e o que aconteceu foi que pessoas que não estavam na lista para o tal voo começaram a comprar um lugar.  Começo a achar que foi por isso que me cancelaram o lugar, mas eu recebi a informação do voo através do e-mail da embaixada alemã, e não através de amigos. Penso, então, que pode ter sido um equívoco. Não demorou muito até que me dissessem que estava tudo bem com o meu voo para amanhã. O e-mail de cancelamento foi um erro. Respirei de alívio e pensei que estas pessoas só me podem estar a tentar matar do coração.

Na noite anterior ao voo de Laos para Frankfurt mal durmo. Acordo constantemente para verificar a hora, não vá o despertador falhar ou eu adormecer. Tenho de estar no aeroporto às 6 da manhã e reservo a viagem para lá através do hotel. No entanto, este não me inspira confiança nenhuma e fico a noite toda nervosa a pensar numa solução caso eles não tenham marcado o que pedi. Foi certinho. Quando chego à recepção, pouco antes das 6 da manhã, para ir para o aeroporto, o recepcionista não sabe de nada e não há ninguém com marcação para me vir buscar. Começo a ficar nervosa e penso que ele notou. Depois de lhe explicar várias vezes o que queria, após um telefonema da parte dele, tenho um táxi à porta 5 minutos depois. Até nem foi mau, tinha em mente um cenário bem pior do que uma espera de 5 minutos…

O aeroporto de Vienciana só vai operar um voo nesse dia, e é este de repatriamento. Todos os outros no painel informativo estão cancelados. Antes de entrar dão-nos gel desinfectante que está também espalhado durante as várias fases da entrada para este voo. Só precisamos de passaporte e uma declaração assinada. Numa mesa mais à frente está uma lista de nomes em papel. Vejo que alguns estão riscados com marcador cor de laranja, pouco depois de lá chegar, também o meu ficou riscado.

O voo sairia de Vienciana às 8.30h, mas acabou por sair 2h mais tarde. Não me interessa, tudo o que quero é que ele saia. O avião vai cheio. Terão de fazer mais viagens deste género porque ficou mais gente em espera, quando será, ninguém sabe.

Este não é um voo normal. Não há refeições quentes, mas ao menos há comida, umas sandes, bolachas e um bolinho delicioso de chocolate. Sento-me ao pé de mais dois portugueses e queixamo-nos de só haver 4 filmes disponíveis para visualização. Até que é anunciado que não estará disponível durante todo o voo qualquer tipo de entretenimento. E, nesse momento, os 4 filmes afinal passaram a ser suficientes. Calculo que seja para não haver mais custos associados ao voo a não ser o básico, mas não posso confirmar.

12 horas depois chegamos a Frankfurt, mas a minha jornada está longe de acabar. O voo que já tinha comprado antes para Paris é só no dia seguinte. Não posso entrar na Alemanha. Não me deixam passar a fronteira. A solução para os portugueses, italianos e espanhóis, que também vieram neste voo alemão, foi dormir no aeroporto, onde só o McDonald’s se encontrava aberto.

Antes de escolher um dos bancos para dormir, tenho de ver como vou para Portugal e compro um voo de Paris para Lisboa, mas não no mesmo dia em que chego à França. Só há voos para Portugal no dia seguinte.

Passei a noite no aeroporto de Frankfurt com os dois portugueses que posso agora chamar de amigos. A noite não foi má de todo. O banco que escolhi era bastante confortável. O único problema foi o frio. No dia seguinte, temos voos, eu para França, e os outros dois portugueses para Lisboa. São lisboetas, que sorte! A sua jornada acabará em breve e a minha ainda terá mais uns passos pela frente.

Em Paris, assim que chego, escolho o banco onde vou dormir e lá me instalo. Só há uma loja com comida aberta. Vendem sandes e snacks e fecham em pouco tempo. Abasteço-me com umas quatro sandes iguais. Não há mais nenhuma opção disponível. Nem há um local gratuito onde consiga beber água.

Pouco depois das 10 da noite, vêm umas senhoras que distribuem cobertores, água e um snack a quem ali está a dormir. Antes passou a polícia para nos recolher dados de passaporte e verificar que temos um voo marcado. Não são muitos e não temos nenhum local para comprar seja o que for. No entanto, dormir aqui foi bem pior do que em Frankfurt. Por volta da mesma hora que as senhoras vieram, ligaram os altifalantes com mensagens gravadas que não se calaram toda a santa noite. Foi uma noite em que fui acordada a cada meia hora já que o som era alto demais para me deixar dormir. Horrível!

Mas o meu espanto foi quando acordei. Um aeroporto, antes fantasmagórico, estava agora repleto de gente. Para onde vai esta gente toda e como andam a viajar nesta altura? O avião para Portugal estava com lotação de, pelo menos, 80%. E eu a achar que ia ser a única a estar naquele avião. Venho da Ásia e não sei como estão as coisas por cá, mas espantou-me ver que tantas pessoas estão ainda a viajar numa altura em que se apela a ficar em casa. Chegada a Portugal não há qualquer interrogatório ou controle. Como vi isso acontecer na Alemanha, pensei que aqui fosse igual. Somente me deram um panfleto a pedir para contactar o SNS assim que chegasse. Já o fiz.

Quando chego a Lisboa, os amigos portugueses, que fiz no primeiro voo, abrem-me as portas de sua casa para um banho. Nunca um banho me soube tão bem, pois sentia-me imunda. Os portugueses são conhecidos como pessoas muito generosas e, mais uma vez, também eu o pude verificar. Um obrigado a eles!

Depois de um banho na casa dos lisboetas e da primeira refeição quente em dias, lá vou eu para o comboio que parte para o Porto. Os lugares estão reduzidos para que haja distanciamento social. Apesar de não haver muitas pessoas no comboio, estas estavam distanciadas. Incrível foi também ver como a cidade estava vazia.

Chegada ao Porto, tenho de apanhar o metro para a Póvoa de Varzim. O meu pai não tem certeza de que me pode buscar, já que não se pode sair de casa a não ser para o essencial, portanto, decido ir de transportes até o mais perto de casa possível. Não quero arriscar. Mais de 4 horas depois de partir de Lisboa, vejo o meu pai, a última etapa até chegar a casa! Não posso chegar perto, apesar de não ver o meu pai, nem o resto da família, há cerca de um ano e meio. Já estou em casa em isolamento e só espero não ter contraído o vírus, nem contagiar ninguém.

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