O restaurante Tágide, localizado no Chiado, em Lisboa, é um daqueles refúgios de um passado imponente e luxuoso, é um álbum de memórias da história de uma cidade e de um país que abraçou o mundo a partir do Tejo e que soube trazer o melhor de um mundo distante para o prato. Mas o Tágide é também uma janela que continua aberta para o futuro, (e que deslumbrante janela!), é inspiração, técnica, ciência e paixão pela comida, é cuidado e requinte, é tempo.

Luís de Camões precisou de pedir inspiração às belas ninfas do Tejo, chamadas Tágides, para compor a sua obra maior “Os Lusíadas”. O chef Gonçalo Costa, que assina a nova carta primavera /verão, voltou a invocá-las ao transformar esse passado heróico dos Descobrimentos numa visão estratégica de futuro. Se outrora partimos do Tejo, que dali se avista tão próximo, para um mundo imenso, hoje, é à mesa do luxuoso Tágide que os muitos turistas originários de todo o mundo se deixam conquistar através de ingredientes, cores e aromas. 

O espaço, originário dos anos 50, funcionou como restaurante e bar dançante, chegando a ser o melhor e mais bem frequentado da cidade, onde atuavam os melhores artistas nacionais e estrangeiros. Nos anos 70, foi alvo de uma profunda remodelação, passando a ser apenas restaurante. Manteve a decoração luxuosa e os vários painéis de azulejos e elegantes lustres do século XVIII, bem como fontes de pedra, que datam do século XVII. A exigência das ementas acabou por ser distinguida com vários prémios e o Tágide tornou-se no primeiro restaurante de Lisboa a ser galardoado com uma estrela Michelin, entre 1981 e 1992.

Em 2007, o espaço mudou de mãos, tendo sido novamente renovado, mas mantendo o cariz luxuoso e de alta cozinha. Suzana Barros de Brito, nora de um dos anteriores proprietários do espaço, o banqueiro Jorge de Brito, fundador do Banco Intercontinental Português, é, desde então, a gerente do Tágide.

Com uma formação ligada à Arte, acabaria por se entregar de corpo e alma a este projeto, depois de desafiada pelo marido, Manuel de Brito. “Costumo dizer que não escolhi este restaurante, foi o restaurante que me escolheu e ainda bem”, refere, sorridente. Ao chef Gonçalo Costa, que trabalha para o Tágide há pouco mais de um ano, rasga-lhe inúmeros elogios pela sua “capacidade interpretativa e criativa”, pela sua “entrega em tudo o que faz” e pelas viagens e memórias que nos proporciona enquanto nos deliciamos com os seus pratos.

Apesar da influência francesa, Gonçalo Costa aposta numa cozinha requintada e tecnicista com raízes e ingredientes portugueses. Os produtos são da época, daí a mudança de carta a cada seis meses. A frescura, as cores e alguns sabores exóticos e surpreendentes transportam-nos para destinos longínquos.

Tendo a vista como testemunha, uma vista deslumbrante sobre a cidade, que nos permite ver a Sé de Lisboa, o castelo de São Jorge e o rio, passeei por alguns dos pratos que estão incluídos na nova carta. Como aperitivo, foi servida uma salada de polvo com puré de cenouras e uma folha de arroz crocante, uma combinação deliciosa de sabores que se conjugam na boca no momento certo, uma antecipação a uma refeição exótica e sublime.

O que é que a cavala, um peixe tão português, pode ter em comum com a lima kaffir, originária da Indonésia? Ambas estão na nova entrada de Gonçalo Costa, que lhes acrescentou beterraba e até framboesas. Pode parecer estranho, mas a mistura dos ingredientes resulta na perfeição. De seguida, experimento o prato de peixe do dia, no caso, a pescada, com ervilhas, papada de porco do Zambujal curada 24 meses e chá verde (25€). Mais uma vez, há uma surpresa que agrada todos os sentidos. Experimentar um destes pratos é saborear uma obra de arte, onde todas as cores são permitidas e reinventadas. Neste caso, são os produtos frescos e de elevada qualidade, fundidos com a técnica, a inspiração e a experiência do chef.

Na opção de carne, provei o peito de pato com texturas de nabo e kimchi (28€). O sabor forte e intenso desta conserva tradicional coreana, que habitualmente é feita de acelga, dá um toque exótico ao prato sem desvirtuar o sabor do pato que é perfeitamente equilibrado com o nabo. E, para terminar, mais uma bela tela inspirada nas cores da primavera: morango, pistacho e leite crocante (10€), uma espécie de cheesecake com um toque de sofisticação e genialidade.

Da nova carta, fazem parte outras opções, como os lagostins do Tejo e pezinhos de coentrada (16€), para entrada, e o bacalhau à Tágide (28€). Nas sobremesas, destaque para o aipo, yuzu e matcha (9€) e para o crepe Suzette (12€).

Ao almoço, é disponibilizado um menu do dia que custa 18,5€ e inclui couvert, sopa ou salada, prato do dia, creme queimado ou salada de fruta, café e uma bebida.

O serviço é aprimorado e atencioso, como se espera de um restaurante especial como este. Segundo a responsável, já são cerca de 85% os clientes estrangeiros. Os portugueses procuram este espaço, sobretudo, para celebrar ocasiões especiais. São inúmeras as vezes, por exemplo, em que ocorrem ali, junto à janela que parece abraçar a cidade, pedidos de casamento.

Para quem procura um espaço mais descontraído, abriu, em 2014, no rés-do-chão, o Tágide Wine & Tapas Bar. O Saraiva’s, outro “clássico” da cidade, é o mais recente projeto de Suzana Barros. Este espaço emblemático acaba de reabrir com um conceito que junta modernidade e sofisticação a uma carta mais descontraída. 


Morada: Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 20, Lisboa

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