Duarte Monteiro, jornalista. Berlim, Alemanha

Como foi passar o período de confinamento em Berlim?

Incomodativo, sem dúvida, mas muito longe de outras realidades bem mais graves. Foi-nos sugerido – e nunca imposto – que nos mantivéssemos em casa, mas sempre com a liberdade de nos podermos mover (com restrições) nos espaços abertos da cidade (os parques, por exemplo), desde que cumprindo com as regras de distanciamento social. Obviamente que nos 2/3 meses de confinamento, tudo mudou. Hábitos corriqueiros como tomar um café ou ir ao cinema acabaram por fazer falta, sobretudo por uma questão de equilíbrio emocional. Apesar de não ter sido um confinamento excessivamente "opressivo", passei muito tempo em casa, algo que espero não ter de voltar a viver.

Como está a ser este momento?

Está a ser de adaptação ao chamado "novo normal". Os números estão a subir novamente, mas há um cuidado e uma preocupação de não deixar cair as pessoas no limbo de um novo confinamento. A cidade está a tentar oferecer tudo aquilo que a caracteriza, o que no caso de Berlim é um "monstro" de diversidade. Há, sim, alguma apreensão quanto à evolução da pandemia, pelo que o momento atual é, apesar dos esforços, de alguma indefinição e incerteza.

Vídeo realizado por Duarte a mostrar Berlim vazia durante o confinamento:

Como os habitantes da cidade estão a passar por esta fase?

Muitos com a consciência do momento e com os devidos cuidados, outros nem tanto. É natural que depois de meses de inatividade, muitas pessoas precisem de se "libertar". E se considerarmos que Berlim é a capital europeia da vida noturna, percebe-se que por aqui os excessos sejam frequentes, até porque estamos no verão. Mas diria que a grande maioria dos habitantes de Berlim está a lidar muito bem com a situação, não deixando que a vida se deixe de fazer, mas adaptando-se com naturalidade às medidas que nos são exigidas.

Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

A sensação foi de um enorme aperto no coração. Eu vivo cá há três anos e meio e habituei-me a ver Berlim a vibrar de gente... E de repente, tudo parou. Falei há pouco no "monstro", e imaginem o que é uma cidade com quase quatro milhões de habitantes e um fluxo gigantesco de turistas totalmente silenciosa. É difícil de explicar, porque parecia um cenário saído de um filme com um enredo apocalíptico. O Portão de Brandemburgo, a East Side Gallery (Muro de Berlim), o Parlamento, tudo vazio e "abandonado". É uma imagem que dificilmente se esquece. Aproveitei, sobretudo, para passear pelas ruas, porque sei que muito dificilmente voltarei a ver uma cidade como Berlim daquela forma. Foi aterrorizador, mas belo ao mesmo tempo.

Duarte Monteiro
Duarte em Berlim créditos: DR

Maria João Gens, estágio INOV Contacto em Barcelona, Espanha

Como foi passar o período de confinamento em Barcelona?

Uma vez que Espanha foi um dos países europeus afetados pela pandemia, passar a quarentena em Barcelona não foi fácil, pois vivemos quase dois meses de confinamento total (saídas apenas para ir ao supermercado, farmácias e centros de saúde/hospitais). O confinamento obrigatório foi decretado 15 dias após a minha chegada, o que fez com que o início da minha experiência no programa de estágios INOV Contacto tenha sido um pouco atribulada e completamente diferente do que estava à espera. Apesar de, nos primeiros tempos, não ter conseguido usufruir de Barcelona como desejaria, penso que foi um período de crescimento pessoal e que, de certa forma, acabou por tornar a experiência ainda mais inesquecível.

Quanto ao período de confinamento propriamente dito, nas primeiras semanas senti que existia um sentimento de pânico e receio generalizado na população: supermercados vazios, filas para comprar alimentos… Com o passar do tempo, e com o número de casos constantemente a subir e a situação fora do controlo, acho que nos apercebemos que íamos de ter de aguentar bastante tempo em casa e encontrar formas de nos adaptarmos à nossa nova realidade. Mas penso que ninguém suspeitava que a quarentena se prolongasse por tanto tempo.

Barcelona
Ruas vazias em Barcelona créditos: Maria João Gens

Como está a ser este momento?

