Alves Redol andou nestas águas do Tejo, por onde passeamos agora de barco.

Como o próprio escritor sublinha, por ali andou “com eles, pescando à noite com as artes mais pequenas, ou partilhando o trabalho dos lances nas campanhas do sável entre queixas dos mais velhos ainda lembrados dos tempos em que o Tejo era um jardim de peixe.”

Estávamos no inicio da Segunda Guerra Mundial e Alves Redol juntou-se à comunidade avieira da Palhota, na margem direita do Tejo, no concelho do Cartaxo, para escrever uma obra notável.

Palhota
créditos: andarilho.pt

Os avieiros acabaram por se fixar e criar pequenos núcleos urbanos maioritariamente de palafitas. Algumas dessas aldeias ainda chegam aos dias de hoje.

A Palhota é uma delas e inspirou Alves Redol. Junto à Casa Avieira encontramos uma homenagem ao escritor.

Palhota
créditos: andarilho.pt

Alves Redol viveu aqui alguns meses, mas com uma condição, como conta Diogo Santos que nos levou de barco no passeio do Tejo. “Contam as histórias que Alves Redol foi muito bem recebido pelas mulheres. Os homens reuniram-se e foram falar com ele. Para permanecer na aldeia tinha de estar acompanhado da esposa.”

No prefácio de uma das edições, o próprio Alves Redol diz que depois de falar com os anfitriões “tudo ficou aprazado, com a condição de eu levar mulher comigo; doutra forma a aldeia não me poderia receber.”

A personagem central do livro é Olinda. Alves Redol projeta com mestria o papel da mulher na comunidade avieira. Por vezes maltratada, assume muitas vezes o comando da família, tal como na bateira, o barco típico dos avieiros.

“Enquanto o homem lançava as redes e puxava-as durante a pesca, a mulher é quem ia a remar no barco. Normalmente associamos o trabalho de esforço ao homem e, neste caso, era a mulher. Era ela que mantinha o barco no sítio apropriado para o homem puxar as redes.”

Escaroupim Museu e Casa Avieira
créditos: andarilho.pt

Partimos com Diogo Santos do cais de Escaroupim, outra aldeia de origem avieira, até à Palhota e passámos por várias ilhotas no meio do Tejo. No passeio “um dos temas que abordamos é a cultura avieira e a descrição de Alves Redol.  Explicamos a cultura deles, os seus modos de vida.

Avieiros de Alves Redol
créditos: andarilho.pt

Depois temos esta parte que é muito natural, dos cavalos e das aves. É muito interessante. Em particular ao final do dia as pessoas veem o real impacto delas, que é uma coisa brutal. São bandos enormes a chegar à ilha das Garças, em frente a Escaroupim. Quem está em terra não tem a perceção da quantidade de aves que ali habitam.”

Passeio de barco - Escaroupim
créditos: andarilho.pt

Além da beleza natural, partilhamos ainda a paisagem que Redol descreveu e também a Ilha dos Amores, no meio do Tejo. “A designação é de Alves Redol. O nome tem a ver com a tradição de quando havia um casamento entre avieiros a noite de núpcias do casal era na ilha. Os familiares e os convidados estavam à volta da ilha, nos barcos e em silêncio.

Passeio de barco - Escaroupim
créditos: andarilho.pt

Consumada a relação sexual dos noivos, a mulher “exibia o lençol de linho que tinha sido dado pela madrinha à noiva, os convidados, quando viam que tudo tinha corrido conforme as regras, começavam a celebrar nos seus barcos, a cantar e a dançar. Era uma festa pela noite fora.”

Hoje a ilha é mais procurada por “famílias e grupos de amigos que, principalmente no verão, passam algum tempo na ilha. Fazem piqueniques e festas.”

Escaroupim Museu e Casa Avieira
créditos: andarilho.pt

Foi na Ilha dos Amores que Olinda se tornou inseparável do Toino da Vala e voltou a mergulhar na cultura avieira. Um regresso às origens que, no último capítulo do livro, Alves Redol chama de “Ciganos do Rio”. “Na época encontrou algumas semelhanças entre a etnia cigana e os habitantes avieiros. O facto de serem nómadas, algumas tradições e a cor da pele, ligeiramente mais escura devido ao sol, começou a chamar-lhes ciganos do rio, ciganos do Tejo.”

Palhota
créditos: andarilho.pt

O passeio de barco, a visita a Escaroupim, Palhota, Caneiras ou Lezirão, constitui um roteiro fantástico, com testemunhos da vida agreste dos pescadores.

O roteiro ganha outra dimensão quando orientado pelos retratos e sentimentos com que ficamos depois da leitura de Avieiros.

Escaroupim Museu e Casa Avieira
créditos: andarilho.pt

"Avieiros” de Alves Redol num passeio no Tejo faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

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