Uma vontade de ferro

Após partir à frente de uma frota de cinco navios e 237 homens com o objetivo de descobrir uma nova rota para as Ilhas Molucas, ricas em especiarias, e navegando para oeste em nome do rei Carlos I da Espanha, Fernão Magalhães teve que usar todo o seu afinco para lidar o desânimo dos seus homens e os motins organizados pelos seus capitães espanhóis.

Magalhães alcançou as Molucas após atravessar dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico.

Mas mesmo antes de descobrir, em outubro de 1520, o estreito que hoje é batizado em sua homenagem no extremo sul do continente americano, o navegador já tinha perdido dois dos seus barcos. Um deles naufragou nos mares do sul do continente americano e o outro fugiu para voltar à Espanha de forma clandestina e assim não ter que enfrentar as terríveis tempestades dos mares austrais.

Uma morte sem glória

Após a sua travessia do Oceano Pacífico, que batizou assim por ter beneficiado de uma meteorologia particularmente clemente, Magalhães chegou ao arquipélago das Filipinas, mais ao norte mas na mesma longitude das Ilhas Molucas.

Impulsionado pela sua vontade de evangelizar os povos indígenas, até mesmo recorrendo à força, morreu em abril de 1521 num combate na ilha de Mactan, após ter sobrestimado a potência militar dos seus homens e do seu armamento.

Assim, foi um dos seus oficiais, o basco Juan Sebastián Elcano, que completou a volta ao mundo, ao lado de 18 sobreviventes que conseguiram voltar ao ponto de partida em setembro de 1522, a bordo do único barco que saiu são e salvo da proeza, o "Victoria".

Uma proeza disputada

Enquanto os portugueses não dão grande importância ao papel de Elcano, a Real Academia de História da Espanha afirmou em março desse ano que a primeira volta ao mundo foi uma proeza "exclusivamente espanhola". Magalhães atuou a serviço da coroa espanhola após não ter conseguido convencer o rei de Portugal para que apoiasse o seu ambicioso projeto.

Os homens que partiram de Sevilha há 500 anos eram de mais de uma dezena de nacionalidades, com marinheiros franceses, italianos e gregos, entre outros. Um dos relatos mais completos da viagem foi escrito por um resgatado veneziano, o cronista Antonio Pigafetta.

Oficialmente, os dois países vizinhos que dividiram o mundo no Tratado de Tordesilhas em 1494 decidiram comemorar juntos o quinto centenário da primeira viagem de cirum-navegação do planeta.

A influência do acaso

Carlos I ordenou à expedição que chegasse às Molucas e voltasse para Espanha navegando para o leste, e não que desse a volta ao mundo.

Após a morte de Magalhães, dois barcos da expedição atracaram nas Molucas e encheram os seus porões de cravo.

Um deles tentou chegar à Espanha cruzando o Pacífico, mas naufragou numa tempestade. O outro navio, comandado por Elcano, decidiu desafiar as ordens do imperador e apostou na volta para Espanha pelo oeste, por águas controladas pelos portugueses, a quem conseguiu enganar.

Elcano foi um dos amotinados que tentou forçar Magalhães a mudar de rumo antes de chegar ao estreito que hoje é batizado com o nome do navegador português.

"Uma revolução conceptual"

O feito de Magalhães é mais que "a consequência de 100 anos de explorações marítimas" dos navegadores portugueses, como Vasco da Gama, o primeiro a chegar à Índia cercando a África, ou Pedro Álvares Cabral, considerado o primeiro europeu a chegar ao Brasil, diz José Manuel Marques, que preside os atos comemorativos em Portugal pelo 500º aniversário.

"Magalhães marca uma revolução conceptual, pois oferece-nos pela primeira vez uma visão integral do mundo, mostrando-nos que não há somente um oceano e que o mar é um tratado de união entre os povos", diz.

A época das "Grandes Descobertas" permitiu que Portugal formasse o seu vasto império colonial, da África até o Brasil, que não foi totalmente desmantelado até depois da Revolução dos Cravos, em 1974.

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