Chove. Chove muito. E o tempo corre, com gotas grossas e fortes que escorrem pelas horas, como pelo vidro do  thùc coffee, onde nos abrigámos: – Dois cafés pretos, sem açúcar, por favor. Que há uma birra para acalmar em amor, na esperança de a ver dar lugar à sesta; muitas notas por escrever e o próximo destino a preparar e, como diz a tela, you can sleep when you’re dead.

Uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Os ouvidos dividem-se entre o som: da trovoada que quase nos abana; dos pneus na estrada molhada; da porta que abre e fecha; das conversas à volta, todos os sons param quando ouço, na mesa ao lado:
– Os vietnamitas gostam de vinho forte, café forte e mulheres fortes.

Dos cafés já aqui vos falamos, o vinho está por descobrir, quanto às mulheres, não pude deixar de o ouvir embrulhado num tom machista (que incomoda), mas retiro daqui o elogio à mulher vietnamita, que aliás já vinha construindo desde Hanói e das varas que sustentam nas costas com as cestas carregadas. Mais tarde reforcei a imagem, em Sapa, onde vi os filhos sempre transportados nas costas, nos seus slings coloridos e carregados de vida – pelas cores, pela criança que guardam e acolhem, durante as caminhadas de horas pelos arrozais. E ainda as mulheres nos barcos puxados a um só remo, no rio Thu bon, em Hôi An.

Entre o mercado e o museu: uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Não, não são mulheres de porte forte, como conheço nas mulheres do nosso norte, são mulheres fortes em corpos esguios, cobertos de roupa para se protegerem do sol. Não é uma força que se veja de fora, não é feita de braços ou pernas fortes, é uma força que vem bem de dentro, da luta pela sobrevivência, pela família, pelos filhos. É o músculo da necessidade que tem de crescer, que rompe e se refaz nestas mulheres, todos os dias.

Nasce um novo dia e a chuva dá lugar ao sol, na nossa rua há gaiolas que prendem lâmpadas dentro delas; enquanto, mais acima, os pássaros abrem asas: livres; enquanto, mais abaixo, nós nos passeamos pela calçada: livres. Precisamos de ir às compras, no mercado de rua legumes e fruta, enchem os sacos e a curiosidade da Mia, são: chuchus, pimentos, beringelas, malaguetas, gengibre, durian...

Uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Continuam, como por todo o resto do país, as motorizadas como principal meio de transporte (e de descanso). E enquanto uns descansam no recosto da mota, os meninos e meninas da escola vêm para a rua e jogam badminton no passeio. Mais à frente já não é badminton e já não trazem os uniformes escolares, porém continua o movimento em torno de uma espécie de volante ou peteca, que têm de manter no ar, podendo tocar-lhe com todas as partes do corpo menos com as mãos. Jiànzi é o nome deste jogo tradicional oriental, assumindo no Vietname lugar como desporto nacional – đá cầu. Mesmo ali à frente, há uma roda de miúdos que se desforram em habilidades para manterem a peteca no ar, ele quis juntar-se a eles: pensou que era mais fácil, passou mais tempo no chão, a fazer flexões (era o que acontecia a quem deixava cair a peteca) e eu e a Mia rimos (muito), queríamos disfarçar mas rimos ainda mais quando ele nos chegou, sem fôlego; foi de cabeça a pingar, de t-shirt molhada, que nos sorriu de volta.

Visitámos o mercado Ben Thành, o maior mercado da cidade e que serve como ponto de referência para não nos perdemos. Vemos três mulheres que escolhem as especiarias, os frutos secos, embrulhadas nos seus lenços: caju, pistachio, jack fruit frito, só lhes vemos as cabeças que balançam para lá e para cá, entre palavras que nos são estranhas.

Uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

E em simultâneo ouvimos, na sua voz familiar e doce: – A Mia quer um gato. Deixámos as mulheres e a dois abanamos a cabeça, combinamos assim um sim ao pedido. Ela andava a namorar os gatos há dois países, há quase dois meses, um Maneki Neko (gato que convida, gato da boa sorte, gato do dinheiro), um daqueles gatos que fazem as montras de qualquer estabelecimento chinês em Portugal, com uma pata levantada que se mexe, como se nos convidasse a entrar.

Uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Trouxemos o gato, não sem antes negociar o seu preço, querem saber como se negoceia aqui? Não há grande uso da palavra, que as línguas maternas são diferentes e o inglês raramente serve de mediador. Negoceia-se de calculadora na mão, ela vai saltando de mão em mão, entre vendedora e cliente; está agora comigo, coloco o preço que estou disposta a pagar, depois de recusar o preço que, na mesma calculadora, me foi apresentado. Acreditem, têm de recusar e regatear, ou poderão pagar dez vezes mais do que o valor real da coisa.

Entre o mercado e o museu: uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

No dia seguinte, estávamos – nós e o gato – face a face com a estátua de Ho Chi Minh. Enquanto fazem fila para lhe copiarem os gestos, em corpos inertes que se colocam ao lado da estátua, nós sentámos-nos na escadas, onde ela pede uma foto de família.

