Do hostel até à entrada do parque são cerca de 30 minutos. O parque é pago, mas a quantia não é relevante. No caminho para lá encontro uma espécie de lago com muitas flores de lótus e montanhas a preencher o cenário de fundo. Não cruzo com mais ninguém a andar a pé, nem muitas pessoas em motas. É um caminho que se faz bem, exceto uma subida acentuada até chegar à bilheteira do parque.

Já no parque, decido visitar Bai Ong Dung que fica a mais cerca de 30 minutos de caminhada, mas agora na floresta. Parece-me que vão construir algo aqui ou pavimentar o chão, já que é tudo em terra batida. Já se nota que se está num local selvagem dado ao variado número de sons que consigo ouvir. São pássaros que procuro com o pescoço erguido até ficar cansada. Não vejo nenhum, apesar de parar várias vezes para tentar localizar o som e possivelmente ter um vislumbre de um pássaro exótico. Oh, lá está um! Vejo-o a voar ao longe, mas sei que é exótico já que as penas da cauda se dividem em dois. Têm um formato distinto que não é comum ver. Como gostava de poder olhar para ele de perto. Consegui ter, ao todo, 3 avistamentos do género mas nenhum foi suficientemente perto. Contudo, saber que estou rodeada de seres especiais é entusiasmante!

Con Dao
créditos: While You Stay Home

Existem algumas espécies autóctones de Con Dao como o esquilo preto de dimensões maiores do que o esquilo comum. E foi este o primeiro animal que vi na floresta logo 10 minutos depois de ter começado a caminhar. Tem uma pelagem amarela no peito e está ali numa árvore a roer uma folha. Paro de imediato para não o assustar e fico largos minutos a olhar para ele encantada até ele decidir trepar para outro ramo inalcançável à minha vista. Fico radiante de ter visto um animal que não verei em mais nenhum local do mundo. Ainda tentei uma foto mas mal sucedida.

Uma praia deserta e um encontro com um gangue de... macacos

Chegando a Bai Ong Dung espero encontrar uma praia com pouca gente onde possa relaxar da caminhada. O que encontro é um sítio com absolutamente ninguém, com uma casa de madeira e uma maré alta que deixa um pouco de areia seca para estender a toalha. Está a chover ligeiramente e está tudo molhado. Até um baloiço de árvore que parecia um bom local para parar um pouco. Pouso os meus pertences na areia e entro na água de temperatura tão aprazível que só apetece lá ficar. O chão é rochoso. A maré de manhã está sempre alta e até cobre algumas árvores de pequeno porte na margem.

Con Dao
créditos: While You Stay Home

Fico só a apreciar a calma do lugar quando ouço uns barulhos. Macacos! O pior que podia encontrar. Dirigem-se para as minhas coisas no chão já que lá tinha uma saca com bananas. Vou de imediato em sua direção para ao menos não me levarem a bolsa já que a saca das bananas acabou de ser roubada. Nem chego perto! Ser ferrada por um bicho destes pode por-me em trabalhos. Afasto-me dali um pouco, mas um dos "membros do gangue" decide perseguir-me. Vou água adentro que ao menos assim não chega perto. Olha-me nos olhos enquanto anda por pedras mais altas em minha direção. Começo a ficar nervosa. Entretanto, aparece uma pessoa com um cão - não faço ideia de onde! Devia estar na tal casa descansado da vida já que não há nada para fazer. Veio cumprimentar-me e retira-se. Sinto-me mais segura de saber que há uma pessoa ali caso estes macacos se aproximem de mais. Fiquei uns 15 minutos nesta praia e decido ir embora. Quero estar descansada e não ter de me preocupar com eventuais "gatunos". Para sair agarro numa das pedra do chão que faz com que o macaco se retire. Vi que ficou com medo assim que agarrei uma pedra e lá se foi afastando.

Volto este caminho todo para trás para entrar noutro trilho que me leva a outra praia. Só espero que esta tenha areia e que seja de águas azuis, já que esta praia em Bai Ong Dung não me encantou com a sua beleza.

O caminho são de mais de 45 minutos na floresta. É a única maneira de aceder a Bang Beach. Existe um caminho pavimentado que é fácil de seguir e fazer. 10 minutos depois de começar este trilho encontro uma caverna apoderada por estátuas da religião cristã, uma novidade para mim. Normalmente são sempre budistas, mas esta não. Foi a primeira caverna cristã que vi no Sudeste Asiático. É muito pequena, trata-se somente de uma cavidade nas rochas, mas mal sabia eu o jeitão que me iria dar ao final do dia no regresso…

Depois da tempestade vem a bonança ou não...

Sigo na floresta sempre um bocado ansiosa dos animais que possa encontrar. Vejo vários ratos, pássaros, répteis e geckos, mas vejo também um animal que me deixou em êxtase. Não sei o que era. Tinha tons de hiena, era comprido como uma raposa e trepou uma árvore. Não faço ideia o que é. Não é um macaco. Fico fascinada pois raramente vejo mamíferos de grande porte na floresta, a não ser macacos ou gibões. Na realidade, este foi o primeiro mamífero do género que vi nas minhas caminhadas em florestas.

Cruzo somente com 4 pessoas nesta jornada que vinham do sítio para onde me dirigia. Dizem que não estou muito longe… Que alívio, pois perdi o sinal de GPS e não faço ideia se já estou perto ou não.

