Amizade. Foi o que criei depois da investigação que enverguei para este artigo. E outra palavra me vem à mente, de forma sonora: Gratidão. Conheci a Daria, autora do @Dasha_in_Portugal e também do @lisbon_and_more com um objetivo que pensávamos, as duas, ser simples: uma conversa sobre o que os turistas, o que ela, amam em Portugal.

A Dasha (ou Daria) é russa e apaixonou-se literalmente por Lisboa desde há uns anos. Nunca mais quer sair de cá. Depois fez algo ainda maior: fez com que vários estrangeiros visitassem o país lés a lés com ela. Temos uma menina russa com amor português. E tudo começou por Amor. Aliás eu disse-lhe, a meio das minhas notas apressadas para tentar acompanhar o ritmo dela, que “Dasha is all about love”. E é mesmo. Ela amou um Português e depois de um desgosto, voltou a Moscovo, mas retornou, em 2016, a Portugal (destino? Fado?) e reencontrou outro maior amor. Esse maior amor numa pessoa e num país, o nosso. Ela faz questão de salientar que o que mais importa nos lugares e nas tours são as pessoas.

A Dasha começou a escrever o seu blogue em setembro de 2016, mas antes disso encontrou imediatamente a sua veia profissional em empresas de turismo e de identidade corporativa, sediadas em Portugal. Quando cá ‘aportou’, não falava uma palavra de português e o seu forte continua a ser uma série de outras línguas (russo, inglês, alemão) que não português. Não se assustou com isso e estudava enquanto trabalhava. Bem, ela comenta que não trabalha… que vive a vida através da alegria que proporciona a turistas enquanto os leva pelas ruas do norte ou do sul do país. Até hoje, a sua carreira é sobre turismo português até ao ponto de se ter tornado uma freelancer bem-sucedida desde dezembro de 2019. Dasha não é apenas uma guia turística, nem pensar. Ela é muito mais do que isso: é uma inteligente contadora de histórias que encanta os clientes que enchem a sua agenda. E, sim, mesmo nesta altura da COVID-19.

Nisto os olhos dela percorreram o teto, como que revendo a agenda e verificou que tinha alemães quase a chegar a Lisboa para uma aventura. Nesta aventura que pode ser a nossa também, ela refere a sua preferência nas tours lisboetas: visitas a ‘lojas com história’. Aliás foi ela que criou este passeio temático em Lisboa. A Dasha refere que, antes da COVID-19, o ritmo era quase 24h sobre 24h e que só fazia pausas entre o bom café português  e não se sentia cansada. Segredo deste despertar constante? Diz que o que mais ama é ver como as pessoas evoluem nas suas emoções desde que começam uma tour, em Portugal, até ao final. Os risos aparecem, as crianças ficam mais calmas, a curiosidade dos turistas fica a dançar com a voz da Dasha e eles saem de perto dela com outra personalidade. Ela refere isto mesmo!  O seu principal público é: russos, alemães, espanhóis e austríacos. Pessoas, sobretudo, de personalidade mais ‘sisuda’ e que após cada passeio… se transforma.

Dasha: De atriz em Moscovo a guia turística em Lisboa
Foto: Dasha créditos: Dash

Uma espécie de psicóloga de viajantes durante caminhadas que não cansam, que são um ‘acting’ feliz com uma salva de palmas no final. Lisboa é o seu palco, assumiu! Sim, Dasha foi, em Moscovo, atriz. Além de toda a sua prévia formação académica e que bem notei nela, na sua inteligência e sobretudo na sua criatividade. E é uma leitora ávida. Essa experiência artística, segundo explica, tornou-a apta a ensaiar gestos e voz à medida que vai contando as histórias de ‘lugares’ como a Rua das Necessidades, o Chiado, os palácios, lojas vintage sobreviventes, o Parque Eduardo Sétimo, as praias como Abano ou Magoito, em sítios tão distintos da região. E a piscina salgada da qual podem observar o Guincho a ‘chiar’ na alegria do seu vento típico? Ela tem fotografias incríveis. Percorram a galeria de imagens dela e encontrarão muito mais, como o caso do Jardim Botânico em Belém, os montes alentejanos, as calçadas portuguesas que surgem a qualquer momento, o Mosteiro dos Jerónimos!

Dasha chama ao nosso país uma forma de vida consciente, ou seja, em que as pessoas de facto percebem o que é usufruir o tempo e as horas livres. Gostei muito da expressão que aplicou para caraterizar os portugueses e Portugal: “a touch of time”. E quanto a Lisboa, vem assistindo, tal como nós, à sua evolução. E à evolução da mentalidade. Sobretudo das mulheres. Nota similaridades imensas com a Rússia, não propriamente com Moscovo. Percebia-a, entre olhares. Connosco estava a sua grande amiga Elena, artista que pinta conceitos maravilhosos e onde o charme lisboeta já penetra formidavelmente. Elena conheceu a Dasha enquanto leitora e seguidora do seu blogue. Visitou Lisboa (e visita) com D. e ficou cá a viver. Ambas são russas e partilham o amor pelo país. Também me encantei com a Elena e gostei muito quando ela tentava perceber a nossa forma de funcionar em sociedade.

Dasha: De atriz em Moscovo a guia turística em Lisboa
Foto: Dasha créditos: Dash

Falámos horas, as três. Até o café fechar. Houve uma frase de Elena que me ficou a ondular no ouvido: como é relaxante ver o oceano a partir de Magoito e experienciar sensações tão diferentes a cada onda que se levanta. A Elena sente que aqui sim há ‘o oceano’, não o sentiu, por exemplo, em França, na zona costeira. Sente que as pessoas sabem viver em Portugal e encontrou também o seu espaço, o seu atelier. Dasha leva-a a todo o lado para ver melhor Portugal. Senti, de repente, que conheço tão pouco da área de Lisboa e de Setúbal e que a alma portuguesa está na Dasha. Não basta viver num lugar, temos de o viver de facto. Com todos os sentidos. Ah, tal como a Dasha diz, Lisboa é a cidade ‘pop’ do país. O Porto é a cidade refrescante e, ao mesmo tempo, underground onde parece que se sente a vivenciar um filme twilight. As escadarias perto da ribeira do Porto … ela entusiasmou-se… parou segundos e inspirou(me): falou delas como se tivessem sido um sonho enquanto as percorreu. Confessa que sente mais da raiz da alma portuguesa no norte. Nem a contrariei.

Entre um café e algumas horas notámos que tínhamos acabado de fazer uma viagem especialmente por Lisboa, sem sair efetivamente do café onde marcámos o primeiro encontro. Numa altura em que viajar para o estrangeiro está ainda mais complexo, este artigo assenta que nem uma luva. A Daria (ou Dasha) defende que Portugal é um Mundo de temas e de amor em cada rua e seus nos azulejos. Os olhos dela brilharam quando referiu os azulejos constantes pelo país, mas especialmente os de Lisboa. E quero terminar, sem conseguir contar tudo hoje, com uma metáfora lindíssima dela, quanto a Lisboa: é uma caixa de cores refletidas pelas casas a combinar com a luz forte do céu e com a calçada. Tudo proporciona a ilusão de uma ‘bola’ natalícia. Ou a caixa de lápis de cores que ela ‘vê’ ali perto da Rua das Necessidades.

Um beijinho Daria e até à próxima, sei que, tal como uma matriosca, dentro de ti tens mais histórias.

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