Texto por Emília Matoso Sousa

Bo Camino! Rumo a um destino comum

O dia começou muito cedo, às 6h (7 em Espanha). Previa-se um dia quente e o calor é inimigo dos peregrinos. Pouco mais de 300 metros separam Valença de Tui. A fronteira é marcada pelo rio Minho, que se atravessa por uma interessante ponte metálica, datada de 1886. Dos corredores laterais desta imponente estrutura, as vistas para o rio são lindas e aguçam o apetite para o que se seguirá. De um lado e do outro, aprecia-se a paisagem e registam-se alguns momentos. Afinal, o Caminho também se faz de boas imagens que vamos guardando nas nossas memórias, e também nas dos nossos telemóveis.

Ponte entre Valença e Tui
A Ponte Internacional Tui-Valença cruza o rio Minho. créditos: Emíla Matoso Sousa

Tui. Vale a pena percorrer o centro histórico desta cidade galega e deixarmo-nos perder pelo emaranhado das suas ruas e ruelas. A Catedral de Sta. Maria, o Convento de Las Clarisas e a Igreja de Santo Domingo são apenas três exemplos do muito que há para apreciar.

A saída de Tui conduz-nos a paisagens rurais, zonas agrícolas, bosques e, aqui e ali, pequenas localidades. O Caminho começa a presentear-nos com alguns apontamentos dignos de nota, como a Ponte Veiga, sobre o rio Louro, ou a estátua do peregrino. O verde, os símbolos que nos guiam, os peregrinos que passam por nós e nos saúdam começam a tomar conta de nós e a transportar-nos para um tempo e espaço diferentes. Nada mais importa a não ser a finalidade da nossa missão. Será isto o espírito do Caminho? Os peregrinos são de todas as idades. Caminham sozinhos ou acompanhados. São portugueses, são espanhóis, são brasileiros, são ingleses… não importa de onde são. Às costas, dentro de uma mochila, levam tudo aquilo de que precisam para viver nos dias que se vão seguir. Os bens materiais ficam para trás, nada se sabe sobre as suas proveniências sociais. Todos ostentam um ar de grande felicidade, todos caminham no mesmo sentido, todos têm o mesmo objetivo, todos se saúdam numa única língua: Bon Camino! E esta foi a primeira lição: precisamos de muito pouco para estar bem.

Depois de Tui
O verde ao longo do Caminho até O Porriño. créditos: Emíla Matoso Sousa

Ao longo de todo o Caminho há duas estradas que nos acompanham: a Via XIX, estrada romana do tempo de Augusto que ligava Braccara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga), passando por Ponte de Lima, Tui, Pontevedra, Caldas de Reis, Iria Flávia e Lugo; e a N550, que liga Tui à Coruña e que, em vários momentos, temos de atravessar ou ladear. Sim, há trajetos feitos sobre o asfalto e, sim, nesses trajetos há trânsito… A boa notícia é que, quase sempre, nos são disponibilizadas bermas largas com agradáveis vias pedonais.

É uma destas que percorremos entre Virxe do Camiño e a Ponte de San Telmo, ou das Febres, como é mais conhecida, e que nos recorda um dos muitos episódios que contam a História desta peregrinação. Foi nesse lugar que, diz-se, no século XIII, o peregrino San Telmo teve um súbito acesso de febre que o obrigou a regressar a Tui, onde morreu pouco depois. Junto à ponte, está uma cruz em pedra com a inscrição “Caminante aqui enfermo de muerte San Telmo em abril de 1251. Pidele que hable con Dios a favor tuyo”. Este é agora um local de culto, onde os peregrinos depositam objetos de homenagens, promessas ou outros rituais. O 'diz que disse' é um fenómeno sem tempo e entrelaça-se com a História a todo o momento. Mas o encanto está, precisamente, em não se saber onde terminam os factos e começa a ‘ficção’, proporcionando a todos a necessária liberdade para exercitarem as suas crenças e fés. É também esta a riqueza do Caminho.

San Telmo
Local de culto a San Telmo, um sacerdote católico castelhano do século XIII que morreu durante a peregrinação a Santiago. créditos: Emíla Matoso Sousa

Um pouco mais à frente, surge uma oportunidade para uma paragem ‘técnica’: recuperar energias, ir ao WC, tomar um café ou algo mais, e carimbar a credencial. Estas paragens são propícias ao convívio entre os peregrinos que, por esta altura, já se vão conhecendo. Não tarda, seremos um enorme grupo.

Continuamos, agora, por uma zona de floresta, acompanhados pelo rio Louro (que separa os municípios de Tui e O Porriño), e chegamos a A Madalena, onde somos recebidos pelos Cinco Cruzeiros de Santa Comba de Ribadelouro. Pouco depois, em Orbenlle, há que tomar uma decisão: seguir pelo polígono industrial das Gândaras ou tomar o traçado alternativo, mais longo, mas com a promessa de ser mais bonito. A escolha pareceu-nos óbvia. Nada de caminhos feios!

Entramos numa zona muito aprazível, onde temos de passar sobre as Poldras de Betate, que ladeiam a ribeira do rio Louro. Estas poldras fazem parte de um património de grande relevância cultural, social e histórica. São construções de pedra utilizadas para atravessar zonas encharcadas, regatos e rios. Estão fortemente ligadas aos ecossistemas e antigos usos dos recursos naturais e formas de vida no vale do Louro.

Entramos em O Porriño pela Rua Manuel Rodrigues. Não sendo uma vila de rara beleza, é, ainda assim, agradável e repleta de vida, muito provavelmente em resultado do seu posicionamento na rota jacobeia.

O destaque vai, sem dúvida, para o Palácio Municipal (Ayuntamiento), um curioso e desmesuradamente imponente edifício, assinado pelo arquiteto galego António Palácios, ali nascido em 1874.

O Porriño
O Palácio Municipal de O Porriño. créditos: Emíla Matoso Sousa

A primeira etapa foi concluída com sucesso. O entusiasmo era muito, as expectativas eram elevadas, o nível de apreensão era q.b. Tinhamo-nos preparado bem e estávamos confiantes. Portanto, so far, so good!

A etapa foi tranquila, sem grandes desníveis, o piso não ofereceu dificuldades. Não houve bolhas, não houve dores. Houve, sim, algum calor, sobretudo nos quilómetros finais. Com a Galiza a atravessar uma onda de temperaturas elevadas, dificilmente conseguiríamos escapar-lhe. Nada que uma Estrella Galicia bem geladinha não resolvesse. E foi o que fizemos, depois do check-in no alojamento e de um duche reparador.

A Emília Matoso Sousa é a autora do blog Caminhos Mil, onde escreve sobre as suas caminhadas pelo país. "Apenas pretendo guardar algumas das histórias e memórias que trago desses percursos e partilhá-las com quem, como eu, aprecia as coisas simples da vida..", conta.

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