Um pequeno hábito que temos em viagem é de levar um pouco de carinho às crianças que precisam e que durante a nossa viagem vamos encontrando. Não é uma coisa muito elaborada: juntamos roupa de filhos de amigos, compramos bonés e t-shirts de Portugal, adquirimos cadernos, lápis de colorir, canetas, borrachas, rebuçados e balões. Levamos tudo o que conseguimos e conforme o rumo da viagem, as lembranças vão sendo distribuídas. Não é nada de especial, mas é uma forma de deixar com as crianças uma coisa que, provavelmente, não teriam, naquele dia ou na vida. Elas ficam contentes e nós comovidos com tanto sorriso de retribuição.

Viajantes como nós, por este mundo, fazem o mesmo, ou muito melhor, levando verdadeiros carregamentos de bens para orfanatos de países pobres, onde a ajuda humanitária parece nunca ser suficiente.

Uma vez em Kathmandu, no Nepal, ouvi pela primeira vez esta conversa do turismo de orfanatos. Entre colegas, ao pequeno-almoço, contavam-se histórias de um piso do hotel com um fantasma residente, preços de lenços de caxemira verdadeiros e os motivos de não se visitar orfanatos e levar bens. Fiquei curiosa.

Kathmandu, Nepal
Kathmandu, Nepal créditos: Pixabay

Existem cerca de 8 milhões de crianças a viver em orfanatos e casas de acolhimento em todo mundo. E 4 em cada 5 delas têm pais vivos ou familiares. Por exemplo, no Camboja, o número de orfanatos aumentou 75% na última década e o número de órfãos diminuiu. Como é que isto é possível?

A maioria das crianças a viver em centros de acolhimento (em Portugal também) não são órfãos totalmente. São crianças de meios pobres ou vindas de situações de violência familiar. Nos países subdesenvolvidos, "funcionários" de orfanatos convencem as famílias dos meios rurais que enviar as suas crianças para os orfanatos lhes vai oferecer educação e uma vida melhor. Estas pessoas levam as crianças para as cidades e, com papéis falsos, vendem-nas como órfãos.

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E como está relacionado o turismo com isto?

Infelizmente, o turismo tem contribuído em alguns países, como Nepal, Camboja, Uganda, Índia, para este ciclo de abuso e tráfico. De facto, em lugares onde os direitos humanos e da criança não proliferam, o turismo de orfanato e voluntariado tornou-se uma atividade lucrativa.

Com o aumento da procura, por parte de viajantes genuinamente bem intencionados, aumenta a necessidade de órfãos. Estas crianças subnutridas, doentes, mutiladas de propósito, sem brinquedos nem roupas adequadas são boas para este negócio horrível, pois apelam a corações de visitantes que só querem ajudar. Crianças, famílias e visitantes de nada sabem.

Crianças no Nepal
Crianças no Nepal créditos: Pixabay

Claro que nem todos os orfanatos são corruptos. Só temos de nos informar bem antes de entrar em um. Na Índia andam homens na rua a angariar visitantes para os orfanatos, edifícios a abarrotar de crianças mutiladas… não é uma abordagem séria.

Muitos orfanatos fazem um trabalho extraordinário e são de confiança. Mas estar institucionalizado já é, por si, muito prejudicial e triste para as crianças. Estas crianças revelam dificuldades de desenvolvimento, decorrentes da instabilidade da sua vida, falta de atenção individual e amor. Estes efeitos de estar numa instituição duram toda a vida.

Encontrei na internet uma organização a trabalhar no terreno esta situação, a ReThink Orphanages, que, em conjunto com várias entidades e organizações, querem diminuir as crianças enviadas para orfanatos desnecessariamente, querem que estas cresçam no seio das suas famílias com o apoio necessário.

Encontrei-os através de uma organização que conhecemos e ajudamos há quase quatro anos, apadrinhando uma menina nas Filipinas, para que possa ir à escola, mas esteja junto da sua família: a ChildFund.

Como podemos ajudar?

Passando a palavra, partilhando formas de ajudar que sejam realmente benéficas. Temos de aprender mais sobre isto, contar aos amigos, aos amigos dos amigos.

Nepal
Marionetas tradicionais do Nepal créditos: Pixabay

Quando viajamos e queremos ajudar, não vamos visitar o primeiro orfanato que nos indicam, nem contratar um agente local para nos levar lá. Um lugar que abre as portas a qualquer visitante a qualquer hora e não tem um adulto responsável pelo local para acompanhar a visita e proteger as crianças não é uma instituição séria.

Temos de fazer a pergunta a nós mesmos: estamos mesmo a ajudar as crianças? São elas as verdadeiras beneficiárias da nossa pequena contribuição?

Ser socialmente consciente também é uma boa forma de ajudar, por exemplo gastando o nosso dinheiro em mercados locais, lojas de artesanato (not made in China), comprar comida de rua, usar transportes e alojamentos locais. Interagindo com a comunidade e percebendo onde faz falta a ajuda.

Existem imensas associações pelo mundo fora que podem informar as melhores formas de ajudar. Aqui ficam alguns exemplos: UNICEF PT, Maria Cristina Foundation, CARITAS, PLAN International, Cambodian Children Trust, Forget Me Not.

Partilhem nos comentários outras organizações que conheçam e confiem.

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Artigo originalmente publicado no blogue Onde andam os Duarte?

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