Madrugámos. Quatro horas de trânsito num autocarro: a Mia dorme. Chegámos a Huairou, apanhámos um táxi e 20 minutos depois estamos de frente para a entrada numa das sete maravilhas do mundo, até aqui apenas a imaginação nos tinha permitido lá entrar.

É a estrutura arquitetónica mais longa do mundo, estende-se ao longo de quatro províncias (Hebei, Shanxi, Shaanxi e Gansu), atravessa o Deserto de Gobi a Mongólia e a região autónoma da Ningxia. Mutianyu, foi o local que escolhemos para a nossa visita, Badaling seria mais próximo de Pequim mas a afluência de visitantes é muito maior, devido exatamente a esta proximidade da grande cidade. Subimos de autocarro, seguiu-se o teleférico, agora sim, já quase tocamos a grande muralha, de tão perto que está.

Se tivesse de escolher apenas um sítio para visitar a partir de Pequim seria este. Os olhos são poucos, são curtos, fazem-se pequenos, tentam alongar-se, esticar-se, aumentar-se mas deixam muralha para lá de tudo o que podem guardar.

Aqui sinto mais: sinto a pele intimidar-se, os pelos a eriçarem, o coração a bater mais. Tenho vontade de os abraçar e de lhes dizer apenas:

- Estamos aqui.

Fi-lo.

Não sonho com a muralha da China desde menina, mas ele sonhou-a, desde menino. Ele era esse menino que sonhava com esta muralha quando o vi pela primeira vez, na escola. Conhecemo-nos assim, como hoje estamos, de mochilas às costas. Eu menina sonhadora, ele menino a roubar-me os elásticos do cabelo para eu olhar para ele. Deixámos de nos ver mas reencontrámo-nos a tempo de tudo. Namorámos dez anos, casámos, tivemos a nossa Menina Mundo e estamos a dar uma volta ao mundo. Quantos sonhos cabem aqui? Do que são feitos os sonhos? Como se constroem e como separámos os nossos dos sonhos daqueles que amámos?

Encontrámo-nos nessa altura em que os sonhos, os meus e os dele, se tocaram e se renovaram juntos, para criarem sonhos maiores: os nossos. Conhecemo-nos nessa altura em que a adolescência faz de nós super-homem e super-mulher, por desejarmos tudo e não temermos nada.

Mas é agora, cerca de 20 anos depois, que estamos – juntos – na muralha, neste caminho que subimos e descemos, em família. São muros, portas, torres de vigia e fortes que se estendem por 8,850 km. Aqui fizemos um pic-nic (épico!), ela passeou-se, nos seus sapatos vermelhos, com o seu ovo cozido na mão, ofereceu-nos uvas à boca, abriu os braços no momento em que eu abri os meus, para sentir o vento dali e respirar fundo, a meio dos quinhentos degraus. Ela foi criança, pequena, na muralha - a grande.
Percorreu caminhos tão desejados por tantos que multiplicam, por 30 ou 40, os quase dois anos que ela tem. Por isso, de entre as muitas palavras que ali ouvimos, de entre os muitos elogios e pedidos para entrarmos nas suas fotografias de família, as palavras que guardámos - para ela e para nós - foram: privilégio e bênção.

A muralha adentra montanhas e finta-as para sair de novo cá em cima, atravessa planícies, atravessa desertos bem a norte desta China - que nos ganha a cada dia.

Há torres que, outrora, permitiam observar a aproximação e a movimentação do inimigo e há janelas donde hoje, no parapeito, ela espreitou os caminhos dos seus próximos passos, e juntas trocámos os sinais de fumo e fogo pelos sorrisos e pelo som das gargalhadas que, temos a certeza, o papá percebeu no momento em que os recebeu e os guardou na sua câmara.

Ele disse-me, lá em cima, que tinha dormido mal na noite anterior: dorme-se sempre mal quando no dia seguinte comemos e bebemos sonhos - pensei. Continuou: ‘trago a emoção na garganta’ e eu vi tudo o que ele trazia: na garganta, nos olhos, no aperto de mãos, no beijo que demos.

E vi-os: ao menino do desejo e ao homem diante de mim, vi-os num abraço que apenas se pode dar quando estamos de pazes feitas connosco, com o caminho que escolhemos. E continuou: dizendo que quando, no seu sonho de menino, se imaginava na muralha nunca pensou que pudesse fazê-lo na sua volta ao mundo, com a sua esposa e filha, fazê-lo em família. E assim acrescentou ao sonho: que agora lhe parecia pequenino face ao que vivia.

Ali, soubemo-nos mais super, mais homem e mais mulher do que na nossa (melhor) adolescência e a isto acrescentámos ser família; ali, soubemos que continuamos a encher as nossas mochilas de sonhos, mesmo com mais 20 anos do que aqueles meninos-namorados de escola que fomos. Nestas mochilas de hoje cabem: a nossa filha, 16 anos de história (tão nossa) e cabe esta muralha; cabem todas as coisas que nos aumentam: em coração; o coração.

Guardámos em nós, bem guardado, algo desses meninos-namorados de escola que fomos, essa vontade e essa força no desejar, acreditando sempre que o melhor é o devir.

Este artigo foi originalmente publicado em Menina Mundo

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