E se história e arqueologia não são razões suficientes para colocar o pé na estrada, existem sabores carregados de tradição que lhe vão despertar memórias e aconchegar o estômago.

Uma viagem a Fornos de Algodres é como uma ida à casa dos avós: primeiro não nos apetece, porque lá é tudo muito antiquado e não temos acesso ao nosso “mundo” - predominantemente virtual - , depois, após descobrimos memórias dos nossos pais na adolescência, ouvirmos histórias do passado dos avós (entre boas garfadas e colheradas), sentimos que, afinal, foi bom visitarmos os avós. Ficamos com vontade de lá voltar. Sentimo-nos bem em casa deles, confortáveis, seguros e mimados.

E é assim que nos sentimos em Fornos de Algodres. Primeiro, hesitamos: onde? O que vamos lá fazer? Mas não fica no meio do nada?

 

E é só depois de “estranharmos” e começarmos a descobrir o concelho que nos apaixonamos por esta vila no sopé da Serra da Estrela com mais de cinco mil anos de história: há marcas desde a pré-história, que incluem a época da dominação de Roma e a Idade Média, que mostram que o povoamento é anterior à formação do concelho em 1836.

Fornos de Algodres fica a 43 quilómetros da Guarda e 38 de Viseu e é ponto de paragem obrigatório para quem está a explorar a Beira Alta.

No que toca a história e arqueologia, há inúmeros locais a visitar como a Anta da Matança (3 mil anos a.C.) e a de Cortiçó, ambas isoladas no meio da natureza e envoltas em silêncio; a Necrópole das Forcadas (Idade Média) e a Fraga da Pena (recinto patrimonial da Idade do Bronze), de onde se veem marcas dos incêndios na paisagem que oferece. E, por falar em vistas, vale a pena ir até ao Miradouro de Fornos de Algodres, pois possui vistas únicas para o Vale do Mondego e para a Serra da Estrela.

Formado por 16 freguesias (Algodres, Maceira, Matança, Muxagata, Cortiçô, Infias, Fornos de Algodres, Fuinhas, Queiriz, Sobral Pichorro, Vila Ruiva, Casal Vasco, Vila Soeiro do Chão, Vila Chã, Figueiró da Granja e Juncais), Fornos de Algodres conta com uma gastronomia rica e variada.

Aqui a agricultura ainda é predominante. Muito do que nos chega ao prato vem diretamente da terra ou é elaborado de forma artesanal. Em Fornos, cultiva-se o centeio, o milho, o feijão, a batata, a videira e a oliveira. Em termos de produção, o vinho e o azeite dominam. A criação de gado ovino e caprino também tem um peso importante na economia da região, tal como o queijo.

O cabrito do Abrigo das Courelas

Cabrito
créditos: Ana Oliveira

Para provar o cabrito, um prato típico deste concelho, rumamos até ao restaurante Abrigo das Courelas, onde fomos atendidos pelo senhor multifacetado Paulo Menano, que para além de ser responsável pelo restaurante, é também diretor do jornal “Notícias de Fornos de Algodres” e vice-presidente da Associação de Futebol da Guarda.

O cabrito, servido com batatas e arroz de grelos, é saboroso. Mesmo para quem não é grande apreciador, é provável que vá gostar deste. Elogiamos o cabrito e quisemos saber o segredo do tempero. Perguntámos ao senhor Paulo se podia revelar o segredo, que disse não poder dizer pois era uma receita da família. “Nunca consegui temperar como elas (mãe e avó). Utilizo os mesmos temperos, mas nunca fica igual. O delas era mesmo soberbo”, recorda, com saudade, o senhor Paulo.

E é com um brilho e paixão no olhar que Paulo Menano continua a falar do cabrito. Humilde, diz-nos que ainda podia ter ficado melhor, caso tivesse sido temperado no dia anterior. “Hoje foi temperado de manhã”, confessa.

Mas há mais pratos para provar neste restaurante que integra a Quinta das Courelas e que oferece uma vista fantástica para a serra da Estrela. Embora não tenhamos provado, o feijão à moda da Beira servido em outra mesa chamou-nos a atenção. Paulo Menano também sugere as tiras de febras, pois tem muita saída, contudo e devido ao molho (semelhante ao cocktail), parece-nos algo mais artificial, que pode ser de qualquer lugar. Para quem procura algo mais típico, não se recomenda.

Nesta terra o prato nunca fica vazio. Há sempre mais um bocado para servir e se não há mais na mesa, manda-se fazer mais. É preciso preparar bem o estômago para uma viagem destas, pois, em Fornos de Algodres, o dizer “estou satisfeito” não se leva muito a sério.

Se Paulo Menano faz acontecer - criou um jornal onde também divulga o seu restaurante - , há mais gente em Fornos a criar oportunidades.

Negócios que crescem de geração em geração

Queijaria Artesanal do Idílio
créditos: Ana Oliveira

É o caso do senhor Idílio, que ao lado da esposa, a D. Glória, ampliou o negócio que já vinha de gerações anteriores, a produção de queijo.

De quatro a cinco queijos, Idílio passou a produzir cerca de 1500 por dia. As instalações onde se encontra a Queijaria Artesanal do Idílio existem desde 2001. Antes o queijo, que utiliza os produtos da área, incluindo o leite, era produzido no andar de baixo de sua casa.

A qualidade do queijo é inegável, não fossem os prémios e o selo da região demarcada da Serra da Estrela.

E não é só o queijo nesta vila a receber prémios. Também os enchidos da dona Fernanda, à venda no Fumeiro D’Almaral, no Mercado Municipal de Fornos, receberam prémios. E vale a pena provar os enchidos, como também conversar com Fernanda, dada a sua garra e espírito empreendedor, com um cheirinho de timidez e humildade. Tendo em conta que ajudava a mãe a fazer enchidos pensou: “porque não vou fazer disto a minha profissão?”

Atualmente, Fernanda tem dois espaços e produz seis produtos: Morcela; Chouriça de carne; Farinheira, feita com pão de trigo e carne de porco, que segundo Fernanda é mais alheira (mas não pode ter esse nome); Paio de Lombo e Urtigueira.

 “Quem sou eu no meio daquela gente toda?”

Fumeiro D'Almaral
créditos: Ana Oliveira

Fernanda encontra-se neste ramo há apenas três anos, desde março de 2015 e já conquistou uma medalha de prata, em 2016, no Concurso Nacional de Enchidos, Ensacados e Presuntos Tradicionais Portugueses.

Quando decidiu concorrer pensou: "Quem sou eu no meio daquela gente toda?". E o receio fez com que levasse ao concurso apenas a chouriça de carne. “Ao menos o prejuízo seria menos. A prata soube-me a ouro”, partilha.

Não conseguiu concorrer em 2017, mas promete levar este ano os seis produtos e trazer mais prémios para Fornos de Algodres. “Nem que tenha que pedir ajuda”.

O SAPO Viagens visitou Fornos de Algodres a convite do Solar dos Cáceres

Por: Ana Oliveira