Eu poderia usar todas as mais entusiastas expressões para descrever esta que é a mais famosa baía do Vietname, património nacional desde 1962, património da Unesco desde 1993, na certeza de que todas elas ficariam aquém do que aqui se vê: é arrebatador, os olhos são pequenos para a imensidão do mar, do sol que se põe mesmo diante deles, das ilhas que se repetem de forma desigual, cada uma relembrando a rebeldia desse dragão feito de pressa para morar o mar.

Se deixarmos a lenda e nos socorrermos da ciência, sabemos que essas (mais de 3000) ilhas são monólitos de calcário ou formações cársicas - termo avançado pelos geólogos -, como as que vimos em Yangshuo. Na sua maioria estão cobertas de vegetação, desertas de habitação humana mas lar de muitas aves e outros animais.

Halong bay
créditos: Menina Mundo

Quatro horas, foi o tempo que percorremos no autocarro, desde Hanói. Depois, num barco pequeno chegámos àquele que seria o nosso barco, a nossa casa - por um dia.

Era um barco-casa com uma porta no casco, com janelas que se estendem ao longo do seu comprimento e do convés fizemos a nossa sala: aí namorámos, e namorámos as cores do pôr do sol e dos seus lápis de cera, que usámos nos livros de colorir, ali: sentados no soalho – velho mas conservado – do chão do barco.

Almoçámos, passeámos, jantámos e dormimos nele, no embalo das suas águas calmas, as mesmas que horas antes acolheram em si o sol e demorámo-nos a olhá-los nessa entrega, como quem assiste ao filme de final de tarde. E à noite ainda houve tempo para um karaoke: ‘Come on baby, light my fire’ dizia ele, enquanto me piscava o olho - eu terei provavelmente corado.

Halong bay
créditos: Menina Mundo

Ela não consegue esconder o entusiasmo de morar – nem que seja por um dia – num barco, afinal um dia nos seus dois anos é muito e nos nossos mais de 30 também: é o primeiro dia que, em família e individualmente, temos uma casa-barco.

No dia seguinte acordámos no barco, abrimos as janelas e deixámos os olhos saírem. Acreditem, a força do que víamos entrou-nos pelos olhos e pelo peito como no dia anterior: quando a havíamos visto pela primeira vez. Parece que alguém pintou esta paisagem, lhe escolheu minuciosamente as cores, a esculpiu de forma majestosa. E foi assim, mas não foi alguém, foi a natureza: com os movimentos de subida e descidas das águas do oceano, pela erosão e modelagem do calcário, pela vegetação que nasce e cresce em cada pilar. Pela vida que vive nestas águas.

Navegámos até uma das ilhas do arquipélago de Cat Ba, aí ficámos num bungalow suspenso, pelas suas pernas altas, sobre a água. Apenas havia uma cama neste quarto, mas as cortinas abertas preenchiam o quarto inteiro.

Halong bay
créditos: Menina Mundo

Esta foi a primeira ilha, a primeira praia, o primeiro mar e o primeiro mergulho da nossa viagem, e a Mia, que adora praia, deitada à beira da água diz: ‘Que boa paia, a Mia gosta de paia com os papázitos’. Recebemos abraços na ilha, de cabelos despenteados, de olhos cheios de sono mas de coração (tão) acordado e forte.

No regresso tivemos um barco que tinha um convés coberto de relva e ela pôs os seus pés pequeninos nas minhas sapatilhas. Lembrei-me: se não estivéssemos nesta viagem, se eu continuasse o meu trabalho de professora universitária, provavelmente, neste mesmo dia, em casa, ela poria os seus pés nos meus sapatos de tacão alto. E as sapatilhas parecem-me (hoje e aqui) um lugar tão mais confortável para os seus pés, para a vida.

Ouvimos, de quem já cá tinha estado, que tivemos sorte: falaram-nos do nevoeiro que não deixa ver estas colinas que se dividem entre o mar e o céu. Mas nós tivemos sol e um maravilhoso pôr do sol e vimos tudo o que podíamos ver. Quase custa acreditar em tudo o que vimos. Tivemos sorte: falaram-nos das multidões e dos muitos barcos que se apressam para parar no melhor spot e que a tranquilidade e o contacto com a natureza são poluídos pelos mesmos, mas nós mal vimos outros barcos e o sol gigante parecia ter-nos acolhido naquele convés de soalho velho.

E eu concordo, tivemos sorte, temos sorte, e acredito ser algo que se construa - dia após dia.  E de mãos dadas, com a ciência e a lenda, confesso: se eu fosse uma formação rochosa, moraria em Ha Long Bay e aí dividir-me-ia em duas: a parte de mim que pertence ao mar ficaria debaixo de água; a parte de mim que pertence ao sol, à terra, e às montanhas, viveria acima dela.


Da preservação e da poluição:

Diz a história – que se dá a conhecer pela voz do guia – que quem lá vivia foi deslocado, por duas razões: a educação das crianças, que vivendo ali não frequentavam a escola; e a preservação do património da Unesco. O que nós sentimos foi que estas pessoas foram expropriadas dos seus terrenos, das suas casas, em nome do turismo. Resta-nos desejar que, pelo menos, lhes tenham oferecido condições de vida razoáveis no novo local onde as alojaram e que as suas crianças beneficiem da mudança com o acesso à educação.

Assegurar a integridade do cenário é a prioridade, contudo, os relatos que fomos ouvindo pela voz de viajantes que lá haviam estado em altura de grande fluxo de turistas/navios, e a poluição que vimos aquando da nossa visita, levam-nos a crer que a deslumbrante Ha Long Bay enfrentará sérios problemas ecológicos no futuro.

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