Quando os muitos turistas que se deslocam a Ayutthaya, antiga capital da Tailândia e património da humanidade, visitam os três bairros estrangeiros que ali foram estabelecidos quando a cidade era um centro de comércio global, Portugal ‘não sai bem na fotografia’.

Enquanto a Holanda e o Japão têm museus – com objetos, informação e material audiovisual –, lojas de lembranças e cafés, Portugal apenas recuperou uma das três antigas igrejas.

O historiador Dhiravat na Pombejra, que levou a Lusa numa visita guiada a Ayutthaya, lamenta que assim seja, até porque, diz, Portugal teve ali, a partir do século XVI, a presença estrangeira mais antiga e pujante.

Os laços entre Portugal e a Tailândia são pouco conhecidos, mas nem por isso irrelevantes. Os portugueses chegaram em 1511, no mesmo ano que a Malaca. Interessava aos portugueses que os dois territórios mantivessem relações comerciais, até porque Malaca, apesar de rica, não produzia o seu próprio arroz.

Sete anos depois de o primeiro enviado português chegar a Ayutthaya, foi assinado o mais antigo tratado europeu com tailandeses, que garantia o direito de comercialização na cidade e noutros portos do país.

“Os portugueses não transportavam apenas uma cruz, eram também muito bons comerciantes. E por isso ficaram”, afirma o historiador, indicando que havia um interesse mútuo, já que os tailandeses (e outros povos asiáticos) pretendiam aproveitar o vasto conhecimento militar dos portugueses.

Durante o período em que estiveram em Ayutthaya, até à queda da cidade em 1767, os portugueses ergueram o bairro de maior dimensão – não se sabe ao certo quantas pessoas ali viveram mas, entre soldados, padres, comerciantes, familiares e mestiços, eram “mais de mil”, segundo Dhiravat na Pombejra, que se diz adepto de versões “conservadoras da história”, dado que outras fontes apontam para três mil.

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O papel dos portugueses em Ayutthaya foi particularmente valorizado nas guerras com a Birmânia, em especial naquela que fez cair a cidade, em 1767.

“Muitos não vendiam apenas armas, mas faziam de mercenários, tornaram-se lançados, 'freelancers', o rei tailandês usou centenas de portugueses”, explica o historiador, indicando que "outras centenas” lutaram também ao lado do rei birmanês, mas isso não impediu o monarca da Tailândia de compensar os portugueses por esse serviço, e pela presença proveitosa em Ayutthaya, com um terreno em Banguecoque, onde ainda hoje se concentra a comunidade lusodescendente.

Igreja de São Pedro, a única herança portuguesa visível

A presença portuguesa em Ayutthaya veio acompanhada de três igrejas, mas apenas uma, a dominicana, está de pé.

A Igreja de São José foi restaurada em 1995 com apoio da Fundação Gulbenkian, e é o único edifício que pode ser visitado nos cinco quilómetros, com frente de rio, que pertenciam aos portugueses.

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Olhando as águas do Chao Phraya, a estrutura apresenta-se bem preservada, ainda que quase vazia por dentro. Lá dentro uma bandeira portuguesa repousa num corrimão, que se debruça sobre a parte central da igreja, onde ainda se veem esqueletos.

O embaixador português na Tailândia, Francisco Vaz Patto, explica à Lusa que o motivo para o bairro ser, “comparativamente com outros espaços, menos imponente”, é financeiro.

Os trabalhos que levaram à preservação da Igreja de São Pedro foram feitos pelo Departamento de Belas Artes da Tailândia, do Ministério da Cultura, com apoio da Gulbenkian.

“Nessa altura foi estudada aquela igreja, escavados os vestígios, criado um pequeno espaço museológico na parte onde é o cemitério, foi feita uma pequena exposição com cartazes, recolhidas algumas peças que estão guardadas no museu da cidade. Mas não foi feito muito mais do que isso, e isso já foi um grande investimento”, explica Vaz Patto.

O passo seguinte nos trabalhos arqueológicos do bairro português seria a criação de um centro de estudos e um museu, além de escavações para recuperar uma segunda igreja. No entanto, segundo o embaixador, a Fundação Gulbenkian “retirou-se destes projetos de recuperação do património português no mundo”.

“O que o presidente da fundação me disse é que podem apoiar a manutenção do que foi feito. [O Governo tailandês] tem interesse em continuar o estudo e explorar outras igrejas. Começaram a fazer [escavações], mas as coisas não correram bem, não encontraram a igreja. O que me dizem é que estão a tentar fazer novamente uma segunda busca. O objetivo é tentar encontrar mais artefactos e mais vestígios da presença portuguesa, de forma a terem ainda mais material com que possam justificar um pedido de apoio para fazer um centro interpretativo”, explica Vaz Patto.

Fonte: Agência Lusa

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