Taboo é uma excelente série dramática, exibida em Portugal no canal AMC (originalmente uma co-produção FX e BBC), que nos apresenta um grupo de comércio histórico chamado Companhia das Índias Orientais, sendo esta uma combinação de uma grande empresa e uma agência de espionagem, apoiada pelo Governo britânico. Contudo,  a verdadeira história por detrás desta companhia é bem mais interessante.

As origens da Companhia das Índias Orientais

Pouco depois da derrota da Armada Espanhola em 1588, vários comerciantes pediram permissão à Rainha Elizabeth I para navegar pelo Oceano Índico em direção às Índias Orientais. Depois de obter aprovação, os primeiros navios partiram. Durante a década seguinte, tentaram-se viagens diferentes com resultados variados, mas a exploração deste grupo provou ser bem sucedida, o suficiente para lhe ser concedida uma carta real da Rainha sob o nome do Governador e Companhia de Comerciantes de Londres para negociar com as Índias Orientais.

Subida ao poder

Apesar do seu nome, esta nova 'empresa', apadrinhada pelo Governo Britânico, acabou por não fazer grandes trocas comerciais propriamente com as Índias Orientais, acabando por negociar mais com o subcontinente indiano e com a China, nomeadamente na aquisição de algodão, seda, corante índigo, sal, chá e ópio.

O Governo não tinha muito poder sobre a Companhia das Índias Orientais, que era propriedade de ricos comerciantes e aristocratas, portanto, tinha um controlo limitado nas suas operações. Esta relação continuou sob as ordens dos Stuarts e Lord Protector Oliver Cromwell, enquanto a restauração da monarquia trouxe ainda mais poder à Companhia, isto após novos atos aprovados por Charles II, perto de 1670.

Estas ações deram à Companhia das Índias Orientais o direito de se apoderarem de terras em nome do Grã-Bretanha para forjar dinheiro, formar alianças, fazer guerra (ou paz), exercer jurisdição civil e criminal sobre áreas controladas pelos britânicos e comandar fortalezas e tropas. Inicialmente, a Companhia tinha apenas algumas centenas de soldados, mas ao longo dos 100 anos seguintes as tropas cresceram para 67 mil homens. A maioria das tropas indianas foi treinada com técnicas europeias.

Por volta do ano 1700, a Companhia tinha conseguido uma influência política poderosa na Grã-Bretanha e tinha conseguido estabelecer um monopólio de comércio, isto depois de converter ou deixar de fora os seus rivais. Quando a revolução industrial chegou e a demanda por mercadorias indianas aumentou, o poder e influência foram ficando maiores.

Esta Companhia governou, efetivamente, a Índia com os seus exércitos privados e administrações ao longo de cem anos, de 1757 a 1857, até a Realeza Britânica ter assumido o controlo total em meados do século XIX.

"Não foi o governo britânico que dominou a Índia no final do século XVIII, mas sim uma Companhia privada perigosamente desregulada, com sede num pequeno escritório, com cinco janelas de largura, em Londres, e gerenciado na Índia por um sociopata instável. Tudo isto não era viável", argumenta William Dalrymple, ao jornal The Telegraph.

Outros incidentes significativos foram as Guerras do Ópio, em meados do século XVIII, baseadas em disputas anglo-chinesas sobre o comércio britânico e soberania chinesa.

Dissolução

Apesar da ousadia e brutalidade em governar, ficou claro, nos últimos anos, que a Companhia não era capaz de lidar com os vários territórios que tinha conseguido tomar conta ao longo dos anos, ao mesmo tempo que as quedas comerciais na Europa levaram à empresa a apelar junto do Parlamento para ajuda financeira.

A Lei Reguladora de 1773 (mais tarde, conhecida como Lei das Empresas das Índias Orientais) restringiu o braço militar da Companhia, ficando depois sob a alçada da Coroa, mas novas leis voltaram a dar poder à Companhia.

Em 1857, a rebelião indiana foi o resultado da inércia e incapacidade de controlo da Companhia das Índias Orientais e, no rescaldo, o Governo Britânico nacionalizou a Companhia, tomando conta das suas posses indianas, poderes administrativos, máquinas e forças armadas. A Companhia ainda tentou refazer-se durante alguns anos, vivendo da sombra da sua antiga 'máquina' na gestão do comércio de chá para o Governo, mas acabou por ser formalmente dissolvida no início de 1874.

Nos dias de hoje

Embora a empresa original não exista mais, o nome e alguns dos acessórios foram adquiridos por uma empresa de retalho, que vende produtos alimentares e de 'lifestyle' e é (ironicamente) administrada por um empresário indiano.

A Companhia das Índias Orientais em Taboo

Taboo retrata a Companhia de 1814, pouco depois do seu auge, mas ainda com muito poder e influência. No entanto, alguns têm criticado a série por ser irrealista na sua descrição, com alguns historiadores a argumentar que não houve forma de a empresa ter organizado aquele tipo de conspiração nefasta que se assiste em Taboo e que a série retrata a Companhia com uma carga injustamente negativa.

"Eu acredito que as instituições, e até as individualidades, precisam de ser julgadas de acordo com o que era válido com os valores da época", disse o criador e argumentista da série Steven Knight, em declarações à RadioTimes quando colocada a questão sobre a precisão da série.

"É muito difícil julgar a Companhia das Índias Orientais de acordo com nossos valores. Eles deixaram de lidar com escravos, mas tinham tratados com eles. Eles fizeram coisas mesmo terríveis nos países coloniais, coisas que não seriam aceitáveis ​​agora", continuou.

E James Delaney?

Já agora, a personagem principal, James Kezia Delaney, protagonizado por Tom Hardy, saiu da mente e criatividade do próprio ator britânico.

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