Os moradores das praias do Paiva e Itapuama e da Enseada dos Corais, a cerca de 30 quilómetros do sul do Recife, contam que quando a maré negra apareceu - quase dois meses após as primeiras manchas aparecerem na Paraíba - estavam sozinhos, sem equipamento de proteção ou conhecimento sobre como enfrentar o desastre.

Pescadores, guias de turismo, trabalhadores das praias e vizinhos atiraram-se ao mar para tentar remover a massa viscosa, entre o odor penetrante de combustível.

"Fiquei chocada, porque existiam pessoas a entrar para dentro do mar com aquele óleo sem luvas e equipamento. Isto nunca tinha acontecido", partilha a vendedora de coco Glaucia de Lima, de 35 anos, que continua a limpar voluntariamente as pequenas partículas que chegam.

A correria inicial de funcionários e voluntários já reduziu. Com um misto de tristeza e euforia, os voluntários mostram no telemóvel imagens daqueles dias de caos, principalmente a de um menino a sair do mar com o corpo coberto de petróleo.

O governo federal, através da Marinha, informou que, desde o começo do desastre, foram mobilizados mais de 2,7 mil militares, dezenas de navios e aviões para monitorar o derramamento, e que reforçou o número de agentes de controlo ambiental em terra. No entanto, entre os moradores dos locais afetados, a ajuda é considerada tardia e insuficiente.

A natureza pede ajuda

Ao longe, a areia parece limpa. Mas a poucos quilómetros de distância, no rio Massangana, o óleo está impregnado nas raízes de um mangal, bioma de transição entre as águas do rio e do mar.

"Percebemos que a natureza está a pedir ajuda. Não dá para aguardar" que o poder público faça a limpeza, alerta o marisqueiro Vandécio Santana, que, com um macacão branco impermeável, luvas industriais e colete salva-vidas, retira do mangal outro saco com sedimento orgânico contaminado.

Vandécio tornou-se num dos rostos da tragédia ao denunciar, aos gritos, as consequências de não se responder ao derrame a tempo,  num vídeo que se tornou viral na internet e o levou a dar entrevistas na TV.

O que vai acontecer ao turismo?

Ainda não se sabe se as águas das praias vão ficar interditadas e se o marisco poderá ser consumido. E enquanto não saem os resultados, os moradores receiam que a situação afete a época alta, próxima das festas de fim de ano.

Giovana Eulina é guia de ecoturismo, professora de gestão ambiental, conhece a fundo o município de Cabo de Santo Agostinho: “Vai prejudicar o turismo? Vai. Vai ser necessário fazer alguma campanha para incentivar as pessoas a virem para cá."

A experiência de Giovana contrasta com a da turista Beatriz Bastos, gerente de loja, que aproveita o seu último dia de férias com amigas na praia de Calhetas, uma pequena enseada de águas cristalinas em Pernambuco. No seu itinerário desde Maceió, em que passou pelas famosas piscinas naturais de Maragogi, em Alagoas, o grupo de turistas quase não percebeu os efeitos do derrame.

"Só encontramos uma pequena mancha numa praia. Encontrámos muitos turistas. Os hotéis, pousadas e praias estavam lotados, nenhum lugar estava vazio", contou Beatriz.

Vizinhos de Cabo de Santo Agostinho e outros municípios do sul de Pernambuco convocaram para este domingo uma grande ação para agradecer aos voluntários pelo seu trabalho e mostrar aos turistas que as praias estão limpas. "Vamos abraçar a praia, mostrar aos turistas têm que vir, não deixem de vir não, porque está amenizando", pede a vendedora Gláucia.

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