Quando foi feito o retrato, sete anos antes da morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, em 4 de Agosto de 1578, o objetivo era seduzir. O alvo era fora de fronteiras e o propósito não foi alcançado.

Retrato de D. Sebastião
créditos: andarilho.pt

Com apenas 16 anos de idade, compuseram a imagem de um príncipe formoso e com poder e, conforme refere Joaquim Oliveira Caetano, diretor do Museu  Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, onde podemos ver o quadro,

Retrato de D. Sebastião
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“Quando D. Sebastião atinge a adolescência, aumenta a quantidade de retratos porque para Portugal, para a corte e para os regentes de D. Sebastião, era fundamental casar o rei”. Havia já o receio de se quebrar a “continuidade dinástica e evitar o que acabou por suceder. Por isso, há nesta altura uma grande necessidade de construção da imagem do rei de forma a torná-lo um partido apetecível.”

“(...) o carácter deste “menino da mata” rebelde, impulsivo, desaparafusado, louco dez vezes, infelicitado por uma terrível paranoia congénita. (...) E casar? El-rei não casava “porque não podia casar” escreve o padre José de Castro consciencioso e abalizadíssimo compulsor dos arquivos secretos do Vaticano. A infanta de França, a viúva de Carlos IX, uma filha do duque da Baviera, D. Catarina, D. Joana de Castro, filha do conde da Feira, foram as noivas ideais, de todo eliseanas, deste príncipe frio, impotente, destituído de inclinação amorosa, e incapaz de amar, como escrevia também Filipe II. Neste capítulo, tudo, sem embargo das diligências da avó, “ficou sem efeito, por ocultos desígnios do Altísssimo”.

Sebastião, o Desejado e Inversosímil, em Príncipes de Portugal; Aquilino Ribeiro

Retrato de D. Sebastião
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É neste âmbito que o retratado ganha uma dimensão que ultrapassa a sua idade e experiência. “Daí, a armadura imponente que o rei veste, mesmo antes de ter tido qualquer experiência militar. Há também a presença do cão, como instrumento de poder. Vimos no último restauro da obra que o cão tem uma coleira com as armas reais.”

Retrato de D. Sebastião
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O recurso estilístico do cão a acompanhar o retratado não foi inovador. “Está presente em inúmeros retratos europeus de reis e personagens nobres na altura. Praticamente tornou-se uma constante a partir do modelo de Ticiano que retrata Carlos V dessa maneira.”

D. Sebastião sobressai de um fundo escuro. Com um olhar doce, muito longe do príncipe colérico como foi por vezes descrito. A armadura está decorada com figuras geométricas e a mão esquerda acompanha o punhal da espada. O cão tem igualmente um olhar doce e contempla o jovem senhor cujo retrato iria seguir para o Papa Pio V.

Retrato de D. Sebastião
Joaquim Oliveira Caetano, diretor do MNAA créditos: andarilho.pt

Ainda na opinião de Joaquim Oliveira Caetano, o pintor Cristóvão de Morais construiu de forma eficaz a imagem de D. Sebastião, seguindo técnicas e expressões artísticas da época. No entanto, a leitura que fazemos hoje do retrato do rei ultrapassa largamente o valor estético.

“É evidente que, para nós, o retrato para além do seu próprio encanto visual, tem também o fascínio de nós conhecermos a figura e a mitologia construída à volta da imagem do D. Sebastião. É impossível olharmos para o retrato sem vermos um adolescente sonhador, vestido com uma armadura maior do que ele próprio, tal como se vestia de sonhos maiores do que as suas próprias possibilidades. O que resultou na sua desgraça pessoal, na desgraça pátria, do ponto de vista da perda de independência e, nesse sentido, o retrato carrega mais do que a sua própria função. Carrega toda a imagem que nós fomos construindo desta figura operática, trágica e, ao mesmo tempo, poética e sonhadora.”

Retrato de D. Sebastião
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O regresso numa manhã de nevoeiro, que faz parte do mito do Desejado, é muito diferente do traço rigoroso do retrato. A obra não está assinada, mas é atribuída a Cristóvão Morais. Um dos motivos é porque as técnicas se assemelham a um outro retrato de D. Sebastião, este assinado por Cristóvão Morais, que está em Madrid, no Convento das Descalzas Reales onde se recolheu a mãe do rei, Dona Joana de Áustria.

Retrato de D. Sebastião
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“D. Sebastião é de longe o rei mais retratado da história antiga portuguesa. É um rei que nasce depois do pai morrer, a mãe separa-se do pequeno D. Sebastião e vai viver para Madrid, na corte do irmão, Filipe II. Acaba depois por ir viver para o Convento das Descalzas Reales, que ela própria ajuda a fundar. Segue sempre a vida do seu filho. No primeiro retrato conhecido de D. Sebastião ele está no berço. Há depois uma grande quantidade de retratos. Sabe-se que mesmo quando os retratos não eram destinados à mãe, por exemplo seguiam para o Vaticano, ela fazia questão de os ver em Madrid.”

Nesta época era usual na Europa os nobres e a Coroa promoverem galerias com retratos de membros da família “com maquilhagem”, “os retratos serviam para isso. Os retratos não são fotografias para os bilhetes de identidade. São retratos de aparato. Isso tem uma história que se constrói ao longo do século XVI. Talvez a figura essencial na construção dessa maneira de retratar o nobre tenha sido Ticiano e depois continuando o seu modelo, Antonio Moro. É um pintor flamengo que vive em Portugal e Espanha, retrata a família real e forma dois grandes retratistas peninsulares, o Alonso Sanches Coelho, nascido em Portugal e o Cristóvão de Morais, talvez ele próprio de ascendência flamenga mas vivendo em Portugal, que dão continuidade a esse modelo de retrato.”

Uma parte significativa do espólio de retratos da família real portuguesa desapareceu com o terramoto de 1755 porque se encontrava no Paço da Ribeira, em Lisboa e que foi destruído. O MNAA, após uma recolha de colecções, preserva ainda alguns dos tesouros da arte portuguesa.

Retrato de D. Sebastião
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Quem quer casar com o Rei D. Sebastião? faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho, e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

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