A peste não teve origem em Itália, mas este foi o país europeu que serviu de porta entrada para esta doença que surgiu na Ásia. É provocada por uma bactéria (Yersinia pestis), presente em roedores e transmitida aos humanos através das pulgas e piolhos infetados.

Estima-se que a peste tenha entrado, pela primeira vez, na Itália em 1347, espalhando-se rapidamente pela ilha da Sicília. Em janeiro de 1348, a doença entrava em Génova e Veneza, através de galés vindas da Crimeia.

Seguiram-se França, Espanha, Portugal e Inglaterra. A doença espalhou-se por quase toda a Europa, tendo menos incidência em lugares onde o comércio era pouco ou nada desenvolvido e em aldeias isoladas.

Peste Negra na Europa
O quadro 'O Triunfo da Morte', de Pieter Bruegel, retrata este período da Europa créditos: Domínio Público/Wikimedia Commons

Pelo caminho, a peste deixava um rasto de morte: estima-se que 30 a 60% da população da Europa tenha morrido. Entre 75 a 200 milhões de pessoas morreram na Europa e na Ásia entre 1347 e 1351, na primeira vaga do surto. A grandeza dos números prova que esta foi a pior pandemia da história da humanidade.

Durante séculos, a Europa teve de aprender a conviver com uma doença fatal, ao mesmo tempo que procurava soluções para combatê-la.

A origem da palavra quarentena

Uma palavra que estamos a usar muito nos dias de hoje, devido à pandemia de Covid-19, teve origem durante o período da peste negra na Europa. Foi também considerada uma das primeiras medidas para controlar a propagação de doenças contagiosas.

Depois de irem fazer trocas comerciais provenientes da Rota da Seda, os barcos genoveses chegavam a Veneza e, durante o período da peste negra, eram obrigados a estar 40 dias em isolamento antes que tripulantes e passageiros pudessem desembarcar.

Nascia, assim, a expressão “quarantino”, na língua veneta. Mas a prática de isolar doentes não surgiu durante a peste, existindo relatos mais antigos e aplicados a outras doenças, como a lepra.

Em 1374, Veneza estipulou que todos os barcos que chegassem deveriam ficar estacionados na ilha vizinha de São Lázaro (onde já se isolavam doentes com lepra) até receberem autorização do concelho especial de saúde para entrar na cidade. A medida causou uma paralisação no comércio.

Ilha de São Lázaro, Veneza
Ilha de São Lázaro, Veneza créditos: Anton Nosik

Itália foi um dos primeiros países a instituir várias medidas de saúde pública no combate à doença, tais como: isolar doentes em lugares e hospitais específicos, inspeções médicas às pessoas que suspeitavam estar infetadas, restringir o movimentos de barcos e a circulação de bens e pessoas.

Numa altura em que os tratamentos médicos pouco ou nada interferiam na cura da doença - a taxa de mortalidade era de 60 a 90% -, o isolamento era a arma mais eficaz. A peste também obrigou a que as condições de limpeza das cidades fossem melhoradas.

Uso de máscaras

Amedrontada pela doença e sem saber as suas causas, a população recorria a várias técnicas para tentar proteger-se.

Uma delas era o uso de máscaras que se assemelhavam a bicos de pássaros, apetrechadas com ervas aromáticas.

Uso de máscaras
créditos: Wikimedia Commons

Acreditava-se que a peste pudesse ser transmitida pelo ar e através de miasmas (cheiro moribundo). De forma a evitar esta situação, faziam-se grandes fogueiras nas cidades e queimavam-se ervas aromáticas nas janelas de casa.

Uso de máscaras
Como se vestiam os médicos durante a peste no século XVII créditos: Domínio Público/Wikimedia Commons

Grupos étnicos, estrangeiros ou leprosos eram perseguidos e mortos, acusados de serem os causadores da doença, que atacava em maior número as populações mais pobres e desfavorecidas.

A falta de higiene das pessoas e das cidades era o principal vetor de transmissão da peste.

A cidade que foi pioneira em isolar pessoas

O que é hoje uma atração turística da cidade de Dubrovnik, na Croácia, foi, na época da peste negra uma forma inovadora de isolar doentes.

Os lazaretos são um complexo de edifícios que foram construídos fora das muralhas da cidade e visavam separar doentes com lepra mas, depois, foram também utilizados – e melhorados ao longo dos séculos – para separar pessoas com outras doenças, entre elas, a peste, transformando-se em hospitais.

Lazareto em Dubrovnik
Lazareto em Dubrovnik créditos: Domínio Público/Wikimedia Commons

No início deste conceito, eram alojamentos rudimentares, em cabanas até, mas, com a chegada da peste negra à cidade, foram sendo construídos novos lazaretos, que receberam este nome por causa de São Lázaro, o santo padroeiro dos leprosos.

Atualmente, os lazaretos são utilizadores como espaços culturais da cidade mais turística da Croácia.

A aldeia que criou uma cerca sanitária

Em 1665, durante uma vaga de peste negra que atingiu fortemente a Inglaterra, a aldeia de Eyam, que fica a 56 quilómetros da cidade de Manchester, teve de tomar medidas drásticas para que a doença não se espalhasse pelo norte do país.

A peste chegou à pacata aldeia através de amostras de tecidos infestados de pulgas, enviados a partir de Londres ao alfaiate local. Para travar a doença, o padre anglicano William Mompesson decidiu que a aldeia deveria isolar-se: ninguém entrava e ninguém saía. Foi criado o que hoje conhecemos como cordão ou cerca sanitária.

Os moradores organizaram-se e criaram barreiras, utilizando pedras, para sinalizar os limites da aldeia. De forma a garantir o abastecimento do lugar, eram deixadas em algumas destas pedras moedas embebidas em vinagre - acreditava-se que era desinfetante - para serem recolhidas pelos comerciantes e agricultores de outras localidades que, em troca, depositavam bens e alimentos para a população de Eyam.

Rochas utilizadas para demarcar a cerca sanitária da aldeia
Rochas utilizadas para demarcar a cerca sanitária da aldeia créditos: Smb1001/Wikimedia Commons

O desfecho foi fatal para 267 dos 334 habitantes da aldeia, que lutou contra doença durante pouco mais de um ano. Atualmente, o lugar continua a guardar as marcas da passagem da peste. Ainda é possível ver algumas das barreiras e, em certas casas, placas lembram os nomes das pessoas que morreram naquela família.

Uma batalha que durou séculos

Ao longo de três séculos, a Europa foi assolada pela peste. Do século XIV ao XVIII, a doença ia e vinha em vagas que castigavam mais certas cidades.

Veneza perdeu quase um terço da população no século XVI. Amesterdão perdeu 10% dos seus habitantes no século seguinte. Também no século XVII, a população de Sevilha foi dizimada pela metade. Paris foi várias vezes atingida pela peste, bem como Londres.

Peste em Londres
Londres durante a peste em 1665 créditos: Wellcome Images//Wikimedia Commons

Lisboa foi fortemente atingida pela peste no século XVI. Antes disso, na primeira vaga, estima-se que entre um terço e metade da população portuguesa tivesse morrido devido à doença.

A última vaga da peste negra aconteceu com mais força na França e na Rússia entre 1720 e 1770.

Só no século XIX, com os avanços na ciência, é que foi possível identificar que se tratava de uma infeção bacteriológica. A primeira vacina surgiu em 1896.

Tratamentos modernos com antibióticos puseram um ponto final nesta doença que assolou o mundo durante tanto tempo, mas que não desapareceu por completo. O último surto aconteceu em 2017 em Madagáscar, onde foi encontrada uma forma resistente da bactéria.

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