Eram seis da manhã e estava no rooftop do hotel a ver aquela bola de fogo laranja erguer-se das dunas do Dubai. A outra rapariga havia descido e restava apenas um rapaz. Bastaram uns minutos para ele meter conversa e para, indubitavelmente, eu perceber que tipo de interesse ele tinha. Há uma linha tênue entre o flirt e a invasão. Aquele momento em que o engate baseado na insistência se torna quase agressivo. Foi necessário mentir e dizer que era casada. Ele deu literalmente um passo atrás, mas isso não o impediu de continuar a tentar. Obviamente ocorreu-me naquele exacto momento que estava sozinha e isolada, que ele era fisicamente maior e mais forte do que eu e que talvez subir com o pijama de calções curtos num país tão conservador não tivesse sido boa ideia. O meu racional proteccionista debateu-se com o meu feminismo que dita que as roupas não são sinal do que quer que seja e acreditei como acredito sempre que a firmeza seria a melhor das mensagens. Foi, contudo poderia não ter resultado.

Mas isto acontece apenas quando metemos uma mochila às costas e partimos para o desconhecido? Não. Se há um estigma sobre isso de se ser uma mulher e viajar sozinha? Há. Somos mais frágeis fisicamente? Perdoem-me, mas (generalizando) somos. Mas nisto de se ir explorar o mundo isso não importa nada. Importa, sim, a bagagem que trazemos, não nas costas, mas dentro de nós, essa que se fortalecerá com os quilómetros. Em determinados pontos do mundo já se vislumbram várias mulheres fazendo-o. Poucas, considero eu.

Vivemos ainda nesse preconceito do ‘é perigoso, é necessária coragem, não é aconselhável, é preciso estofo’, como gostam de dizer. Eu acho que é apenas necessária uma coisa: vontade, vontade de ir. Do outro lado do mundo ouvi muitos “és uma mulher muito forte” e expressões de admiração e espanto, sobretudo de homens, porque há uma fatia do planeta onde as mulheres não podem sequer ousar fazê-lo. Mas estes casos não me surpreendem. Frustram-me claro está, mas são expectáveis tendo em conta o panorama social desses países. O que me desaponta é ver mulheres no meu país, dito livre e desenvolvido, freá-lo. Mulheres auto-reprimidas que acham que isto de viajar sozinho é coisa para homens, que apenas se deve partir acompanhada de amigos ou do namorado/marido.

Não deveria ter de escrever um texto em pleno século XXI para dizer que sou mulher e que viajo sozinha e que não há nada de errado nesta afirmação. Que somos seres capazes de planear, de decidir autonomamente, de enfrentar medos, de encontrar soluções para os problemas que encontramos no caminho. Que não haja medo de se partir só. Na verdade, quando viajamos sozinhas apenas estamos sós quando queremos estar sós. Não quero que leiam isto de forma unidirecional. Eu adoro viajar acompanhada. Mas não há maior prazer do que desbravar países nessa liberdade nossa de estar onde queremos, quando o queremos.

É preciso ir, sim. E ir sobretudo para esses países onde se acha que a mulher não o deve fazer, para demostrar que sim, nós mulheres, podemos. Porque é também assim, partindo, que os nossos olhos e os olhos do mundo se vão abrindo.

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