Quatro ranchos de romeiros da ilha de São Miguel resolveu, por sua iniciativa, sair à rua, tradição que em 2020 foi suspensa devido à pandemia de covid-19, embora o regresso não tivesse sido feito no formato tradicional.

O mestre do rancho de romeiros da freguesia do Livramento, no concelho de Ponta Delgada, Rui Raposo, explicou à agência Lusa que foi decidido realizar apenas o último dia de romaria, e não os habituais sete dias, uma vez que estavam há dois anos parados devido à pandemia de covid-19, apesar da tradição do romeiro existir “há 500 anos” nos Açores.

A prática das romarias, que se designava por visita às casinhas de Nossa Senhora, tem origem nos terramotos e erupções vulcânicas do século XVI.

Para além do rancho do Livramento, os ranchos de Santa Cruz e Água de Pau, do concelho da Lagoa, e de Água D’Alto, no concelho de Vila Franca do Campo, realizaram dois dias de romaria, nos últimos dois sábados.

“O objetivo foi rezar pelas ruas, ir de capela em capela e pedir proteção para toda a humanidade. Ainda mais agora havendo guerra, [além da] pandemia, achamos ainda mais necessário rezar. As romarias virtuais e espirituais da Igreja, que temos feito nos últimos dois anos, já não satisfazem os romeiros”, declarou Rui Raposo.

O mestre de romeiros explicou que foi cumprido apenas o trajeto do último dia da romaria quaresmal de sete dias pela ilha de São Miguel e, durante o percurso, foram usados laços alusivos à Ucrânia, em sinal de solidariedade.

Em recentes declarações à Lusa, o presidente da Associação Movimento de Romeiros de São Miguel, João Carlos Leite, referiu que “este ano, apesar do alívio das restrições”, tinha sido decidida a “não realização das romarias, porque envolveria uma logística de preparação com uma antecedência entre três a quatro meses”.

João Carlos Leite explicou ainda que, em novembro de 2021, tinha sido votado por larga maioria, em assembleia geral, a não realização das romarias no formato tradicional, por causa da logística e da necessidade de garantir proteção, devido à instabilidade da pandemia de covid-19.

Na altura, o mestre de romeiros do Livramento, considerou que a reunião de novembro se realizou “muito cedo” e que se deveria ter deixado “para fevereiro a decisão conforme as condições da pandemia”.

“O principal objetivo era podermos estar em oração pelas ruas de São Miguel e, o segundo, era que a nossa tradição não morresse”, referiu o mestre dos romeiros.

O mestre de romeiros da freguesia de Água D`Alto, Duarte Carreiro, que realiza romarias há 54 anos, também em declarações à Lusa, referiu que os romeiros locais “tiveram o apoio dos diretores espirituais, que são os padres da freguesia”, bem como da junta local.

Ainda segundo Duarte Carreiro, decidiram sair à rua uma vez que a pandemia está "mais desanuviada”, tendo subido à Ermida de Nossa Senhora da Paz.

Tradicionamente, durante a romaria os romeiros percorrem quilómetros na ilha de São Miguel, a pé, durante uma semana, usando um xaile, um lenço, um saco para alimentos, um bordão e um terço, entoando cânticos e rezando.

Os romeiros pernoitam em casas particulares ou em salões paroquiais, devendo iniciar a caminhada antes do amanhecer e entrar nas localidades logo a seguir ao por do sol.

A média de elementos de cada grupo ronda os 50 homens e as romarias devem cumprir um percurso sempre com o mar pela esquerda, passando pelo maior número possível de igrejas e ermidas de São Miguel.

Existem 53 ranchos de romeiros na ilha de São Miguel.

As romarias quaresmais de São Miguel, que mobilizam cerca de 2.500 homens, celebram este ano 500 anos, uma efeméride que apenas será assinalada em 2023.

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