Ficar apenas mais um mês para mim não seria mau, até porque estava num sítio lindo, com a natureza ao redor e onde até me podia deslocar ao rio, ali mesmo ao lado. Já estava de quarentena mas até essa não me estava a deixar segura, visto que as pessoas com quem estava a partilhar a casa estavam sempre num entra e sai constante e em contacto com sabe-se lá quantas pessoas.

Para piorar, leio na internet previsões de que isto dure mais do que esperado. Algumas falam do mês de julho. E isto foi para mim o momento de mudar de ideias. Se a China demorou cerca de três meses para estabilizar o número de casos no país, na Europa não vai ser muito diferente. Portanto, ficar aqui mais três meses não é, de todo, algo que eu queira. Até porque mesmo depois do pico do surto passar, o meu destino iria ser Portugal, já que não quero estar a viajar logo a seguir ao pico da pandemia. Não sei como será o mundo depois disto tudo, muito menos num rescaldo da situação. As restrições de viagens irão continuar a existir? Irão os asiáticos continuar a olhar para os turistas com medo? Todas essas incertezas levam-me a querer voltar para a Europa e, ao menos, saber que se ficar doente terei tratamento, coisa que por aqui duvido que aconteça…

Estou em contacto com a embaixada portuguesa responsável pelo Laos, que é embaixada de Portugal na Tailândia, e o seu correspondente cá no Laos é a embaixada da Alemanha. Pedi-lhes para colocarem o meu nome na lista de portugueses que estão à espera de voltar para casa.

Os únicos voos a sair de Laos nas próximas semanas sairão de Vienciana, a capital, que está a 8 horas de distância de autocarro de onde estava. Vienciana entra em lockdown a 1 de abril e, a partir desse dia, chegar até à cidade vai ser muito complicado. Depois de um e-mail da embaixada a aconselhar sair de Luang Prabang, foi o que fiz. A única hipótese que tenho de voltar à Europa é esperando em Vienciana.

Saio de Luang Prabang exactamente no dia anterior ao lockdown. Foi uma decisão tomada na hora, sem poder pensar em mais nenhum detalhe, a não ser que se não saísse no próprio dia poderia ter de ficar em Luang Prabang dois meses, três ou quatro, quem sabe?

Neste momento, estou em Vienciana . Vim para cá num autocarro nocturno com camas. É realmente mais confortável viajar assim, mas em tempos de coronavírus este autocarro é assustador. Medem-nos a temperatura antes de embarcar e, assim que entro no autocarro, nem quero acreditar quando vejo que vou dormir na mesma cama que uma estranha. Uma cama com cerca de 1,20m de largura. Em tempos normais não me importaria, mas estamos perante uma epidemia devido a um vírus altamente contagioso. Pede-se às pessoas afastamento social, mas puseram-me num lugar a dormir "colada" a uma estranha? Naquele momento, só pedia que ela não tivesse infectada, com medo de que a proximidade me pudesse contagiar. Decerto, ela também não estaria muito confortável ao meu lado. Tento abstrair-me da ideia de que o vírus pode estar em todo o lado e durmo. O autocarro chega à cidade de Vienciana pelas quatro da manhã. Que horário mais descabido. O que vale é que o hotel que marquei estava aberto e pude fazer check-in.

Agora estou num quarto entre quatro paredes, à espera de notícias por parte da embaixada. Dizem-me que a Alemanha está a arranjar voos de repatriamento para alemães e europeus, e estou na lista de pessoas que quer ir num voo desses, mas não há mais informações sobre quando será o voo e quanto irá custar. Da Alemanha para Portugal tenho de ser eu a tratar. Espero que ainda haja ligações entre os dois países até lá.

Por enquanto fico aqui à espera, na expectativa que não seja longa.

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