Num passado recente, Marselha gozava de uma reputação que afugentava visitantes mais cautelosos, demovidos pela sujidade e decadência da zona portuária, a insegurança e o bulício das suas ruas.

Hoje, junto ao celebrado Vieux Port (Porto Velho), pejado de embarcações acostadas e ladeado por filas de habitantes e turistas que passeiam nas suas margens, gozando do magnífico enquadramento à beira do Mediterrâneo, ficamos subjugados ao seu encanto.

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Vista do sempre movimentado Vieux Port créditos: Who Trips

É uma cidade soalheira e um dos programas favoritos é percorrer a pé a “marginal” entre o Porto Velho e a Catedral. O percurso convida a descobrir ruas no interior da encosta, caminhos sinuosos com várias igrejas e monumentos.

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Os de Marselha brincam que é a “mais pequena travessia marítima do Mundo”, apenas 283 metros a distância entre as duas margens do Porto Velho créditos: Who Trips

Na baía que forma o Porto Velho outra experiência interessante é fazer a travessia num ferry boat que é igualmente muito utilizado pelos locais. Serve para “cortar caminho” e oferece novas perspetivas da cidade, essencialmente para quem gosta de fotografia. Há barco a cada 10 minutos e tem o preço quase simbólico de 0.50€. Durante o dia passeia-se de forma descontraída sem receio da insegurança de outros tempos.

Tudo começou nos anos 90, com o início do programa estratégico Euromediterrâneo para a região metropolitana de Aix-Marselha-Provença que veio mudar a face da região e, em 2013, quando Marselha foi Capital Europeia da Cultura, muitos (re)descobriram uma cidade renovada e pujante na sua diversidade.

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O porto é o coração de Marselha créditos: Who Trips

É a mais antiga cidade de França, fundada pelos gregos seis séculos antes de Cristo, a segunda maior cidade francesa e a terceira maior região metropolitana do país. Marselha acolhe ainda o maior porto comercial francês e é uma importante cidade portuária desde a sua fundação, que hoje se orgulha do passado e desenha o futuro. E podemos perceber muito dessa dualidade no Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo (MuCEM), inaugurado em 2013.

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Rendilhado exterior do MuCEM, que simboliza as redes de pescadores, e a Catedral de Marselha em fundo créditos: Who Trips

Urbe multicultural

Com uma população que engloba uma grande número de imigrantes europeus e do norte de África, Marselha mantém hoje o cosmopolitismo que atravessa a sua história. O arrojado edifício do MuCEM - da autoria dos arquitetos Rudy Ricciotti, de origem argelina, e Roland Carta - alberga um vasto acervo antropológico, arqueológico, histórico e artístico, incluindo imagem e som, tem patente uma exposição permanente e exposições temporárias, e emerge como um dinâmico testemunho dessa herança cultural em permanente evolução.

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Uma ponte que liga séculos de história créditos: Who Trips

Na ponte pedonal que liga o MuCEM ao emblemático Forte de São João (Fort Saint-Jean), datado do século XIII, adivinhamos também uma ponte simbólica entre passado, presente e futuro.

A arquitetura e a dimensão do museu surpreende os visitantes. É frequente ver gente parada no meio da rua a observar os pormenores das paredes metálicas que representam redes de pescadores ou para as superfícies espelhadas que refletem os cursos de água. Para a visita ao museu, pela variedade e riqueza das coleções em exposição, recomenda-se que se reserve, pelo menos, uma manhã ou uma tarde.

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A imponente Basílica Notre Dame de la Garde protege a cidade créditos: Who Trips

Contraponto em altitude e rivalizando com o Vieux Port na atração de visitantes, a Basílica Notre Dame de la Garde, Bonne Mère de Marseille, ergue-se no ponto mais alto de Marselha, na colina de La Garde, e vela pela cidade. Ex-libris magnífico e também o monumento mais visitado, a construção de estilo neo-românico-bizantino foi erguida no local de uma antiga capela do séc. XIII: um santuário dedicado à Virgem que no séc. XVI viria a ser incorporado num forte ali construído para defesa da cidade.

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Interior da basílica em estilo românico-bizantino créditos: Who Trips

No final do séc. XIX, depois de ter sofrido alterações e acrescentos, a capela foi derrubada para dar lugar ao atual santuário. Porém, só no século passado o forte perde a sua utilidade militar e é então demolido, passando o santuário para a alçada exclusiva da Igreja.