Sinceramente, vejo as pessoas muito relaxadas e ninguém diria que, em maio, só podia sair de casa para ir às compras. Parece que a pandemia se foi embora com a chegada do tempo quente e, se não fosse pelas máscaras obrigatórias em todo o lado (inclusive ao ar livre), ninguém diria que há três meses as UCI dos hospitais de Barcelona estavam em colapso por falta de meios para combater a COVID-19. Penso que se começam a notar os efeitos do confinamento, principalmente a nível económico: em pleno agosto temos mais de metade dos hotéis fechados, restaurantes que não voltaram a abrir portas, lojas em liquidação total… Para quem conheceu Barcelona antes da pandemia, parece que estamos numa cidade-fantasma.

Como os habitantes da cidade estão a passar por esta fase?

Barcelona é uma cidade multicultural, são mais as pessoas de fora do que aquelas que são "nascidas e criadas" aqui. Ainda assim, nos últimos anos, os movimentos anti-turismo tinham crescido bastante na cidade, por isso penso que, pelo menos para uma parte dos habitantes, este decréscimo de turistas na cidade é visto com bons olhos. Quem tem os seus negócios aqui, principalmente aqueles que dependem do turismo (a maioria), está bastante apreensivo, pois a situação permanece muito incerta e cada vez são mais os países que aconselham os seus habitantes a não viajar para Espanha. Se quisermos olhar para a parte positiva, pode ser que este momento faça com que se repense o modelo de turismo da cidade, de forma a que se torne mais sustentável.

A solidão das cidades vazias durante a pandemia de Covid-19
A solidão das cidades vazias durante a pandemia de Covid-19
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Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Antes de viver aqui tinha visitado Barcelona como turista, vi as Ramblas cheias de gente, as filas enormes à volta da Sagrada Família, a verdadeira "movida" espanhola. Dá uma certa pena ver Barcelona assim, principalmente se pensarmos que este vazio de pessoas se vai traduzir, a médio prazo, no aumento do desemprego e no encerramento de muitos negócios. Posso estar a ser pessimista, mas a meu ver Barcelona dependia demasiado do turismo e nada fazia prever que a pandemia tivesse um efeito tão drástico na vida de todos.

Tiago Monteiro, gestor de conteúdos online. Cracóvia, Polónia

Como foi passar o período de confinamento em Cracóvia?

Não posso dizer que foi algo extremamente difícil. Tendo de estar confinado e passando a trabalhar de casa, o que tentei foi não me deixar "amolecer". Tentei criar uma rotina que e novos hábitos para trazer alguma estabilidade mental e física.

Acho que a Polónia, em geral, abordou de forma muito pesada o vírus desde o início, a meu ver bem. Fecharam escolas, teatros, discotecas, etc. muito cedo. Desde o meio de abril, passou a ser obrigatório cobrir nariz e boca em espaços públicos; fecharam fronteiras, os serviços (farmácias, lojas, correios, etc.) passaram a ter horas para os cidadãos 65+ das 10h-12h, sendo que nessa hora só eles podiam frequentar esses espaços visto serem um grupo de risco. Houve uma fase em que os menores de idade só podiam sair de casa acompanhados por alguém com mais de 18 anos, fecharam (embora por pouco tempo) parques e controlavam por helicópteros se os parques estavam vazios.

Por exemplo, dois amigos meus estavam em Portugal na altura em que a Polónia fechou as fronteiras e quando regressaram a Cracóvia (têm contrato de trabalho permanente aqui) tiveram que facultar a morada de residência. Durante as duas semanas de quarentena, a polícia visitou-os todos os dias para assegurar que eles estavam em casa. Quem não cumprisse, apanhava multas pesadas.

Cracóvia
Ruas vazias durante confinamento créditos: Ricardo Lopes

Como está a ser este momento?

No momento atual, sinto que a vida vai voltando ao normal, dentro do possível. Continuo a trabalhar de casa (o que, para mim, é ideal) mas vou tentando, aos poucos, ter uma rotina mais semelhante àquela que tinha antes do confinamento. Recuperei um pouco a minha vida social, embora não socialize com os meus amigos de forma tão frequente como anteriormente. De vez em quando, saio para almoçar/jantar fora, tomar um copo com os amigos, ir para a esplanada, passear ao ar livre sem o desconforto causado pela máscara, etc.