Estamos prontos para o almoço, no Nhà Hàng ngon, na rua Pasteur, nº 160, contornamos o poste entre os seus ‘peekaboo’. Trocámos cócegas para nos distrair da fome, até lá chegarmos.

Entre o mercado e o museu: uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

De tarde aguardávamos o sono da Mia no sling, encostada a um de nós, para uma visita importante: era dia do Museu da Guerra – War Remnants Museum -, pensámos que não podíamos passar por aqui sem esta visita, pensámos que era incontornável. E lá fomos. E foi nos primeiros minutos lá dentro que percebemos que não tínhamos feito uma boa opção, percebemos que teríamos de contornar, passar à frente, não ficar. Não com ela (e julgo que mesmo sem, não é o nosso tipo de turismo, serviu para o confirmar). Não temos nenhuma imagem nossa ou da Mia neste museu para vos mostrar, não conseguimos associar a imagem dela a nada do que aqui vimos e lemos. A nada do que aqui se conta e sabe. Para ela eram apenas aviões, foi isso que ela viu: – olha mamã, olha papá, aviões. Mas nós sabemos a história e, por isso, continuamos a não entender como há quem se coloque ao lado, ou a simular a entrada para estes helicópteros e tanques, em poses gloriosas, quando é de morte que eles nos falam.

Entre o mercado e o museu: uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Temos uma boa notícia para os pais, já dentro do edifício, enquanto contornávamos a prisão, os tanques, as armas e munições, descobrimos a sala de crianças, que usámos como solução. Enquanto eu e a Mia demos voz ao cão, à vaca e ao porco de peluche; enquanto saltámos num tapete colorido e jogámos à bola, com uma bola de pano onde contávamos 10 cores. Nesse tempo o nosso fotógrafo mais querido visitou a exposição de fotografia que vive permanentemente na porta em frente, naquele mesmo primeiro piso, a Requiem Exhibition.

A exposição foi compilada pelo legendário fotógrafo de guerra Tim Page e as fotografias são da autoria de vários fotógrafos de guerra, sendo que alguns deixaram a vida no momento em que tiraram a última fotografia. A fotógrafa Georgette Louise Meyer, uma das primeiras fotógrafas de guerra, sob o pseudónimo masculino Dickey Chapelle, foi uma das que pereceu em território de batalha a tentar contar a verdade da guerra. São mais de 250 fotografias que contam, em imagens, o modo como soldados e civis, de ambos os lados do conflito, foram afectados por aquele que é considerado um dos eventos mais atrozes da história da humanidade. Grande é a admiração pelos fotojornalistas que cobrem conflitos militares e, aqui, os incríveis trabalhos de Ishikawa Bunyo, Larry Burrows ou Robert Capa (as exposições do último rolo fotografado está exposto na íntegra) contam um sofrimento indescritível por palavras.

Acabada a volta pela exposição, ele voltou. Com ele trazia um silêncio que gritava o agente laranja, que grita essa guerra química, como se o veneno lhe tivesse sido derramado pela voz, pela garganta abaixo, a cada nova foto exposta naqueles corredores. Eu não gosto deste silêncio, deixei o tempo e a minha compreensão ganharem à minha vontade de o fazer deitar tudo cá para fora. E depois ele falou, e eu ouvia – pela sua voz – tudo o que já sabia, tudo o que todos sabemos mas fazemos o maior dos esforços para não lembrar, na esperança que isso nos ajude a pensar que não aconteceu. Depois disto nem sequer ponderamos a visita aos túneis Củ Chi , usados durante a guerra.

Os dias trazem de novo a chuva. Forte. Não parece incomodá-los, num cantinho onde nos abrigamos vemos o mesmo movimento repetir-se diante de nós. Sinal vermelho, toca a saírem capas impermeáveis de todas as motas, os condutores vestem-nas para se protegerem e as motas continuam a circular, o curso do dia segue, igual. Enquanto isso, nós enchemos esse tempo, que dura a chuva, em colheres de gelado de chá verde e de café. O gato assiste e consente, com o seu acenar.

Entre o mercado e o museu: uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Disseram-nos: Ho Chi Minh é semelhante a Hanói, mas mentiram-nos até agora nenhuma cidade repete Hanói (como já aqui vos confessei) de tão peculiar que é. Disseram-nos: em Ho Chi Minh vão encontrar um bocadinho da Europa, e sim, lá está a arquitectura colonial francesa, lá está no Palácio da Reunificação (Dinh Thống Nhất), no edifício dos correios (Bưu điện thành phố), e na catedral de Notre Dame (Nhà thờ Đức Bà). Estes dois últimos tão próximos que quase podemos ter um pé num e um pé noutro.

Entre o mercado e o museu: uma família portuguesa na mítica Saigão
créditos: Menina Mundo

Não nos apaixonamos por Ho Chi Minh, mas foi uma passagem simpática e o ponto de partida ideal para a nossa subida do Mekong, verdade, vamos subir o Mekong, em família.

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