O meu voluntariado consiste em ajudar uma loja local de joalharia com peças únicas e feitas por locais. É uma loja atrativa, com artigos realmente bonitos, que tem como público-alvo os turistas.

O meu trabalho consiste em ajudar os clientes. Aproveito para conversar um pouco com eles sobre as suas viagens e até sobre o coronavírus. Lembro-me dos primeiros dias em que cá estava, em que falávamos somente da China. Falávamos também da China porque era o meu destino seguinte, aliás, eu nem planeei vir ao Laos, mas vim à espera da situação na China melhorar - coisa que até está a acontecer por lá, mas que no resto do mundo não.

Cheguei a falar em português na loja. Os primeiros portugueses que vi falaram da sua viagem e também do assunto do momento: Covid-19. Na altura fizemos graçolas e rimos quando disseram que os media em Portugal estavam desesperados por um caso para terem notícia. Coisa triste de se ouvir, ainda mais ridículo agora. Entretanto, passaram pouco mais de duas semanas e tudo mudou.

Portugal já não tem zero casos, mas sim mais de 2 mil (veja aqui dados atualizados). A China já não é o foco do surto e passou a ser a Europa. A minha certeza de estar bem por aqui já não está tão segura.

Estes últimos dias, com cada cliente que falo a conclusão é sempre a mesma. Estão de partida, vão voltar ao seu país. Entram na loja para comprar os últimos presentes antes do regresso. A cada resposta sinto-me mais confusa e perdida nos pensamentos. Parece que estão todos a ir embora e eu vou ficar. É aqui que todas as dúvidas surgem. São tantas neste momento e não há certezas de nada. Como uma pessoa sabe se está a tomar a decisão certa ou não? Não se sabe.

Não se sabe se a situação ainda vai piorar, não se sabe se haverá voos de volta, a incerteza é a única certeza.

Vou ficar mais um mês, mas com receio. Receio de não conseguir ter voos a preços normais para voltar, receio de que os países fechem fronteiras e nem daqui possa sair, receio de apanhar o vírus, receio de voltar e ir para um país mergulhado no caos.

Laos ainda não registou nenhum caso de Covid-19. Será mesmo assim?

Sentia-me segura no Laos porque, alegadamente, não regista nenhum caso. Como não tem nenhum caso, se está ao lado da China? Laos e Myanmar parecem "intocados" pelo vírus, coisa estranha, no mínimo. O que têm em comum é serem dos países mais pobres do Sudeste Asiático. Assim, a insegurança começa a aumentar quando se pensa por que razões não terão casos do vírus. A conclusão que chego é que não têm porque nem o "procuram". O controlo não está a ser feito aqui no Laos, não existem muitos testes de Covid-19 e, daí, não haver casos.

Por cá, fiz amigos e uma delas está com febre e tosse. Foi ao Hospital de Luang Prabang para fazer um teste do vírus, mas foi-lhe negado. Dizem que só pode fazer o teste na capital: Vienciana. Ora esta situação abriu-me os olhos e deixou-me a explicação da ausência de casos de vírus no Laos. A partir desse momento fiquei ainda mais receosa e confusa sem saber que decisão tomar. Essa amiga já partiu para a Tailândia no dia seguinte e está melhor.

Por Luang Prabang cada vez são menos os turistas que se veem na rua. Penso que nos próximos dias será ainda pior. O que será feito de todos estes comércios locais que vivem da indústria do turismo? Tempos difíceis se avizinham, mas não só para eles.

Luang Prabang
Luang Prabang créditos: Pixabay

Não sei se o local onde estou a fazer voluntariado precisará mais de ajuda, já que me parece que em breve nem clientes terão. Mais uma dúvida a pairar na cabeça. No entanto, a família onde estou é acolhedora e já disse que posso ficar o tempo que quiser. Ao menos ter um sítio onde ficar deixa-me menos ansiosa.

Estar em hostels com aglomerados de pessoas não me parece boa ideia, até porque não sei se muitos não irão fechar devido à falta de clientes. Para já, não estão a fechar portas aos turistas como no Vietname, onde os albergues já nem aceitam turistas do Ocidente e onde se começa a ver uma atitude racista perante os chamados de “brancos”. Como lá estive quase um ano, faço parte de grupos de Facebook onde se lêem relatos deploráveis por parte dos vietnamitas, tais como chamar “corona” a ocidentais que andam na rua, borrifá-los com gel desinfetante, ou até mesmo mostrarem reacções de pânico por verem um ocidental a andar na rua. Por lá, as atrações turísticas estão fechadas e as escolas já não abrem desde meados de janeiro.

Espero que esta atitude nada amistosa não se comece a ver no Laos também, se não será ainda mais um motivo de desconforto e insegurança. As escolas no Laos fecharam esta semana. As pessoas com quem estou a viver têm medo. Dizem que se tiverem o vírus cá é para morrer, que isto não é a Tailândia com bons hospitais e médicos. Esse é o maior medo deles. Temem não haver tratamento no seu próprio país ou esse estar a quilómetros de distância, na capital.

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Por essa mesma razão já não há aulas e workshops de joalharia, que se costumavam fazer na loja. Para além de vender os artigos que fazem, a loja, que se chama Garden of Eden, também proporciona aulas de joalharia onde o cliente pode fazer a sua própria peça com a ajuda e monitorização dos locais. Mas estas aulas implicam um contacto próximo com estrangeiros, motivo pelo qual foram canceladas.

Apesar de zero casos confirmados, coisa que não acredito, Laos está a tomar medidas preventivas como cancelamento de eventos que aglomeram pessoas, proibição de celebração de casamentos, fecho de escolas e anulação das festividades do ano novo, que será em abril.

Em duas semanas tudo mudou! Não sei o que está para vir. Vou ficar e esperar, na incerteza, de qual o próximo passo a tomar e em que direção seguir. O mais provável será voltar para Portugal, caso ainda existam voos na altura. Não quero ficar aqui muito mais tempo e não me parece que a situação fique melhor em um mês.

Uma coisa é certa: não faço ideia o que fazer nas próximas semanas e ver toda a gente a voltar deixa-me ainda mais nervosa.

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