Como estão os habitantes da cidade a passar por esta fase?

Aquilo que sinto é que as pessoas estão, na sua maioria, a voltar à vida normal. Talvez o estejam a fazer demasiado rápido, ou sem demasiadas precauções. Na verdade, ainda não há nenhuma vacina para o vírus e o vírus continua por cá. Ou seja, entre a fase de confinamento e a fase actual, não houve nenhum avanço definitivo a nível médico que nos permita estar mais seguros. Contudo, os comportamentos mudaram e o sentimento que tenho é de que as pessoas, depois de terem de estar confinadas, agora estão a viver tudo de forma mais intensa, sem se preocuparem com o vírus. Aliás, o número de casos tem aumentado de forma drástica e a região da Małopolska (onde fica Cracóvia) é a segunda com maior número de casos no país nas últimas semanas.

Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Embora viva bastante perto do centro da cidade, durante o período de confinamento os passeios higiénicos que fazia eram, maioritariamente, nas ruas/parques mais perto de casa. Evitei ir ao centro da cidade e a outros sítios onde pudesse haver maior aglomeração de pessoas. Contudo, a primeira vez que fui ao centro durante este período fiquei surpreso pois estava bastante gente na rua, sobretudo na área do castelo e rio. Na altura, ainda era obrigatório cobrir o nariz e a boca em público e grande parte das pessoas já não o estava a fazer. Confesso que fiquei "chocado" com o largo número de pessoas nas ruas e com o desrespeito pelas regras, neste caso o não cumprirem o distanciamento social (via-se largos grupos de pessoas a fazer piqueniques nas margens do rio) e não cobrirem a boca e nariz em público. Então, basicamente, não tive o "choque" de ver a parte mais turística da cidade vazia.

Augusto Costa, consultor IT freelance, Londres, Inglaterra

Como foi passar o período de confinamento em Londres?

Inicialmente, foi um pouco assustador pois a densidade populacional é muito grande e a entrada e saída de pessoas de todo mundo continuou mesmo durante o confinamento, o governo inglês teve uma resposta muito tardia e confusa à pandemia, faltando material de proteção em todo o lado e falta de bens essenciais nos supermercados. Tudo isto fazia prever um grande número de infecções criando o caos nos hospitais. As piores previsões acabaram por não se concretizar, embora o número de mortes seja alto, comparando com outros países europeus, elas acabaram por acontecer mais nos lares, que é uma realidade mais afastada da minha.

No que diz respeito ao dia a dia, já trabalhava de casa 90% dos dias, por isso a mudança para 100% não foi muita, e tendo uma filha de um ano, acabei por não ter grandes mudanças na rotina e pouco tempo livre. Uma coisa que se notou muito foi os aviões a desaparecerem do céu. Por vezes, conseguias ver dois ou três aviões a passar pela mesma linha horizontal, mas com o confinamento tudo isso desapareceu.

Londres durante o confinamento
Regent Street créditos: AFP

Como está a ser este momento?

Atualmente, as coisas estão gradualmente a voltar ao normal, os pubs e restaurantes estão abertos e com boa adesão de pessoas. Agora é obrigatório usar máscara nos supermercados e outros espaços fechados, mas de uma forma relaxada, se não tiveres máscara, geralmente deixam entrar.

Como estão os habitantes da cidade a passar por esta fase?

Em geral, em Londres as pessoas sempre tiveram uma atitude muito relaxada quanto à doença (tirando a loucura das compras de papel higiénico), não usando máscaras e continuando a manter as suas idas ao parque sempre que possível.

Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Acabei por não visitar muito o centro de Londres, pois estava tudo fechado e não havia muito para fazer lá. Mas foi uma boa oportunidade para usufruir dos espaços com menos pessoas.

Carolina Gil Ribeiro, engenheira do Território. Estocolmo, Suécia

Como foi passar o período de confinamento em Estocolmo?

Na Suécia não foi decretado, por parte do governo, qualquer medida de confinamento. Aconselharam as pessoas a trabalhar de casa, sempre que possível, sendo que muitas empresas já o estavam a fazer antes das recomendações. Eu estava no período final da gravidez e, como a incerteza era tanta sobre o vírus, optámos por ficar todos por casa. Houve alturas um pouco complicadas, estávamos em casa, mas na rua parecia tudo igual: a escola do meu filho estava aberta, festas de anos no jardim, cafés e bares cheios, ninguém de máscara mesmo nos hospitais ou centro de saúde e era quase impossível garantir distanciamento nos transportes públicos ou supermercado. Cheguei a ir às urgências grávida e era a única de máscara e nem desinfectante havia para as mãos.

