A tua viagem na minha terra começa por Santarém, apelidada de Capital do Gótico por causa dos diversos monumentos que podemos encontrar tendo por base esse estilo. Explora as ruas scalabitanas através da app do Município, partindo do Largo do Seminário em direção às Portas do Sol, onde irás seguramente assistir a um incrível pôr-do-sol com vista para a lezíria, nome que damos à planície de campos agrícolas colhidos, areados e prontos para a nova estação.

Santarém

Seria um erro primordial não passares pela Casa do Brasil, o Carlos Amado é o programador da agenda de exibições e para além de me ver crescer, é das pessoas mais apaixonadas por acessibilizar a cultura às gentes, por isso, aconselho uma conversa informal pois há muito a aprender com o seu espírito.

Depois da Torre das Cabaças e do Cinema Rosa Damasceno, mantém-te do lado esquerdo da estrada e olha para a direita, sim, essa grande casa cor-de-rosa é o romântico Chalet Ofélia, um pequeno charme, como lhe costumo chamar.

Antes de entrares no jardim onde o caminho desagua, dá uma espreitadela à Casa-Museu Passos Canavarro, fiquei rendida à coleção alusiva à cultura japonesa no interior e à vista que tirou o fôlego a Almeida Garrett. Uma vez assisti lá a um concerto inesquecível do André Piolanti, um bom amigo e jovem pianista que dá também aulas no Conservatório de Música.

Mas, para mim, o mais bonito de Santarém é a aldeia das Caneiras, zona piscatória junto ao rio que fica a mais ou menos 5 km, um percurso que vale muito a pena fazer a pé. Nas Caneiras as casas são tipicamente construídas em cima de estacas por causa das constantes cheias. Vais ter com o Luís Cosme, avieiro local, que te pode falar sobre esta modesta e tão autêntica forma de vida, que te leva a ver o seu barco e te ensina as marés e tipos de peixe que por aqui passam em cada época do ano. Na primavera este é um belo sítio para petiscar a enguia frita com magusto e no verão, época devota aos santos padroeiros, a mais famosa especialidade é a fataça na telha.

Caneiras
Caneiras

Escusado será dizer que tudo isto abre o apetite, por isso, parte do percurso passa também por visitar a pastelaria centenária Bijou para provares os doces tradicionais daqui, como o pampilho, o celeste ou o meu favorito — o arrepiado.

Hoje em dia, com o retorno de vários jovens que se aventuraram pelo mundo internacional da cozinha, a cidade viu nascer novos recantos gastronómicos interessantes. Deixo-te a sugestão de um moderno e um clássico: o João e a Margarida do Dois reabriram numa nova localização perto do Seminário, onde comi as melhores gyosas que alguma vez me lembro. O casal tem um curioso conceito de fusão e atitude destemida; agora, aquele que dispensa apresentação e onde todos os chefs do planalto acabam a noite a jantar é o nosso querido Caravela, genuíno e cheio de carisma, é onde o preço e a qualidade dos petiscos típicos nos transportam até à década 90, no melhor sentido possível da expressão.

E já que estamos numa de alimentação, vamos lá falar de possíveis alojamentos. Ficam aqui duas opções, uma na planície e outra no planalto, pois as duas partes da cidade têm o seu encanto. O UMU é perto da casa onde cresci e muitas vezes desci pelo agora parque de estacionamento a alta velocidade de patins em linha com as outras meninas do bairro da cooperativa. Tem um excelente acesso aos mais diversos serviços e dispõe de uma vibe minimalista. Já a Villa Graça, tem a sua graça por fazer parte do coração do centro histórico. Um espaço que há tempos encheu as memórias dos habitantes e que foi totalmente renovado, com o devido respeito às antigas arcadas adicionando um toque meio escandinavo. Recomendo vivamente ambos.

Quinta da Alorna
Quinta da Alorna

Teria muito mais para aconselhar, mas despeço-me com uma última. Aluga uma bicicleta gratuitamente em frente ao Tribunal e passeia até Almeirim, visita a Quinta da Alorna onde vais ser acompanhado por um guia que te vai mostrar a extensão da vinha, as pipas gigantes de armazenamento e explicar os antigos processos da produção de uma das marcas locais mais relevantes, que tanto contribui na economia e manutenção da identidade regional. Nas traseiras do espaço convido-te a ires andar de cavalo no centro equestre da quinta, onde há várias crianças e jovens com problemas de autismo (entre outros) que convivem com os cavalos de idade próxima à sua, por trazer uma ligação de tranquilidade interior. Cool, não é?

Espero que através destas experiências consigas captar a essência do que é o Ribatejo, a simplicidade da vida no campo e os benefícios do contacto com esta realidade em qualquer idade ou fase de vida. Não deixes de manter esse contacto agora que já o vivenciaste. Partilha e para a próxima mostra a mais alguém. Até breve!

Artigo: Da série Gap Year pelo Ribatejo

Texto & Fotografia: Andreia Prino Pires

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