Bilhete-postal enviado por Filipe Guerra

Após uma atribulada viagem pelo trânsito de Bucareste, cheguei à Estação Gare Du Nord mesmo em cima da hora do meu comboio. Sob a inegociável pressão da hora de partida, dirijo-me a correr para a bilheteira, compro o bilhete e sigo depressa para o comboio.

Aliviado por já estar dentro do comboio, reparo que, por causa da pressa, me esqueci de comprar o que quer que fosse para comer. A viagem seria dura, teria de suportar 13 horas apenas com o que restava de meio pacote de bolachas, algures no meio da mochila. Fiquei angustiado.

Na carruagem apenas estava eu, até que, quase no momento da partida, entra um homem, de aparência simples e modesta, apenas com um saco de plástico na mão, e mesmo com todo o espaço da carruagem à sua escolha decidiu sentar-se ao meu lado. Na estação suou um apito e o comboio arrancou.

A certa altura o homem aproxima-se do vidro, saca do bolso um pente e aproveita o reflexo para se pentear. Perante a sua insólita preocupação, sorri. Ele apercebe-se do meu sorriso e sorrindo também diz-me qualquer coisa que não percebo. Faço-lhe entender que não percebo romeno. Ele aponta para si próprio e diz Lazar. Eu respondo-lhe, apontando para mim, Filipe. A viagem prosseguia, e ele às vezes insistia em dizer-me coisas a que eu, repetidamente, respondia, gesticulando que não entendia, ele corava pelo seu esquecimento e pedia desculpa.

A fome aperta ao fim de algumas horas e vasculho pelo que restava das bolachas até as encontrar. Lazar apercebe-se que tenho pouco que comer, abre o seu saco e coloca à minha disposição uma improvável combinação entre algumas laranjas e um pacote de batatas fritas. Era o que ele tinha. Agradeci muito, mas por timidez recusei.

Chegámos à fronteira búlgara e entraram os guardas fronteiriços para confirmar identidades. Apresentei o meu passaporte e tudo estava bem. Já o Lazar procurava algures na sua carteira um documento que não encontrava pelo que, sem esperar por muito, os guardas impacientes levaram-no para fora do comboio.

Sentia-me preocupado com o meu companheiro de viagem até que reparo que ele está parado ao pé dos guardas mesmo junto à minha janela, levanto-me num ápice, abro o vidro, tiro todo o dinheiro romeno que me resta e tento fazer-lho chegar. Lazar de cara séria recusa e segue com os guardas para o interior da estação.

Passado um pouco Lazar regressa à carruagem, visivelmente aliviado com qualquer coisa sorri-me e diz-me coisas que não entendo. Desta vez finjo que percebo para não cortar o seu entusiasmo. Ele não se apercebe da minha contradição. Proponho-lhe que tiremos uma foto para recordação. Ele aceita e, zeloso, volta a dar utilidade ao seu pente.

Um amigo a Leste
créditos: Filipe Guerra

Por entre rios, vales e populações, a viagem fez-se até Sófia. Dessas belas paisagens ficou-me pouco se comparado com a recordação da generosa lição de humanidade que senti nesse dia, da ligação e da solidariedade sentidas entre dois companheiros improváveis. Até sempre Lazar!

Nota editorial: Este foi o texto vencedor do passatempo SAPO Viagens e TAP para ganhar uma viagem a Paris. Tivemos dezenas de participações e adorámos conhecer as vossas peripécias de viagens. Foi uma escolha difícil, mas a história destes amigos improváveis tocou-nos de forma singela. Afinal, viajar é também descobrir que somos todos iguais e que existem pessoas boas em todo o mundo. Fiquem atentos ao Bilhete-Postal do SAPO Viagens porque iremos publicar, em breve, os outros relatos recebidos.

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