Estocolmo
Parque no centro de Estocolmo em maio créditos: Carolina Gil Ribeiro

Como está a ser este momento?

Inicialmente, foi complicado, porque o desconhecido era enorme e estava num país que estava a fazer o oposto de toda a Europa. Agora, as coisas estão mais calmas e tomando alguns cuidados a vida está quase normal.

Como estão os habitantes da cidade a passar por esta fase?

Grande parte dos habitantes estão muito descontraídos e fazem a vida quase como antes. Muitos ainda em teletrabalho, mas a pouco e pouco regressam aos escritórios.

Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Este ano os suecos aproveitaram o verão cá. Vazio de turistas, mas cheia de residentes que não saíram do país.

Praia em Estocolmo
Praia em Estocolmo na fase atual créditos: Carolina Gil Ribeiro

André Maia, ator/cantor. Atenas, Grécia

Como foi passar o período de confinamento em Atenas?

Não passei o confinamento em Atenas. Todos os teatros e salas de espectáculos fecharam. Foram cancelados os concertos que tinha marcado. Assim, tive a sorte de poder fugir para as ilhas (em princípios de março), horas antes do Porto de Piréus ter sido fechado à navegação de navios de passageiros. O motivo: muitas das ilhas não terem sequer hospital. O contágio pelo vírus seria catastrófico. Depois começaram a abrir portas ao turismo, em finais de julho, sobretudo para gregos. Hoje, está aberto ao turismo internacional.

Como está a ser este momento?

Estive em Atenas na primeira semana de agosto. Atenas é uma cidade com seis milhões de habitantes. Vi muitas lojas fechadas, outras a fechar. Não há praticamente ninguém nas ruas. As pessoas que fui encontrando, apesar do calor tórrido, usavam máscara. Estou a referir-me à população grega que está a passar por todo este processo com muito civismo. O mesmo não poderei dizer dos turistas estrangeiros que, invariavelmente, não usam máscara. Talvez por isso, os gregos se protejam mais. Sabem que parte da receita económica do país depende do turismo e por isso não podem fechar portas.

Atenas, Grécia
Imagem de maio do Parlamento em Atenas créditos: AFP

Como estão os habitantes da cidade a passar por esta fase?

Notei muita tristeza, sobretudo na gente mais nova. Penso que os mais velhos passaram melhor esta fase de confinamento, com outra calma, com tempo para resolver questões práticas dentro de casa e questões interiores. Os jovens, por ainda andarem à procura fora do que têm de resolver por dentro, entraram em exasperação. Como foram informados que este vírus não os atingia particularmente, sentiram-se prisioneiros e injustiçados. E hoje são um foco de risco. Se não se protegerem e saírem para bares e discotecas, poderão estar a pôr em perigo a saúde dos seus familiares mais vulneráveis.

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Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Para dizer a verdade, foi um privilégio, para mim. A energia do turista, normalmente, é um pouco selvagem. Por estarem confinados a um escritório durante onze meses, muitas vezes sem luz solar e com ar condicionado sempre ligado, quando se encontram num país com ilhas paradisíacas, querem ver tudo, meter o nariz em tudo e comer tudo com os olhos. Os meses de alta de turismo na Grécia são asfixiantes para quem cá vive. Ver ilhas sem turistas, na primavera e parte do verão, foi uma paz. Estive em praias completamente desertas, quando nesta altura parecem colónias de focas. Penso que nunca mais terei a oportunidade de vivenciar este fantástico silêncio. A importância do silêncio! Para a economia do país foi catastrófico.

Bento Guerreiro, empresário de restauração,  Reiquiavique, Islândia

Como foi passar o período de confinamento em Reiquiavique?

Passar o período de confinamento em Reiquiavique não foi muito complicado. O período foi curto e não muito rígido, estava quase tudo aberto mas com restrições. Por exemplo, não tive de fechar os restaurantes mas só podia ter primeiro 20 clientes. Depois, passou para 50 e posteriormente para 100. Tudo isto num período de só seis semanas por isso foi curto. De resto, podia sair de casa normalmente.

