Entrámos com grandes expectativas, pelo facto dos primeiros dias terem sido extraordinários, nos quais a dormida quase não nos foi dificultada. Por isso, chegámos tarde e confiantes na repetição dos episódios algarvios, mesmo que com um ou outro obstáculo. Não aconteceu.

Estendemos, pelo gozo, a nossa passagem por Almodôvar que nos foi mostrando as suas várias pérolas patrimoniais e só despertámos para urgência da partida quando fomos regadinhos pela chuva. Lá serviram-nos o chá das cinco frio, sem chávena e bastante menos doce.

De vistas lavadas e bem relaxados, chegámos ao pouso que havíamos escolhido para aquela noite: Castro Verde.

À chegada, já de noite, a tranquilidade que carregávamos reconfigurou-se e assumiu a forma de maleita. Descobrimos que o final de tarde é, definitivamente, tarde para fazer valer a nossa prosa junto dos alentejanos, sendo que às oito da noite éramos nós ao relento e sem vislumbre de possível alento.

Desanimados, preferimos aconchegar a barriga, o que fizemos eximiamente. Contudo, o problema mantinha-se sem que o frio se compadecesse, pelo que os bombeiros representavam a nossa única solução. Nos bombeiros não nos abriram a porta, não espreitou um rosto sequer, mas valeu por uma das experiências mais engraçadas da viagem.

Este cenário e a necessidade de wi-fi, fizeram-nos estacionar em frente ao restaurante onde jantáramos e assim pudemos trabalhar e dormir, ainda que bem desconfortáveis, no que tinha de ser o Éden dos automóveis.

Acordámos na manhã seguinte para um risonho resto de viagem, que não poderíamos expectar, especialmente depois da noite anterior.

Queijadas alentejanas
Queijadas alentejanas créditos: Casa em Todo o Lado

Bem dispostos, palmilhámos a vila à procura dos artesãos que ainda levam o legado dos velhos saberes adiante, o que nos encaminhou à sra. Maria Alexandrina, que faz as reais queijadas alentejanas, e ao sr. Zé Manel que encheu uns belos chouriços, literalmente, para que víssemos a arte original.

Após a manhã de investigação, a caminhada foi outra. A chegada a Aljustrel significou o descobrimento da morada do encanto alentejano, sítio onde assistimos a um verdadeiro ato de hospitalidade, porque em dia de magusto para os funcionários camarários, bastaram cinco minutos para que o sr. Marcos nos garantisse alojamento e nos convidasse para jantar. No restaurante, o som do Cante rematou o deleite da degustação e a experiência da boa mesa findou com a da boa cama no Centro de Artes que, pelas mãos da Elsa e do Marco, se encheu de carisma e personalidade.

Rui Colaço
Rui Colaço créditos: Casa em Todo o Lado

O dia seguinte levou-nos até Ferreira do Alentejo para uma conversa radiofónica que havia sido combinada no fim dia anterior. Ferreira, meus caros, para nós teve um nome: Rui Colaço.

Apresentámo-nos atrasados na Rádio Synga, mas, ao primeiro fôlego da receção, percebemos que já íamos, em muito, adiantados. Uma surpresa em forma de chaves de casa caiu-nos nas mãos e foi então que conhecemos o nosso anfitrião que fez de Ferreira uma das mais intensas experiências. O sr. Rui deu-nos, não temos dúvidas, o melhor abrigo da vila quando nos abriu o quarto em sua casa, proporcionou-nos a estreia de beber vinho da talha e, mais importante, levou-nos com ele para dentro da casa de um amigo, para um aniversário em família. Imaginem só: os três à mesa, a casa cheia e nós, que nunca tínhamos sido vistos por aquelas bandas, a surgir do nada e de mãos a abanar. A entrada arrepiou-nos, mas a meio da ceia já não havia um de nós que não tivesse com quem conversar, e à saída, então, levámos as palavras de que seríamos bem recebidos se decidíssemos lá voltar.

Andar de charrete
créditos: Casa em Todo o Lado

Antes de partirmos, ainda houve tempo para um circuito numa charrete, à tração do pónei Falcão, que nos encantou a todos, e nos deu a oportunidade de sentir minuciosamente o estado do asfalto.

A última paragem dentro das planícies do Alentejo aconteceu em Montargil e, como viemos a descobrir, no melhor sítio. Quando pisámos a localidade era noite cerrada, mas ao nascer do sol percebemos que tínhamos assentado arraiais numa casa com piscina, por cima da barragem, e com direito a ovelhas na paisagem, a fazer lembrar os velhos fundos do Windows. Todavia, o melhor estava ainda por vir com o Rogério, amigo do Tiago, a levar-nos para o seu local de trabalho que é a albufeira, onde navega com a Pure Lake Life, e a mostrar-nos a imponência do pôr do sol à boleia do seu barco.

Albufeira
créditos: Casa em Todo o Lado

Despedimo-nos, assim, do português suave do Alentejo, partindo para Abrantes que nos iria receber com o maior requinte.

Texto: Casa em Todo o Lado

Pode acompanhar as crónicas desta aventura no SAPO Viagens. Siga também no Instagram, no Facebook e no YouTube.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Viagens. Semanalmente. No seu email.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.