Não sei em que escola os marroquinos aprendem idiomas, mas tem de ser numa de excelência. Provavelmente, na melhor de todas: a de rua. São centenas os que deambulam pela medina de Fez oferecendo os seus serviços como guias; atiram palavras soltas em inglês, francês, espanhol, português, italiano, russo e chinês. Hola, amigo. Hello, my friend!

Convencido de que tinha arranjado um método infalível para os repelir, respondia-lhes que era ucraniano; mas até nessa língua um garoto de 11 anos me respondeu, com os seus olhos mouros bem abertos e vivaços, espertos, ávidos por uma moeda que lhes salvassem a manhã. Tarik era diferente dos outros. Tinha uma abordagem mais doce e educada, mostrava curiosidade. Rapidamente lhe confessei que não percebia patavina do que ele me dizia em russo ou ucraniano e que me podia falar em espanhol. Após respirar de alívio, contou-me que o pai adoecera e que mostrava a cidade aos turistas para ajudar a mãe, vendedora de legumes no mercado. Tarik convencera-me a ignorar as recomendações do Lonely Planet e a quebrar a promessa que fizera a mim mesmo em Tânger de não ir na cantiga dos guias informais. Parecia bom miúdo. Porque não confiar no instinto?

“Ok, pago-te 100 dirhams (aprox. 10 euros) se me mostrares o melhor da medina”, disse-lhe.

Fez
créditos: iStock

O rapaz sabia bem por onde me levar e após dobrar a primeira esquina, cauteloso para não pisar os objectos em cobre espalhados no chão diante das oficinas, congratulei-me pela minha decisão; gosto imenso de me perder por uma cidade nova mas ia levar séculos a encontrar o que queria naquele labirinto. O casco velho de Fez não é só uma infinita encruzilhada de ruelas, é também uma espiral do tempo. Duas ou três ruas e o imaginário irrompe pelo século XVIII. Burros vergados pelo peso dos alforjes forçam passagem em vielas congestionadas ao compasso da chibata, vendedores de carpetes entoam pregões melódicos, anciães de djelabas cremes lançam miradas inescrutáveis. As pequenas lojas estão embutidas em paredes que parecem ter sido esculpidas em barro. A maior medina medieval do mundo tem mais de 9 mil ruas, vielas e becos, pejadas de mercados, palacetes, mesquitas e madrassas. Uma cidade imperial fundada em 807 por Idriss II e que nunca perdeu o rótulo de capital intelectual e cultural de Marrocos – morada dos mais notáveis professores, escritores e imãs marroquinos.

Orgulhoso desse legado, o pequeno Tarik faz a sua primeira paragem na Universidade de Al-Quaraouiyine, a pioneira do mundo, fundada no século IX, quando Fez era uma bastião xiita formado por ricos imigrantes oriundos de Kerouan, actualmente na Tunísia. “Foi criada por uma mulher. As mulheres de Fez são as mais inteligentes do mundo”, diz Tarik, sorridente. A biblioteca, parte do complexo da velha madrassa, também ela inscrita no livro do Guiness como a mais antiga em actividade, conta com um espólio de mais de 4 mil manuscritos de invulgar raridade, como um Corão do século IX, ensaios do filósofo Averróis, livros de astronomia de Al-Farabi que já desenhava Júpiter no século XII ou o “Livro das Lições”, a obra-prima do historiador e filósofo Ibn Khaldun. Infelizmente, a entrada na universidade e na biblioteca, ambas de orientação religiosa, está interdita a não-muçulmanos. Apenas os espaços exteriores são acessíveis aos turistas. E valem a pena – se não pelo chão de pequenos mosaicos e pelas requintadas fontes, pelo menos para fugir uns instantes à azáfama da medina.

Fez
créditos: Tiago Carrasco

Tarik voltou a arrastar-me para o turbilhão humano para me levar aos famosos curtumes de Fez, o lugar onde se trabalham as peles para as mais diferentes utilizações. O local é identificável pelo cheiro – uma mistura de estrume com carne putrefacta. “Toma, coloca esta folha de hortelá debaixo do nariz”, diz Tarik. O rapaz sabia o que fazia: tudo passou a cheirar a menta. O processo de curtir couros em Fez tem séculos de existência e preservou toda a sua essência artesanal; o local parece uma imensa paleta de aquerela, com vários buracos cavados nas pedras onde é dado o tratamento líquido às peles. Depois do primeiro passo, passam os couros para os tanques das cores, onde ficam de molho cerca de quatro dias. “É daqui que sai o couro usado nas nossas roupas, malas e sapatos. É o melhor que podes encontrar”, diz o meu pequeno guia.