O mais rigoroso foi um período de quatro semanas em que estiveram fechados alguns negócios como os cabeleireiros e ginásios, mas era possível fazer compras no IKEA ou H&M, por exemplo. É claro que por receio nas primeiras três ou quatro semanas não se via muitas pessoas nas ruas e nos restaurantes, mas logo no fim de abril e princípio de maio já estava tudo a voltar ao normal.

Em termos de negócio, é claro que foi e é muito complicado por termos de dar dois metros de distância social, diminuímos a lotação dos restaurantes por 40% no período de 26.03 até 24.05 e agora outra vez desde do dia 31.07, mas nos meses de junho e julho não tínhamos nenhumas restrições de qualquer tipo e foi tudo como o normal.

Reykjavík
Reykjavík créditos: Unsplash

Como está a ser este momento?

A Islândia esteve com zero casos de COVID-19 durante um bom período de tempo, mas abriu as fronteiras no dia 15.06 e entraram alguns turistas infectados no meio de julho e então desde do princípio de agosto que voltamos a algumas restrições, mas as pessoas desta vez não estão com receio e tentam fazer a vida normal mas com algum cuidado, por isso estamos muito bem.

Como estão os habitantes da cidade a passar por esta fase?

De momento, só estão 117 pessoas com o vírus. As escolas começaram, com um metro de distância social mas está quase tudo normal. Em muito poucos sítios é obrigado o uso de máscara. Por isso, os habitantes da cidade estão a passar muito bem comparando com muitas outras cidades. É evidente que muitas pessoas estão preocupadas com a incerteza do futuro e o desemprego.

Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Foi uma sensação terrível porque em Reiquiavique, e especialmente no centro, não há muitos locais a andar, então a baixa parecia um deserto total, muito depressiva. Com o bom tempo e a chegada de turistas, a baixa foi estando melhor, mas agora vai piorar de novo. Entram em vigor no dia 19 de agosto mais restrições nas fronteiras e agora todos as pessoas que entram no país tem de estar obrigatoriamente de quarenta durante seis dias. Neste momento, não estão a entrar tantos turistas e repara-se logo no movimento em  Reiquiavique.

João Xavier, pianista. Moscovo, Rússia

Como foi passar o período de confinamento em Moscovo?

Eu regressei a Portugal em março, quando soube que as fronteiras iam fechar. Nessa altura, na Rússia, as pessoas ainda estavam muito mal informadas e mesmo enganadas pelos meios de comunicação russos acerca do vírus, e acreditavam que na Rússia a pandemia não se ia sentir.

Ainda agora, os dados pandémicos da Rússia estão muitíssimo adulterados. Quando informei os meus amigos sobre a minha decisão de regressar a Portugal, fui muito questionado, principalmente por alguns professores e funcionários do conservatório, que estranharam a minha atitude, principalmente porque este ano teria os meus exames finais, que acabaram por ser em regime online e através de gravações.

Precisamente pela falta de informação, as pessoas foram confinadas de forma muito mais severa do que em Portugal, mais controladas pela polícia, muitas vezes presas por violarem as regras da quarentena. Terminei este ano o meu curso no Conservatório Tchaikovsky. Deverei voltar, assim que abram as fronteiras, para trazer o meu diploma e as minhas coisas, uma vez que voltei para Portugal inesperadamente.

João Xavier
João Xavier em Moscovo créditos: DR

Como está a ser este momento?

Sei, por amigos que vivem lá, que lhes foi muito complicado suportarem tantas semanas de confinamento, tanto na nossa residência de estudantes (onde várias pessoas acabaram por se infetar), como em apartamentos, que normalmente são muito exíguos. Mais tarde, as pessoas puderam sair às ruas de acordo com gráficos, mas sempre limitadas a uma área muito restrita, perto da sua morada.

Ana Fidalgo, estágio INOV Contacto em Bruxelas, Bélgica

Como foi passar o período de confinamento nesta cidade?

Chegado o dia de arrancar na aventura de ter uma experiência internacional ao abrigo do programa de estágios internacionais INOV Contacto, chegámos a Bruxelas três semanas antes do confinamento. Não conhecia a cidade, tinha apenas a perceção que era muito agitada e multicultural. O que mais me seduzia era o facto de ser o centro das decisões da União Europeia, onde tudo acontecia em primeira mão!

