Esta praça é - para os seus - o coração simbólico do país; quem não pertence à China julgo que - como nós - dificilmente dissociará esta praça do massacre que aqui ocorreu em 1989 e da imagem daquele que ficou conhecido pelo ‘homem do tanque’ ou ‘o rebelde desconhecido de Tiananmen’. Um homem que continua sem nome, mesmo sendo considerado um símbolo da luta pela democracia, mesmo sendo considerado uma das pessoas mais influentes do séc. XX. Aliás, quando, a partir da China, tento fazer a pesquisa para obter mais informação constato que nenhum link sobre o assunto abre, é o controlo social a funcionar, na ausência de qualquer subtileza.

Almoçamos com a ansiedade de conhecermos a Cidade Proibida a ocupar-nos mais do que a comida. Dirigimo-nos às bilheteiras e vimos a entrada ser-nos proibida, motivo: falta de passaportes - não costumam pedi-los mas a afluência de turistas nesta semana terá levado a medidas suplementares de controlo. Há uma expressão em francês que me parece encaixar na perfeição: ‘pas de bras, pas de chocolat’.

Podíamos ter ficado fulos (não ficamos), podíamos ter-nos atirado para o chão e chorar (não o fizemos), podíamos ter voltado para casa com cara de criança a quem caiu o gelado preferido (não voltámos). Aceitar o imprevisto: uma das principais regras de uma viagem como esta (eu diria mesmo da vida). Por caminhos desconhecidos fomos dar a um lugar cheio de mensagens nas paredes, que - permitam-me dizê-lo - são tão válidas quanto as de quaisquer paredes nesta cidade (proibida ou não). Neste lugar acolhedor bebemos um café a sério, e é um tarefa herculeana encontrar o que entendemos por ‘café’ por cá. Os chineses são do chá não do café e, habitualmente, quando bebem ou oferecem este último, trata-se de café com leite.

Enquanto bebíamos os nossos expressos a Mia conseguiu entender-se com o simpático gestor do espaço. Pediu – ao senhor chinês - que lhe lesse um dos seus dois livros favoritos, escrito em francês e que está habituada a ouvir em português. Ele não percebia o que lá estava escrito e a Mia, não sabemos se continuando à espera de ouvir a sua história do costume ou uma nova, vista com outros olhos e dita por outra boca, outra língua, continuou a folhear o seu livro, como se fosse ela a lê-lo.

Portanto, não foi nesse dia que oferecemos aos olhos a majestosidade da Cidade Proibida. Neste dia não passamos a famosa porta meridiana, saímos pela porta das traseiras, enviados para os ‘calaboiços’ por detrás da Cidade, é lá que vivem os outros todos, onde o chão não é de ouro, mas não é proibido a ninguém.

Não desistimos da Cidade (que nos foi) Proibida: nunca desistimos de nada. Tudo o que vale a pena faz-se desejar e, afinal, trata-se de um dos cinco palácios mais famosos do mundo, foram 24 os imperadores que ascenderam ao trono e exerceram o seu poder daqui, deste palácio.

Voltámos, dois dias depois, com passaportes apontados em haste, e desta passámos para lá da parede púrpura, que guarda o palácio, desta conhecemos e atravessámos a porta meridiana (Wu Men). Desta tocámos as paredes, vimos o palácio rectangular grandioso e luxuoso. Salões simetricamente ordenados ao longo de um eixo central que está em conformidade com o eixo de Pequim.

Cidade Proibida, vem do chinês Zijin Cheng (紫禁城) e é um nome carregado de significado: Zi significa púrpura e, por isso, a tradução mais correta deveria ser Purple Forbidden City ou a Cidade Púrpura Proibida e refere-se à estrela norte que na astrologia chinesa antiga significa a morada celestial do imperador, sendo a cidade proibida a residência terrestre do imperador; jin significa proibida, uma vez que ninguém podia entrar ou sair do palácio sem permissão do imperador e cheng significa cidade.

Mais de 14 anos de construção e o trabalho de milhões de trabalhadores e artistas. O chão de muitos dos palácios é feito de ‘tijolos dourados’ não por se tratar literalmente de ouro, mas porque o processo de fabrico dos tijolos era tão moroso e oneroso que fazia com que quase fossem pagos ao peso do ouro. A cada passo percebemos os detalhes, o reflexo, através da arquitectura, dos princípios filosóficos e religiosos e, sobretudo, do poder imperial. Os telhados são disso um bom exemplo, suportam telhas amarelas, porque essa é a cor do imperador e as suas cristas inclinadas são decoradas com uma linha de estatuetas lideradas por um homem que monta uma fénix, seguido por um dragão imperial. Quanto maior o edifício, maior o número de estatuetas, a Galeria da Harmonia Suprema é o único edifício do país a ter 10 estatuetas.

União, tranquilidade, pureza, harmonia são nomes grandes que nomeiam pavilhões, corredores e palácios. Tudo é supremo, tudo é grande, aqui.

Enquanto percorríamos estes lugares tocámos as suas paredes, enchemos os ouvidos com as palavras do áudio-guia e os olhos com: os telhados e o chão, as cores, toda a grandiosidade que ali mora, em beleza e em história. Fizemos eco num vaso gigante e quando começou a chover, enchemos a boca de chuva, que engolimos. Eram 16h30 quando percebemos que uma parte da Cidade nos continuaria proibida, desta foi a chuva que serviu de bode expiatório e os portões da cidade foram fechados 1h30 antes do seu horário habitual: também engolimos isto, menos bem que a chuva.

Estamos de novo nas traseiras da cidade, percorremos as Hutongs: ainda que existam diferentes teorias sobre o aparecimento desta palavra, parece que aquela que ganha mais adeptos é a de que deriva do significado mongol de poço. Antigamente, quando havia um poço havia gente a habitar as proximidades. E lá estão as gentes, nesses becos ou caminhos que, se atravessados com atenção, permitem que percebamos as condições em que vivem, as suas casas em ruelas estreitas, os veículos de três rodas em que circulam, as roupas que usam e as comidas que comem.

E nós fomos percorrer os seus caminhos enlameados, fomos provar das suas comidas, dos seus sorrisos, dos seus olhares, das suas confusões. E rimos do contraste entre estes caminhos, entre estas descobertas.

No mesmo dia os nossos pés pisaram ouro e lama, os nossos olhos passaram de um luxo (extremo) ao mais modesto e nós saltámos de um lugar apinhado de turistas para um local onde apenas os locais se sentam, para saborearem uma refeição. E eu nem sei do que mais gostámos, talvez mesmo da possibilidade de lhe darmos a ver que o mundo é feito destes opostos, desta falta de equilíbrio, deste ‘quase tudo’ e deste ‘quase nada’ e de ela nos ter mostrado que soube lidar com os dois, que se adaptou aos dois, que se desenrascou nos dois: quando dançou nas filas e sob a chuva, na Cidade Proibida, e quando usou as caixas de papel sobrepostas como banco, onde se sentou para comer, num lugar onde as casas não têm nome mas onde a união, a tranquilidade (mesmo no meio da confusão), a pureza e a genuinidade se vivem, sem qualquer necessidade de serem ditas ou escritas à entrada.

Este artigo foi originalmente publicado em Menina Mundo

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