O quinto de uma fratria de oito irmãos, o meu guia de hoje nasceu e cresceu numa família pobre que, não podendo pagar a casa onde habitavam, teve durante algum tempo de se refugiar numa cabana nas montanhas - sem electricidade, sem canalização, sem nada do que damos por adquirido no nosso dia-a-dia. Já pelos seus quatro anos caminhava diariamente por entre os montes, duas horas em cada sentido para ir até à escola, fizesse sol, chuva ou neve. Roman passou frio e fome, tal como os irmãos, todos eles espaçados com um máximo de dois anos de diferença. É que há 30 anos atrás, estas terras ainda não tinham abraçado o conceito ou cultura de Planeamento Familiar.

Um assalto armado numa tarde em que se encontrava sozinho com a mãe e os irmãos levou-lhes novamente tudo (que era nada), pois só tinham algumas roupas com que se aqueciam, galinhas, duas lamas e uma vaca. Roman conta que por fé do pai na Pachamama (a alma da Terra), as coisas tomaram o seu caminho, e que os assaltantes caíram em desgraça. Conseguiu educar-se a ponto de hoje estar bem estabelecido como condutor e associado a vários hotéis da região de Cusco, casado e com duas filhas que certamente terão um destino diferente.

Diário de bordo: A história sofrida de Roman. Nem tudo são rosas nesta viagem ao Peru
Roman créditos: Andreia Castro
Diário de bordo: A história sofrida de Roman. Nem tudo são rosas nesta viagem ao Peru
Montanhas créditos: Andreia Castro

Assim, não é com estranheza que, à posteriori, se entende a facilidade com que estas gentes sobem as montanhas três, quatro vezes por dia. Está-lhes no sangue, na alma e no suor. Os músculos estão trabalhados para a dureza do terreno, e estão adaptados à altitude, o que faz com que não se cansem com a mesma facilidade que nós.

Tal como em Portugal, a pandemia chegou ao Peru em Março de 2020 mas o país esteve em lockdown cerca de 8 meses. Extremamente dependente do turismo, os seus habitantes viraram-se exclusivamente para as vendas daquilo que conseguiam (roupas ou animais), ou à agricultura (seja para consumo ou para venda). O governo atribuiu um pequeno subsídio no valor de 700 "soles", cerca de 145 euros, que rapidamente se gastou. Os tios e o primo faleceram da doença e sem qualquer possibilidade de apoio hospitalar, tal foi o número de casos na fase aguda. Também as duas principais vacinas circulantes, a da Pfizer e da Moderna, demoraram a chegar, ou não fosse este um país em que aqui também se evidenciam grandes contrastes para com a realidade europeia. "Há muitas pessoas que não querem a vacina, crêem que são imortais", diz em jeito de desabafo.

O Peru reabriu há pouco tempo as suas portas à comunidade internacional, solicitando para a entrada o certificado de vacinação ou um dos testes (PCR ou antigénio), para além de uma "Declaração Jurada" (obtida no site oficial e preenchida online) que atesta a ausência de sintomas nos últimos 14 dias. Ainda assim, são até ao momento raros os turistas estrangeiros, vendo-se contudo muitos peruanos em circulação.

Diário de bordo: A história sofrida de Roman. Nem tudo são rosas nesta viagem ao Peru
A caminho de Humantay créditos: Andreia Castro

O carro avança entre curvas e contra-curvas. Somos apenas nós e Roman. Ao fim de três horas de viagem, e com pequeno-almoço tomado pelo meio e regado a chá de coca, começo a subir a encosta da montanha. O cansaço abate-se rapidamente, não conseguindo a determinada altura avançar mais do que uns míseros 30 centímetros de cada vez. Estamos a caminhar em direccção aos 4200 metros, e, apesar de estar a fazer profilaxia do mal de altitude e não ter quaisquer outros sintomas, há algo de que não consigo fugir: a sensação de fraqueza e o arfar a cada passo. Olho para o topo da montanha e tomo uma decisão antes que seja demasiado tarde: pedir um cavalo. Sabia que com uma lesão no joelho feita em 2011 na Escócia, e acusada pela primeira vez quando fiz o célebre W (o trekking das Torres del Paine, na Patagónia Chilena), em 2018, não conseguiria desfrutar do momento sem esforço físico suplementar, para além do mental, porque estas subidas são também um verdadeiro desafio à nossa capacidade de foco e superação.

Humantay
créditos: Andreia Castro
Humantay
créditos: Andreia Castro

Assim - e de forma resignada - subo ao cavalo que me leva, inegavelmente também em esforço, até ao topo. Tento pensar que são animais habituados a carga, e desvio a sensação de culpa apreciando a paisagem lindíssima que me rodeia - montanhas acastanhadas com cumes cobertos de neve. Chego a Humantay. O sol meio encoberto por algumas nuvens passageiras dá o ar da sua graça e a paisagem transfigura-se: a lagoa adquire um turquesa vívido, limpo e puro como o ar da montanha.

De regresso a Cusco, passo novamente por vários vendedores de rua. Pelo seu número, a quantidade de vezes em que sou abordada aliciando à compra é demasiada mas perfeitamente compreensível face ao que descrevi acima. A banda da polícia toca na Plaza de Armas. Já é de noite, e estão cerca de seis graus. Não vejo ninguém a pedir, mas vejo senhoras a vender algo tão simples como folhas de coca e ervas aromáticas. É, realmente, preciso ter sorte no sítio onde se nasce...

Se vierem até Cusco, procurem pelo Roman (roman.quispe.martinez@gmail.com; @romenurbam; +51980403004 ) e contem com ele para visitar todos os pontos de interesse.

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