Trazia comigo a expectativa de participar em fóruns ligados à indústria da associação para a qual vim trabalhar e que iria estar envolvida em momentos de networking e de partilha de opiniões com decisores políticos. Pois bem, duas semanas de trabalho no escritório e depressa a realidade mudou: dois meses de confinamento, num pequeno apartamento no centro da cidade, que felizmente tinha uma varanda, o que nos permitiu, a mim e ao meu marido, desfrutar de longos dias soalheiros (uma surpresa, esperávamos tempo cinzento e melancólico).

Ana Fidalgo
Ana Fidalgo chegou em Bruxelas pouco antes do confinamento obrigatório

Felizmente as medidas impostas pelo país permitiram-nos a prática de exercício físico exterior, o que acabou por ser o nosso grande escape durante esses longos meses. Desde longas caminhadas pela cidade, vazia e sem vida, as corridas nos parques da cidade e grupos de WhatsApp com amigos com planos de treino – a prática de exercício físico nunca foi tão valorizada e criteriosamente cumprida! Não obstante, enquanto confinados, foi importante manter rotinas, manter um horário de trabalho, manter as relações, ainda tão precoces, com os colegas de trabalho, com os demais colegas portugueses que embarcaram nesta aventura, com a família e amigos que também atravessavam as mesmas restrições.

Como está a ser este momento?

Com o aligeiramento das medidas, como a possibilidade de viajar pelo país e alguns países fronteiriços e o aumento da bolha social, vivemos uma nova normalidade: conhecemos países e cidades lindíssimas, tivemos a oportunidade de conhecer alguns museus, e mais especial que isso, estar com amigos e, finalmente, ter uma vida social! Voltei ao escritório, num modelo de slots pré-definidas e intercaladas com os demais colegas. Contudo, não por muito tempo: as medidas voltaram a estreitar no final de julho para combater o aumento de casos de infeções que se faziam sentir um pouco por todo o país.

Ainda assim, voltamos a ter um pouco mais de liberdade: podemos ter vida social, ainda que restrita a uma bolha social de dez pessoas, foi instaurado novamente o homeworking e o uso obrigatório de máscaras em todos os espaços, quer exteriores quer interiores. Agora, os passeios na cidade já têm vida, com estabelecimentos abertos e com número restrito de pessoas, já se veem alguns turistas e aos poucos esta nova realidade torna-se a realidade que é expectável para os próximos meses.

Bruxelas
Parque em Bruxelas na fase atual da pandemia créditos: Ana Fidalgo

Como os habitantes da cidade estão a passar por esta fase?

Os parques estão repletos de praticantes de desporto, famílias e amigos a desfrutar do final de tarde, a fazer piqueniques e a jogar badminton. Sentimos que, apesar das medidas, os habitantes da cidade mantiveram os seus hábitos, ainda que com maior respeito em termos de distanciamento social e precauções normais decorrentes destes tempos.

No primeiro confinamento, notámos um especial cuidado e respeito nos supermercados: não assistimos a açambarcamentos de produtos, cada família levava apenas o indispensável. Neste segundo confinamento, nota-se um respeito ainda maior pelas medidas impostas pelo governo, ainda que alguns manifestem desagrado na exigência das mesmas. Contudo, todo o cuidado é pouco e todos estão cientes de que é primordial o respeito pelo próximo.

Qual foi a sensação de ver um destino tão turístico vazio de pessoas?

Sentimos muita necessidade de ver a cidade funcionar na sua plenitude. De ver os bares, restaurantes, lojas, ruas repletas de idiomas de todo o mundo. Apesar de o vírus ter acelerado o processo de digitalização de alguns serviços e de ver a forte adaptação de todos os espaços a esta nova realidade, foi-nos permitido conhecer de uma forma calma e pouco agitada alguns museus e atrações da cidade. Ainda assim, sentimos a falta da vibração do turismo que sentimos nas três primeiras semanas aquando da nossa chegada. Ver a Grand Place repleta de luzes e hologramas para uma plateia inexistente, dá uma sensação de vazio inexplicável. Falta algo, sentimos sempre que algo não faz sentido, que não está completo.

Grand Place
Grand Place durante o confinamento créditos: Ana Fidalgo

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