Con Dao
créditos: While You Stay Home

A uns 5 minutos da alcançar Bang Beach começa a chover, mas desta vez não é leve. Abrigo-me nas árvores até ao ponto de já não valer a pena pois a árvore já não me está a proteger tanta é a chuva. Troveja também, portanto acho boa ideia avançar até à praia na esperança de haver também uma casinha ou algum sítio onde me pudesse abrigar. Lá está o azul que esperava ver, mas em redor não há nada. Simplesmente nada! Não há alma viva neste sítio. Já de roupa encharcada e a ficar com frio, decido fazer-me à água e é lá que fico enquanto chove. Está tão quentinha e soube tão bem naquele momento. Estou deslumbrada com o que vejo. Uma água cristalina com vários tons de azul só para mim e umas ilhas lá ao fundo. Estou ansiosa que pare de chover para poder ver o que há ali à volta, já que com esta chuva não vejo nada - problemas de quem usa óculos.

Finalmente a bonança. Não há muito para explorar principalmente porque o chão à volta é muito rochoso, cheio de pedras pequenas que não são confortáveis de pisar, muito menos descalça. Estou muito feliz de ter decidido visitar este local. É tão relaxante. Fico aqui mais de uma hora, a apreciar a cor da água, a brincar com conchas e pedras, a ver a tempestade lá ao fundo com raios de luz que a fazem notar. Existe aqui uma espécie de jangada abandonada. Cheira-me que deve haver uma história interessante por detrás da sua presença aqui.

Con Dao
créditos: While You Stay Home

Começo a ficar com pouca água e também não comi muito antes de vir. Sinceramente pensei que estes locais tivessem umas barraquinhas com um negócio local onde fosse encontrar coisas, só que não. Não há nada. Tem de se levar tudo. Parece-me uma boa altura para voltar para trás, ou vou ter de poupar muito na água que bebo. O céu também está cada vez mais escuro e a tempestade não deve estar muito longe. Sei que ainda tenho um longo caminho pela frente e que não vou encontrar mais ninguém por ali caso algo aconteça.

A minha roupa está encharcada, portanto lá vou eu de biquíni e uma toalha por cima no meio da floresta. A toalha era a única coisa seca que tinha comigo. Mas, não demorou muito até estar a pingar também. Não muito depois de começar a caminhar começa a chover. Não é forte e aguenta-se bem. Começo a acelerar o passo, não quero ficar completamente encharcada outra vez.

Mas, a chuva leve dá lugar à chuva forte, muito forte! Já nem me interessa que animais possa ver, só quero chegar a um sítio abrigado… Não vejo nada à minha frente com os óculos que não conseguem estar secos. Tiro-os. Sei que a gruta que vi antes não está muito longe. As minhas sandálias estão super escorregadias, sinto que vou escorregara e cair a qualquer momento.

Chove torrencialmente. Só quero alcançar a gruta e abrigar-me. Não vejo quase nada à minha frente. Tiro os sapatos e lá vou eu a correr descalça no meio da floresta. Já estava por tudo…
Só me lembro de rir enquanto corria a pensar o que raio é que estou eu a fazer a correr descalça de biquíni embrulhada numa toalha no meio de uma floresta no Vietname. No entanto estava muito feliz, tal e qual uma criança a brincar à chuva. Não sei o que piso, só espero não pisar nada perigoso e continuo a correr enquanto rio.

Finalmente, vejo as escadas que acessam à gruta. Estão iguais a uma cascata, mas tenho de as subir. No meio dos tons terra, vejo uma coisa cor de laranja no chão a correr comigo, Tem pinças em pé e não está longe dos meus pés. É um caranguejo. Ufa! Ainda bem que não o pisei… Vejo uns quantos a correr à chuva também. Gostava de os ter visto melhor, mas o meu objetivo era só um: abrigar-me.

Finalmente a gruta. Estou completamente encharcada, mas preocupa-me os pertences que tenho comigo. O passaporte também ficou molhado, mas não muito, o dinheiro… enfim, enquanto esperava que a chuva abrandasse lá fiquei na gruta a tentar reorganizar as coisas de modo a que as mais importantes não se molhem. Nisto peço desculpa a Deus por estar em frente ao seu altar de biquíni enquanto escorro a água toda que está na toalha. Sinto-me segura aqui.

A chuva está mais leve mas não parou. Tenho de avançar pois já está a ficar escuro e coisa que não quero é andar na floresta de noite. Assim que saio da floresta fico aliviada. Estou completamente encharcada somente coberta com uma toalha e vou ter de andar assim mais de 30 minutos ainda. Até que um dos seguranças do parque deve ter tido pena de mim ao ver-me molhada dos pés à cabeça. Parou ao meu lado e fez sinal para montar a sua mota. Não digo que não e lá vou eu. Não fala inglês mas pergunta-me: “Hotel”. Fico muito feliz com a pergunta pois sei que quer dizer que me vai levar lá. Era tudo o que podia querer naquele momento. Chego ao hostel e agradeço-lhe muito a boleia. Vou tomar um duche quente, só espero não ficar doente.

Adorei este dia e toda a adrenalina e paisagem bonita que me fizeram palpitar. Con Dao é um sítio fascinante e conhecê-lo desta forma, pelos meus próprios pés, valeu muito a pena.

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