Esta é a viagem de comboio mais conhecida pelos turistas. A razão é o viaduto de Goteik, uma ponte que se ergue majestosamente entre as montanhas e que faz as delícias de quem vai a bordo.

 Apesar de haver muitas linhas de comboio no Myanmar, este não é o meio de transporte mais utilizado por quem visita o país. São lentos e penso que seja essa a maior razão por não serem opção para muitos.

No entanto, são uma experiência única no Myanmar pela sua particularidade e pela sua lentidão também. Note-se que já fiz uma viagem de comboio de cerca de 170 km que durou umas 8 horas a completar. Sim, e fazendo as contas dá uma média de 21 km/h. O comboio que passa pelo viaduto Goteik levou 6h para fazer 140 km de distância, um pouco mais rápido, portanto, mas a velocidade do comboio é o que menos interessa. As paisagens lá fora são esplendorosas e a experiência é única com um contacto muito real e direto com o modo de vida local.

A minha viagem começa em Hsipaw e acaba em Pyin Oo Lwin. Os comboios no Myanmar são extremamente baratos e compro um lugar na primeira classe, que tem uns bancos bem confortáveis e espaçosos. Na estação, tenho de aguardar para que chegue um senhor responsável para me vender o bilhete. Há um caderno grande onde tudo é registado à mão e por isso é um processo um pouco moroso, até porque o funcionário não tem pingo de stress que se faça ver. O comboio deve chegar a Hsipaw por cerca das 9.30h da manhã, mas só chega perto das 10h já com meia hora de atraso, nada de novo...

Instalo-me confortavelmente no meu assento do lado direito do comboio, é o que tem a melhor vista ao aproximar do Viaduto Goteik. O comboio não tem janelas fechadas o que faz com que as primeiras horas de jornada sejam frias, mas não tarda a aquecer bastante. Apenas mais seis turistas fazem a viagem comigo.

Ao longo do percurso, os birmaneses entram e saem do comboio. Nunca falta comida. Vendedores ambulantes andam pelos corredores bambaleantes, anunciando o que têm para vender. Há sempre esta azáfama de pessoas para trás e para a frente com cestas à cabeça. Muitas vezes não faço ideia do que vendem mas compro e experimento. Também não sabem explicar porque não falam inglês portanto a compra é um tiro no escuro, se gostar como, se não, vai borda fora, mas acabo sempre por gostar das iguarias, não sou picuinhas quanto à comida.

A viagem é divertida. O comboio balança tanto que as nossas malas têm de ir presas, caso contrário estamos sujeitos a levar com elas, como me aconteceu porque um novato nestas andanças de comboio não sabia o que estava para vir. Por vezes, o comboio abana tanto que mal dá para estar em pé, quanto mais andar. Ir à casa de banho também é um desafio e peras.

Lá fora acompanham-nos vários tipos de paisagem: campos, pessoas a trabalhar nas colheitas, vilas, montanhas e várias cores conforme a paisagem vai mudando. As vistas dos comboios no Myanmar valem muito a pena. Não me posso é entusiasmar e colocar a cabeça fora da janela por muito tempo porque estas vias não têm manutenção e levar com troncos na cara é um perigo bem real.

Estamos a chegar ao ponto alto da viagem: a travessia da ponte que outrora serviu na expansão do império Britânico no país. Esta ponte foi outrora a maior do seu género no mundo, revelando as maravilhas da engenharia perto dos anos de 1900. Continua a ser a ponte mais alta do Myanmar e poderei dizer que a mais icónica, fazendo desta travessia uma das mais bonitas viagens de comboio do Sudeste Asiático. O lugar remoto e de difícil acesso onde se encontra merece respeito e a torna uma visão estranha e inesperada. Foram precisos cavar túneis nas montanhas imediatamente anteriores à sua travessia, para que o comboio passasse. A ponte liga assim as falésias calcárias de um dos lados do rio à cidade mais próxima do outro lado da margem.

O comboio abranda e para antes de proceder à sua travessia que é feita de forma muito lenta, mas até poderia ser mais lenta para apreciar ainda melhor o momento. Nota-se a euforia dos passageiros, tanto estrangeiros como locais. A ponte é mesmo muito alta e a vista para as falésias calcárias alaranjadas que vão ficando para trás é deslumbrante. É um cenário arrebatador.

Depois de passar a ponte, o caminho de ferro continua por longos minutos onde a ponte ainda consegue ser vista de longe. Como é um cenário bonito!

Não falta muito mais até ao meu ponto de saída, Pyin Oo Lwin, e esta viagem de comboio não desiludiu. É, sem dúvida, uma viagem que junta o melhor de dois mundos: a paisagem deslumbrante e os sorrisos dos locais que revelam a sua autenticidade.

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