1. Como/quando começou com o “bichinho” das viagens?

Comecei a viajar relativamente novo, com os meus pais, embora os destinos fossem sempre muito próximos e o orçamento reduzido. Lembro-me de fazer campismo selvagem na Serra do Soajo durante muitos anos; das viagens de VW Carocha para Vila Real de Santo António durante o verão; das férias na Zambujeira do Mar, já adolescente; e de uma incursão por Espanha e sul de França de carro e tenda de campismo.

Durante anos a fio, lembro-me também de ouvir histórias de viagem da boca do meu avô, episódios originários da linha transiberiana, das estepes mongóis, da Amazónia brasileira, do outback australiano, enfim, dos quatro cantos do mundo. Pensando com esta distância temporal, julgo que foram essas histórias que mais contribuíram, mais tarde, para este desejo de explorar o mundo.

Depois comecei a viajar esporadicamente por conta própria, mas só em 2001, quando tinha 30 anos, nasceu o embrião daquilo que viria a ser o Alma de Viajante. É curioso reler o que escrevi na homepage da primeira versão do site:

“VIAJAR é um prazer, ESCREVER é um estado de alma, FOTOGRAFAR é uma paixão. Juntos, os três verbos formam a Alma de Viajante e este é o seu recanto na rede global. O recanto onde se junta a paixão de fotografar pessoas, culturas e lugares, a sede de escrever sobre tudo e sobre nada e a magia de descobrir o que o imenso planeta tem de belo e diferente.

Alma de Viajante não é mais do que uma partilha de momentos. De opiniões. Partilha de emoções e vivências. Umas publicadas, todas por prazer. O prazer pelo prazer. É um projeto pessoal esperançadamente sempre incompleto. Mas cada vez menos. Porque outras viagens se seguirão, outros negativos haverá para revelar, muitas letras para agrupar. Com alma. Com calma.”

Ainda hoje, apesar do digital no lugar dos negativos, a essência mantém-se inalterada. Tanto escrevo textos tipo onde ficar em Londres para ajudar os leitores com dicas concretas, como posts inspiracionais sobre viajar sozinho, para os ajudar a dar o passo, mas a base de tudo sempre foi a mesma: “Viajar. Partilhar. Inspirar.”!

2. Além de viajar, gosta muito de…

Gosto muito de água, do cheiro a maresia, de ilhas, de navegar rio acima. Tal como gosto de boa gastronomia, da indiana à japonesa, da vietnamita à italiana, e sobretudo a portuguesa, seja numa tasca ou num restaurante Michelin (embora a estes vá poucas vezes). Gosto de apreciar boa arquitetura. Gosto de mercados caóticos. Gosto de design, de fotografia, de publicidade e de tudo o que gravita em torno do mundo da comunicação. Gosto de pessoas. Gosto de vinho tinto, de sushi e de açaí. E gosto muito de ser dono do meu tempo e da liberdade que o meu trabalho permite - não a trocava por nenhum salário chorudo.

3. Quantos países já visitou?

Não sou de contar países mas fazem-me essa pergunta tantas vezes que há pouco tempo fiz esse exercício. Neste momento, salvo qualquer esquecimento, já estive em 101 países (alguns dos quais múltiplas vezes). O que quer dizer que tenho quase outros tantos para explorar.

4. Viagens mais marcantes e porquê?

Por todo o simbolismo, por ter sido a mais transformadora das viagens, por ter contribuído decisivamente para tudo o que sou hoje, e por de facto me ter proporcionado das melhores experiências enquanto viajante, sem dúvida que a minha primeira volta ao mundo, em 2004/05, foi a viagem mais marcante que fiz até hoje.

Além dessa, uma outra viagem marcou-me bastante, por ter servido para desmistificar preconceitos. Falo de uma viagem por terra do Cairo a Teerão, durante três meses, pouco tempo antes de rebentar a guerra na Síria. Nessa viagem passei pelo Egito, Jordânia, Síria, Líbano, curdistão turco, Iraque e, finalmente, o Irão.

Por fim, uma segunda volta ao mundo, desta feita em família - que resultou no projeto Diário da Pikitim (entretanto parado) -, pelo privilégio de ver o mundo pelo olhar de uma criança então com cinco anos.

5. Destino que quer regressar e porquê?

Há muitos países onde já regressei várias vezes, mas acho que tenho mesmo de voltar a Timor-Leste - nem que seja apenas para re-encontrar este olhar. Na altura, escrevi o seguinte: “Um dia hei-de voltar, ternura, nem que velho e cansado esteja, à tua aldeia feita cidade. Hei-de sorrir ao ver esses caracóis esvoaçarem ao vento, soltos e livres. Hei-de cruzar-me contigo nessa ladeira, encontrar-te mulher estudada, mãe de muitos olhos negros, feliz. E hei-de saber que és tu, porque um olhar assim não se esquece”.

Talvez esteja na hora.

6. Próximos destinos e expectativas

Acabei de regressar da Arábia Saudita, onde vivenciei um país totalmente virgem em termos turísticos, e agora vou mudar radicalmente de registo. Partirei em breve para uma curta viagem à Tailândia, sete anos depois da última vez que aterrei em Banguecoque, para visitar novos lugares. Depois disso, tenho muitos projetos na cabeça, entre os quais levar os meus filhos à Capadócia e fazer uma viagem solitária ao Haiti e ao lado B da República Dominicana. Mas o destino que mais frequentemente me tem gritado “vem cá” é, sem dúvida, o Paquistão. Não sei se será em 2020, mas tenho por certo que hei-de lá ir em breve.

7. Dica de viagem mais valiosa que pode dar

Viajar devagar é o conselho que mais frequentemente dou quando me pedem dicas de viagem. Tenho por verdade quase absoluta que um viajante retira muito mais da viagem, conhece muito mais gente e assimila melhor as culturas e tradições dos locais que visita se andar devagar. Além de poupar dinheiro. É isso que tento explicar vezes sem conta a quem me procura.

8. Lugar preferido em Portugal

Portugal é um país inacreditavelmente belo e diversificado e, ao longo dos tempos, desenvolvi três grandes paixões domésticas: os Açores, onde regresso múltiplas vezes por questões familiares; o Douro, incomparável sobre qualquer ponto de vista, incluindo a comunhão perfeita entre paisagem natural e intervenção humana; e a Costa Vicentina, desde os tempos em que a Zambujeira do Mar era apenas uma aldeia de pescadores sem festivais de verão.

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