Do monumento, tem-se uma deslumbrante vista de 360 graus sobre a cidade, sob o olhar protetor da Bonne Mère segurando Cristo, uma estátua de 11,2 m de altura folheada a ouro.

A vista é impressionante e ficamos com a sensação de que os visitantes ficam muito mais tempo no exterior a contemplar a metrópole de Marselha do que a apreciar os pormenores do interior da Basílica.

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Vista a partir da Basílica e local privilegiado para fotografias do pôr do sol créditos: Who Trips

Há vários autocarros turísticos para a Basílica e também um mini-comboio que parte do Porto Velho. Outra possibilidade é o autocarro de transporte público nº 60 que passa junto ao Porto Velho. Vai ter a companhia de habitantes dos vários bairros e descobrir um sem-fim de ruas das áreas residenciais na longa e íngreme subida.

Passeando na cidade

A descoberta de Marselha inclui quase sempre um passeio por La Canabière, avenida que liga o Vieux Port à Église des Réformés, e onde podemos apreciar algumas das mais belas construções que pontuam a história local, como a ópera e imponentes hotéis.

No incontornável Vieux Port, outrora protegido pelos Fortes Saint-Jean e Saint Nicolas que se erguem nas duas margens, não faltam espaços de restauração e bares num ambiente descontraído.

Da gastronomia local faz parte a célebre bouillabaisse, uma sopa rica de peixe e marisco, em tempos preparada pelos pescadores de Marselha com as sobras do que não conseguiam vender. Hoje existem várias versões da sopa, mais ou menos autênticas.

Também a zona portuária do Quai de La Joliette ultrapassou a decadência e o abandono e revela-se uma das áreas mais animadas da cidade com os velhos armazéns das docas transformados em lojas, um concorrido mercado e o centro comercial Les Terraces du Port, que possui um terraço com vista para a costa.

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Uma cidade luminosa créditos: Who Trips

No mais antigo bairro da cidade, o íngreme Le Panier, pode encontrar por entre as ruelas, cafés e restaurantes, comércio variado e lojas de produtos artesanais. Escadarias, estendais e arte urbana nas paredes fazem lembrar os bairros lisboetas de Alfama e Mouraria. No centro do bairro, La Vieille-Charitè, um imponente conjunto arquitetónico do séc. XVII, com museus.

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Orange Vélodrome, estádio do Olympique de Marseille créditos: Who Trips

Na vertente arquitetónica, destaque ainda para o Hôtel de Ville, monumento histórico que hoje abriga o gabinete do presidente da Câmara, e para La Cité Radieuse (A Cidade Radiosa), um complexo de apartamentos de um ícone da arquitetura mundial, Le Corbusier, concluído em 1952, inclui diversos serviços e equipamentos, entre os quais um hotel, um conceituado restaurante e um terraço panorâmico aberto ao público. Classificado como monumento histórico em 1995 e Património Mundial da UNESCO desde 2016, pode ser visitado mediante reserva no Turismo de Marselha.

Um roteiro amplo merece ainda a inclusão do vibrante pólo cultural Friche Belle de Mai, outro projeto que beneficiou do boom de 2013.

Marselha do mar

Experiência imperdível para uma outra perspetiva da cidade é dar um passeio de barco até ao arquipélago de Frioul, com partidas regulares do Vieux Port. O destaque do programa (Château d’If e îles du Frioul) é o castelo da ilha de If.

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Château d’If, a célebre prisão de “O Conde de Monte Cristo” créditos: Who Trips

Fortaleza e prisão no Mediterrâneo, o Château d’If ficou celebrizado no clássico de Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo”. Concebida no séc. XVI, a fortaleza tornou-se prisão pela sua condição geográfica e só em finais de séc. XIX abandonaria essa função e abriu portas ao público.

As Ilhas de Frioul inserem-se nos Calanques de Marseille (região costeira com falhas profundas esculpidas na rocha calcária e infiltradas pelo mar, que se assemelham a fiordes), área protegida por um parque nacional que abrange mar, terra e zonas urbanas, com flora e fauna endémicas e muito para conhecer e desfrutar.

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Um passeio de barco oferece uma vista única da ilha d’If e da Basílica créditos: Who Trips

A TAP voa diariamente para Marselha a partir de Lisboa.

Texto: Who Trips

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