Há locais que já nos mostram isso no seu dia-a-dia, como por exemplo alguns lugares do Sudeste Asiático. Um deles é o Myanmar. Uma das experiências que mais gosto de ter aqui é o de contacto com a vida simples dos locais que moram em sítios tão remotos que nos põe a pensar como é possível lá viver. Mas é.

Um desses locais é Hsipaw, um sítio ainda nada turístico no Myanmar. Ultimamente, tornou-se ainda menos graças a um turista que decidiu ignorar os avisos e conselhos dos locais. O Myanmar pode não ser um destino muito fácil de viajar devido a muitos conflitos internos no país. E sair dos locais mais turísticos é por vezes ir a outros sítios onde esses conflitos ainda existem. É por isso que no Myanmar não se pode fazer o que se quer. O destino desse turista foi a morte. Arriscou-se a ir para locais interditos a estrangeiros depois de lhe ser dito para não lá ir. Mas como há sempre turistas irresponsáveis, decidiu ignorar as vozes de quem lá vive e sabe do que fala. Acabou por pisar uma mina quando saiu dos locais desaconselhados a turistas.

Em Hsipaw, os poucos turistas que vêm é para fazer caminhadas nas montanhas. Estas caminhadas devem sempre ser feitas com um guia local, pelo motivo acima referido e não só. Decidi fazer uma caminhada de três dias por estas montanhas com um grupo de outros turistas. Dormimos duas noites com os locais que nos recebem nas suas humildes casas com o maior dos sorrisos. Parecem muito felizes de nos ver. Apesar de não haver rede eléctrica, wi-fi ou saneamento, estas pessoas vivem aqui e não me parecem infelizes. E também passei assim duas noites e não foi nada de outro mundo.

As casas são modestas, feitas de madeira e frias. Mas são nos providenciados cobertores. A cozinha é a lenha e para cozinhar têm de fazer fogo. Ser acordado às 5h30 da manhã com o cheiro a queimado que vem dali do lado não é agradável, mas o cenário que se forma dentro de casa por causa desse mesmo feito é mágico. Uma neblina formada pelo fumo paira no ar que é atravessado por raios de sol que tornam a cozinha num sítio encantador, do qual não se quer tirar os olhos. É hipnotizante ver as formas que o fumo e o sol deixam no ar, pena que não dure mais de dois minutos.

Acordar com uma vista arrebatadora das montanhas circundantes assim que o sol nasce é muito gratificante. Quem dera a muitos de nós viver num sítio tão bonito e calmo quanto aquele. Nesta casa a decoração de parede é um poster gigante com uma casa luxuosa e um Ferrari. É o sonho deles. Ter o que lá está representado. Não os culpo por isso, mas também acho que eles são muito felizes ali e não o sabem. De qualquer modo, eles precisam dos poucos turistas que lá vão para poderem melhorar as condições de vida.

A comida é cozinhada pela senhora da família que nos acolhe em casa e é deliciosa. É o auge da interacção com o modo de vida birmanês no seu estado puro. Dormimos todos na mesma casa. A família nos quartos e nós em finos colchões na sala. É assim que funciona nas duas casas em que passamos noites.

Estas caminhadas consistem em andar por entre paisagens arrebatadoras pelas montanhas, campos, colheitas e aldeias de Hsipaw. Atravessamos várias aldeias no meio do nada, tão afastadas umas das outras… Só em algumas delas é que podemos dormir, daí nunca conseguir fazer a tal jornada por conta própria. As pessoas aqui não falam birmanês. O Myanmar está dividido em inúmeros grupos étnicos minoritários e cada um deles tem o seu dialecto, fazendo com que o país tenha imensas línguas distintas. Os nossos dias consistem em caminhar durante seis horas.

Andamos as primeiras duas horas e paramos em uma aldeia para um chá e uns biscoitos. Também podemos comprar algumas das poucas coisas que vendem e assim ajudar um pouco. Depois andamos mais duas e paramos para almoçar. E, por fim, as duas últimas horas do dia, que são sempre mais penosas, levam-nos até à aldeia onde pernoitaremos.

Como são áreas de grupos étnicos em conflito com o governo birmanês, em certos locais existem os chamados “check-points”. Não são mais do que pontos de controlo com soldados que analisam quem anda pela área. Um estrangeiro sozinho não poderia avançar, até porque, como é óbvio, eles não falam inglês.

Em um dos dias tivemos a andar duas horas debaixo de chuva. Não foi fácil porque quanto mais chuvia mais o terreno fica escorregadio e perigoso. A certa altura também conseguimos ver a preocupação do nosso guia com as condições em que estávamos a andar no meio da floresta. Havia partes onde não dava mais para caminhar. Só podíamos simplesmente deslizar colina abaixo. Foi stressante, mas correu tudo bem e no fim do dia ainda deu para rir da situação.

Ao longo destes três dias de caminhadas passamos por tão variados tipos de paisagem. Só pelas paisagens já vale a caminhada, mas este contacto com a cultura local também é um dos pontos altos. Estas pessoas dão-nos lições de vida que penso que só condições semelhantes podem dar. Apercebemo-nos de que a simplicidade é boa e que precisamos de bem menos do que achamos para ser felizes. O contacto com a natureza, muitas vezes em estado quase intocado, é tão maravilhoso. E também nos dá lições.

Um contacto mais próximo da natureza e uma percepção de que precisamos dela para a nossa sustentabilidade são cruciais para o futuro. Espero que esta pandemia faça as pessoas se aperceberem disso. E este contacto com estes povos tão diferentes de nós também nos ensina o mesmo.

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