Curtumes de Fez
créditos: istock

A medina é um museu ao ar livre. É Património da Humanidade e tem mais de 10 mil edifícios históricos; entusiasmado, Tarik levou-me até alguns deles, como o Bab Boujeloud, conhecido como porta azul, a principal entrada para o centro adornada com pequenos azulejos azuis, ou a madrassa Bou Inania, uma ilustre escola islâmica que é o único edifício de vocação religiosa acessível a não-muçulmanos. O seu interior está apetrechado com madeira de cedro, estuques esculpidos e decoração de mármore e ónix. Não faltaram ainda passagens pelo Palácio Real e pelo Mellah, o bairro judeu. Alarmado pelo desgaste do património de Fez, o governo marroquino avançou em 1989 para um ambicioso plano de restauração da sua capital cultural, que até hoje renovou impecavelmente quase 4 mil edifícios e 27 monumentos-chave. A operação de cosmética tornou Fez ainda mais bonita e mais segura. Mais: alguns designers estão a dar novas linhas ao artesanato clássico e cozinheiros encartados aproveitam os produtos frescos do mercado para dar um toque inovador aos pratos tradicionais.

Antes de me despedir de Tarik, o rapaz fez questão de me levar às compras – provavelmente às lojas de alguns dos seus familiares e amigos. Cada zona da medina destina-se a um diferente ramo de negócio: na Praça Seffarine estão os latoeiros com as suas chaleiras e pratos de cobre, os tapetes estão no souk Tilles, os ebanistas preenchem o bairro Nejjarine com os seus móveis e poltronas e ainda há a zona da carne pendurada a céu aberto, do peixe e das mil e uma especiarias. Os preços são bastante módicos e tive de fazer um esforço para não sair da medina com um dos carrinhos de mão que invadem as suas vias carregado de compras.

Fez
créditos: Tiago Carrasco

A zona nova de Fez tem prédios contemporâneos, avenidas largas e dezenas de grandes esplanadas. Honestamente, tirando um par de bares, não impressiona. É difícil viver Fez fora da sua carapaça histórica. E aí está um café centenário que é uma instituição, o Café Clock: conta com uma biblioteca, vários terraços, pátios, instalações artísticas e até um cinema. Mais do que um café, é um ponto de encontro da comunidade intelectual e um local de troca de livros, música, ideias e conversas. Também dizem servir o melhor hambúrguer de camelo de todo o país. Não provei. Eu e os camelos temos uma relação difícil e achei que comer um deles não iria melhorar as coisas. No Clock há mais para fazer: uma oficina para treinar a aprimorada caligrafia árabe e aulas de alaúde. Também têm uma escola de cozinha onde ensinam os interessados a preparar três pratos tradicionais depois de comprarem os ingredientes no mercado. No Ruined Garden, outro café/centro cultural que vale a pena visitar, ensinam a confecção de cinco tipos de pão, incluíndo o típico baghir, o pão dos “mil buracos”.

A gastronomia Fassi, específica de Fez, mistura a identidade árabe, andaluza, turca e francesa; uma mescla deliciosa. Predominam os frutos secos, legumes, especiarias, o borrego e condimentos como a canela, o pimentão-doce e os cominhos. Atraídos pela riqueza dos ingredientes, muitos chefs marroquinos que se formaram na diáspora regressam às origens com projectos ambiciosos. É o caso de Najat Kaanache, que passou pelo famoso El Bulli, em Espanha, e abriu recentemente num antigo riad – uma casa marroquina construída em redor de um pátio interior – o seu NUR, que acrescenta inovação a pratos da cidade, por exemplo, um pouco de guacamole mexicano num típico tajine de frango. Para coisas mais simples, como o autêntico tajine ou o folhado de pombo, o Ruined Garden é uma excelente opção. Uma boa altura para uma visita é no final de Junho, quando Fez recebe o Festival de Música Sagrada do Mundo, com destaque para os concertos grátis e as noites de inspiração sufi – a corrente mística do Islão – nos Jardins Jnan Sbil.

Fez
créditos: iStock

O coração de Fez é anterior a este mundo mas não envelhece, não pára de bater, e há-de sobreviver à passagem deste e de muitos mundos sem perder a sua identidade.

Experimente a cidade eterna de Fez. Se sair de Lisboa saiba que tem cinco voos diários diretos.

Texto: Tiago Carrasco

Dublin desde 49€