Imagem: Vitor Oliveira CC BY 2.0

O Mosteiro do Lorvão foi fundado no ano de 878 pelos monges de Cluny, pertencentes à Ordem de São Bento, que o dedicaram a São Mamede e São Pelágio. Durante o reinado de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, o Mosteiro do Lorvão, juntamente com o Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, tornou-se num importante centro de produção de manuscritos iluminados do jovem reino. No scriptorium do Lorvão foram produzidos documentos e manuscritos de relevo, dos quais se destacam o “Livro das Aves” e o “Apocalipse do Lorvão”, dois dos primeiros manuscritos iluminados produzidos no recém formado reino de Portugal e que se constituem como duas das raras obras do género da Idade Média Portuguesa que sobreviveram até aos dias de hoje. Mas no início do século XIII, o Mosteiro do Lorvão seria alvo de uma profunda mudança.

Lorvão e as netas de D. Afonso Henriques

D. Teresa, filha do rei D. Sancho I e neta de Afonso Henriques, casou com o seu primo Afonso XI rei de Leão, com quem teve três filhos. No entanto, o matrimónio foi considerado nulo por motivo de consanguinidade. Assim, D. Teresa viu-se forçada a regressar a Portugal e decidiu recolher-se no Mosteiro do Lorvão, onde introduziu uma congregação feminina. Mais tarde haveria de expulsar os monges, devido ao seu relaxamento, e converter o convento numa abadia da Ordem de Cister devotada a Santa Maria. Esta profunda reforma levou a diversas mudanças e adaptações dos espaços existentes, mas de todas as obras medievais apenas subsistem os capitéis românicos existentes nas capelas do claustro.

Alguns anos depois, D. Sancha juntar-se-ia à irmã Teresa no Mosteiro do Lorvão, onde preparou a fundação do Mosteiro de Santa Maria de Celas (Coimbra) também pertencente à Ordem de Cister e para o qual levou algumas das religiosas que professavam no Lorvão. A última das irmãs a procurar refúgio no Mosteiro do Lorvão seria D. Mafalda, após ver o seu casamento com o rei de Castela anulado, devido à morte deste ainda antes da consumação do matrimónio. No Lorvão haveria de preparar a introdução da Regra de Cister no Mosteiro Beneditino de Arouca, que lhe havia sido doado pelo irmão, o rei Afonso II.

Da prosperidade à extinção

Enquanto conduzido por D. Teresa, o Mosteiro do Lorvão chegou a ter mais de 300 religiosas, foi-se tornando próspero e em redor dele foi nascendo uma comunidade atraída pelo trabalho oferecido pelas freiras nas suas vastas propriedades. Ao longo dos séculos seguintes as sucessivas abadessas, provenientes de famílias da mais alta linhagem da nobreza portuguesa, dotaram o mosteiro de preciosas obras de arte, ao mesmo tempo que foram realizando obras de ampliação que resultaram no enorme complexo que hoje se pode ver.

Atualmente, a maior parte dos edifícios que compõem o mosteiro datam do século XVIII, embora subsistam exemplares do século XVII, como é o caso do claustro. Em 1834, com a extinção da Ordens Religiosas em Portugal, o Mosteiro do Lorvão viu, como tantos outros, depredadas as suas riquezas acumuladas durante séculos. Espoliadas dos seus bens, as últimas freiras do Mosteiro viveram até ao dia da sua morte na mais absoluta e degradante miséria.

Lorvão nos dias de hoje

Abandonado durante a primeira metade do século XX, o Mosteiro do Lorvão viria a acolher um Hospital Psiquiátrico encerrado no ano de 2012. Atualmente o património artístico do antigo Mosteiro encontra-se disperso por diversos locais, com destaque para o espólio existente no Museu Nacional Machado de Castro (Coimbra), na Torre do Tombo (Lisboa) e na Biblioteca da Universidade de Coimbra. No Mosteiro também existe um Museu de Arte Sacra, que exibe peças do espólio do mosteiro como paramentos e outros objetos litúrgicos, telas, esculturas, cerâmicas, mobiliário e tapeçaria.

Na igreja do antigo mosteiro encontram-se os restos mortais de D. Teresa e D. Sancha, em túmulos de prata, uma obra de ourivesaria de 1715. Nascidas e criadas na corte, as três irmãs que decidiram abraçar a vida religiosa foram, ao longo das suas vidas, protagonistas de diversas obras de misericórdia, o que fez com que o povo lhes dedicasse o culto desde muito cedo. D. Teresa e D. Sancha foram beatificadas em 1705 e D. Mafalda em 1792.

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