
Numa rua de Pindelo de Silgueiros abre-se o portão do quintal da casa e vemos arcos desenhados por videiras que dão as boas vindas ao olhar coscuvilheiro.

Percorremos a estrada principal e pequenos marcos ou muros de granito delimitam o verde da vinha desenhada em linhas perpendiculares.

Estamos na freguesia de Silgueiros onde, dizem, nasceu o vinho do Dão. A literatura oficial garante que “não há dúvidas de que os vinhos de Silgueiros estiveram, desde há séculos, na mesa de reis e príncipes. A região de Silgueiros produz vinhos de excelência sobejamente conhecidos.”

Aida Figueiredo, topógrafa e conhecedora desta região do Dão, encontrei-a num dos quinze povoados da freguesia, também refere que “Silgueiros é forte em vinho. Tem a cooperativa de vinhos, a Pedra Cancela e outros vinhos conhecidos são daqui . Fala-se que aqui em Silgueiros há um micro clima. Nós estamos em Viseu e ainda não se vêem cerejas e, em Silgueiros, a cereja já pinta por volta de maio, já há cerejas para se comer, devido ao microclima. É mais quente.”

O microclima é uma bênção da proteção das serras do Caramulo e da Estrela que circundam a freguesia. Há muito que a população local o reconhece e as duas serras fazem parte da heráldica de Silgueiros.
A própria Região Demarcada do Dão, regulamentada há mais de um século, em 1907, é definida em função desta orografia. Situa-se no planalto protegido pelas serras do Caramulo, Bussaco, Açor, Estrela e serra da Nave. Formam um círculo que é preenchido por três rios: Dão Mondego e Alva.

Parte do percurso dos rios é em paralelo. Na freguesia de Silgueiros passa o rio Dão. Podemos vê-lo muito calmo no vale do silêncio de Póvoa Dão, embrulhado em colinas de granito.
Apesar de a principal atividade nos últimos séculos ser a agricultura, e, em particular, a vinha, os terrenos são pouco férteis, graníticos, e a vinha está plantada entre os 400 e 500 metros de altitude.

“Há pequenas quintas e há dois ou três grandes proprietários de quintas. De resto, são produtores pequenos” adianta Ainda Figueiredo.
O enoturismo tem dado visibilidade às quintas de maior dimensão. É frequente em pequenas aldeias encontrarmos sinalética que nos encaminha para lugares retirados com grandes plantações e detentores de marcas de vinhos. A vinha familiar também está a mudar. Embora continue a ser uma das marcas da atividade local, “muita gente trabalha fora, trabalha na cidade.

São mais os avós, os pais e quem vai herdando que mantêm as vinhas. Com exceção das quintas que é vinha para venda. A vinha familiar é mesmo por gosto para manterem porque já trabalham fora daqui.”

Um outro sinal do microclima local foi a vindima se ter iniciado no início da segunda quinzena de agosto. Tratores carregados de uvas condicionavam o trânsito nas ruelas muito estreitas de Passos de Silgueiros. Numa quinta, relativamente próxima, algumas pessoas transportavam à cabeça tabuleiros com uvas que eram depositadas num trator. A maioria eram mulheres.

“Provavelmente são pessoas daqui e já com alguma idade. Depois também havia a situação de as pessoas se ajudarem mutuamente. Agora colhemos aqui, depois vamos à tua e mais tarde à do outro.... As pessoas ajudavam-se, era assim que isto funcionava.”

A visita pode estender-se a algumas quintas, à Adega de Silgueiros, etambém ao Museu Etnográfico de Passos de Silgueiros, mas confirme primeiro. Tem estado condicionada a entrada devido à pandemia.

Silgueiros: o berço do vinho do Dão faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho, e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.
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