Sempre que tento perceber onde apanhei o vírus que me tornou viciado em viagens, Marraquexe surge à cabeça das suspeitas. Naquele instante, talvez, em que dobrei a última curva do bazar labiríntico, ainda fascinado com as tonalidades berrantes das especiarias, e as minhas pupilas se dilataram com as centenas de luzes brancas da Praça Jemaa el-Fna, a maior de todo o continente africano.

O seu nome significa Assembleia dos Mortos porque era ali que se executavam os criminosos, mas hoje é um lugar que fervilha de vida, um vasto espaço retangular cercado por cafés com terraços panorâmicos, lojas de artesanato e pequenos hotéis. A sua virtude, porém, está no meio; lá encontram-se encantadores de serpentes, saltimbancos, mágicos, aguadeiros e bailarinos, intercalados por carrinhos que vendem o melhor sumo de laranja do mundo e barraquinhas que emanam cheiro a carne grelhada. Toda esta animação é vigiada pelo minarete da mesquita Koutoubia, 70 metros de altura alicerçados em mais 800 anos de história. Segundo a lenda, só os muezzins (no Islão, quem chama os crentes para as orações) cegos podiam lá subir, pois dizia-se que a torre tinha vista para um harém.

Mesquita Koutoubia
Mesquita Koutoubia créditos: iStock

A noite estava amena e descontraída. Pedi cuscuz de vegetais, espetadas mistas e kefta - uma espécie de almôndegas - com arroz. Não precisava de companhia nem de um televisor ligado, pois a praça oferecia-me todo o entretenimento desejável: macacos cansados a fazer palhaçadas para os visitantes, videntes a ler palmas das mãos, cobras a ignorar flautas e pugilistas de ocasião a oferecerem-se para enfrentar qualquer adversário. Na grande praça de Marraquexe cabe o mundo inteiro. E nasce uma vontade insaciável de procurar o desconhecido e o bizarro.

A ocidente da cidade velha, o Amal oferece workshops de cozinha marroquina para todos os que se deliciaram com os pratos da praça. As receitas revertem a favor de mulheres árabes vítimas de abusos. Os turistas aprendem a confecionar tajine e outros pratos tradicionais enquanto ouvem histórias e lendas sobre o país.

Para descontrair do constante frenesim da almedina, nada como uma visita ao Jardim Majorelle, fundado em 1931 pelo pintor francês Jacques Majorelle, que durante 40 anos concentrou a sua paixão no desenvolvimento deste lugar mágico. É um jardim tropical com mais de 3000 espécies botânicas trazidas pelo artista das suas viagens aos quatro cantos do mundo, decorado com riachos, fontes e jatos de água e com muros pintados de um azul intenso e claro - azul Majorelle -, criação do próprio pintor. Em 1980, a propriedade, de um hectare, foi comprada pelo estilista Yves Saint Laurent, que também tinha casa em Marraquexe. No ano passado, com as receitas provenientes dos 700 mil ingressos anuais no Jardim, abriu ao público o Museu Yves Saint-Laurent, onde pode ser admirado parte do acervo do mestre da moda.

Jardim Majorelle
Jardim Majorelle créditos: iStock

Fora das muralhas, Marraquexe transforma-se numa cidade moderna com uma forte corrente artística. É no bairro de Gueliz que tudo acontece. No n.º61 da Rue de Yougoslavie um antigo edifício de escritórios deu lugar a um templo da arte contemporânea, com estúdios e galerias de novos criadores marroquinos a florescer em redor da Galerie Matisse e do novíssimo MACMA (Museu de Arte e de Cultura de Marraquexe) que conta com obras de génios que se apaixonaram pela cidade, como Henri Le Riche, Michel Delacroix ou Raoul Dufy.

“Com a abertura de novos museus e galerias, Marraquexe tornou-se o principal centro cultural do norte de África, atraindo artistas africanos e europeus ao seu encanto e cosmopolismo”, afirma Touria El Glaoui, directora da 1:54 Contemporany African Fair, o maior certame de arte contemporânea dedicado a África, que organizou em Marraquexe a sua primeira edição em solo africano, depois de passar por Londres e Nova Iorque. O evento decorreu no La Mamounia, o luxuoso hotel que Winston Churchill definiu como “o lugar mais belo do mundo”.

A oferta cultural de Marraquexe, conhecida como “cidade vermelha” ou “pérola do Sul”, estende-se ao grande ecrã. De 30 de novembro a 8 de dezembro, a cidade recebe a 17.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Marraquexe, com projeções de alguns dos melhores filmes internacionais em locais únicos como o Palácio de Congressos, o Cinema le Colisée e mesmo na Praça Jemaa el-Fna. Os realizadores Martin Scorcese e Guillermo del Toro e o ator Robert de Niro vão estar presentes.

Marraquexe
créditos: iStock

Quando a noite chega nesta cidade que transformou o deserto em palmeiral, os ritmos de inspiração orientalista ecoam da Comptoir Darna, um estabelecimento que desde 1999 impera na noite marroquina. Meio oriental, meio ocidental, restaurante que se transforma em discoteca, casa de bailarinas do ventre e dos melhores DJ, esta fénix notívaga aproxima Marrocos às discotecas de Ibiza e aos cabarets de Paris.

Pela manhã, tomates, ovos cozidos, azeitonas, sumo de laranja e chá de menta tomam conta dos nossos sentidos. O sol vai aquecendo e ruborizando a cidade, os seus intérpretes vão ocupando os seus lugares; o vendedor regateia o preço de um tapete, os burros disputam as estradas com os carros, os crentes rumam à mesquita para a oração. O estrangeiro sabe que também vai participar nesta saga. No fim de contas, em Marraquexe ninguém fica de fora.

Aproveite para visitar a cidade e viaje com a TAP que tem 12 voos semanais diretos de Lisboa para a capital de Marrocos.

Texto: Tiago Carrasco

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