O sol acordava e eu estava numa varanda virada para o fim do mundo. O oceano Atlântico precipitava-se, espicaçado, para os confins da Antártida, amparado por colinas verdes e falésias graníticas. Praias de areia branca traçavam a fronteira entre os domínios da terra e dos mares. E lá em baixo, a mais de 1000 metros, estendia-se a Cidade do Cabo – aquela a que os sul-africanos chamam de cidade-mãe – com as suas casas claras a refletirem a luz da aurora. Não sei onde foi inventado o postal, mas devia ter sido aqui, no cume plano da Table Mountain (Montanha da Mesa) – um planalto de 3 quilómetros, delimitado a leste pelo rochedo do Pico do Diabo e a oeste pelo da Cabeça de Leão. O navegador português António de Saldanha foi o primeiro europeu a fazer a ascensão, em 1503, motivo de inveja para qualquer viajante que se preze.

capetown
créditos: Andreas Tusche / CC BY-SA 3.0

O topo da montanha é alcançável a pé, de teleférico ou de carro. O carrinho suspenso por cabo permite apreciar lentamente a paisagem oferecida. É a melhor opção, mas convém reservar o bilhete com antecedência. Também não é de rejeitar olhar primeiro para a previsão do vento porque, já se sabe, onde dois oceanos confluem a agitação das correntes marítimas contagia o ar e a fúria do seu sopro pode meter respeito. Se a ventania deixar, o lugar é propício para um piquenique, onde não pode faltar o biltong, a carne seca que os sul-africanos tanto gostam. Explorar a Table Mountain pode levar algum tempo mas, com tantas coisas para ver, decidi seguir de carro para o Cabo da Boa Esperança, Sabendo o que os navegadores portugueses sofreram para lá chegar, a viagem de uma hora pelas estreitas e sinuosas estradas da península é para principiantes.

hout bay cidade do cabo
créditos: Elber Rafael Unquaker / CC0

O esplendoroso caminho começa virado para o Atlântico até Hout Bay, onde os surfistas se recriam nas ondas junto ao porto. Passa depois para a costa oposta da península, com aldeias pacatas assomadas sobre a False Bay e paragem obrigatória no miradouro de Chapman's Peak. Após uma portagem, serpenteia-se as arribas ao longo da língua de terra que culmina no Parque Natural de Cape Point. Aqui o vento estava ainda mais furioso, não perturbando, porém, os macacos, as avestruzes, os antílopes e as várias espécies de aves que residem no extremo sudoeste do continente africano. A envolvência é agreste, com terreno pedregoso salpicado pela espumas das ondas. O azul exuberante que pintava de manhã o mar das praias de Cape Town tinha sido substituído por um tom pardo e ameaçador, a que não eram alheias as nuvens espessas que se acercavam. A partir do farol, pude testemunhar finalmente aquilo que tinha lido nos livros de História: o Cabo das Tormentas, que depois de dobrado por Bartolomeu Dias, em 1488, foi batizado de Boa Esperança, é banhado por um mar bravo e tempestuoso, que muitas aflições causou às tripulações das naus e das caravelas. Mais de 500 anos depois, continuava a fazer cara feia aos visitantes.

avestruz cabo da boa esperança
créditos: Wayne77 / CC BY-SA 3.0

Não é por acaso que esta extremidade da Terra está repleta de lendas e mitos; o poeta Luís de Camões viu ali o Adamastor, o monstro feito rochedo que protegia a entrada no Índico, e os holandeses juram que o navio-fantasma “Holandês Voador” continua a vaguear pelas águas do Cabo. Muitos serão os segredos submersos. Todavia, um dos tesouros mais preciosos está à vista de toda a gente.

Os pinguins africanos moram na Praia Boulders e estão ameaçados. Pernoitei em Simonstown e consegui avistá-los cedo, ainda com poucos turistas. A sua caminhada trôpega e as constantes travessuras das crias são um espectáculo enternecedor. Até dá para mergulhar ali perto mas a água é gelada. Uma conclusão óbvia e tardia: se não fosse gélida não haveria pinguins.

simonstown áfrica do sul
créditos: Olga Ernst / CC BY-SA 4.0

Depois de um bom bife no acolhedor restaurante Tasty Table, em Simonstown, o périplo pela península do Cabo passou pelos abundantes vinhedos da região de Constantia, o vale do Novo Mundo que primeiro produziu vinho, em finais do século XVII. As quintas preservam o estilo arquitetónico holandês da época e exploram solos de imensa fertilidade. É impressionante a variedade de ambientes que este pedaço de terra tem para oferecer – da montanha para o cabo de rochas pontiagudas, dos antílopes para os pinguins e agora a atmosfera bucólica das vinhas. Beau Constantia tem o melhor panorama sobre as plantações enquanto que Klein Constantia assegura os vinhos de maior qualidade. Também há um museu da nobre bebida. E saí dali a entender a excelente reputação dos vinhos sul-africanos.

long street cidade do cabo
créditos: Ossewa / CC BY-SA 3.0

A carismática Long Street é o ground zero da cidade. Esta artéria boémia apresenta edifícios de estilo vitoriano com as suas varandas de ferro sempre com gente a observar quem passa. É uma rua que nunca dorme, agitada pelo frenesim de bares, discotecas e hostels que recebem turistas de diversas latitudes. Nos anos 70 e 80, havia por ali muitos teatros que apresentavam peças anti-apartheid (o regime político que se regia pela separação entre a população branca, privilegiada, e a negra, oprimida), mas que hoje se transformaram em cafés, bares ou lojas. Há ainda bastantes livrarias. E restaurantes para todos os gostos, desde os especializados em gastronomia africana, como o Zula, até aos gregos ou indianos.

A Long Street pode ser adorada ou odiada, dependendo dos gostos e dos momentos. É, por um lado, aquela zona enervante frequentada por mochileiros, turistas embriagados e excursões de visitantes de máquina fotográfica em riste, com algumas lojas descaracterizadas e imersa numa euforia constante não representativa do quotidiano dos locais. Mas por outro lado é o grande epicentro intercultural, um ponto de encontro para fazer amigos, de debate intelectual. É, sem sombra de dúvidas, a rua mais global de todo o continente.

long street cidade do cabo
créditos: Discott / CC BY-SA 3.0

Nunca esquecerei o som de fundo na Long Street quando Asamoah Gyan falhou a grande penalidade que colocaria um país africano, o Gana, pela primeira vez nas meias-finais de um Campeonato do Mundo, em 2010, torneio realizado na África do Sul. Gritos, copos partidos, silêncio – a banda sonora de uma frustração colectiva. Nessa mesma noite conheci Rashid Lombard, fotógrafo de jazz e organizador do Cape Town International Jazz Festival. Foi num bar de jazz da Long Street, talvez o Waiting Room, que Rashid me disse: “Muitos dizem que Cape Town é a melhor cidade africana porque foi a que mais preservou o legado do colonialismo,essencialmente porque tem mais brancos. Estão enganados. A cultura de Cape Town só é especial porque aceitou a fusão dos vários povos deste país. Daí ser perfeita para o jazz”.

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créditos: HelenOnline / CC BY-SA 3.0

Cape Town só não é a cidade perfeita, o paraíso na terra, por causa do seu passado e do seu presente de tensões raciais. É uma história de senhores e escravos, de protegidos e abandonados, de regalias e de opressões, uma sociedade a preto e branco que nem o fim do apartheid conseguiu pôr a funcionar a cores. Robben Island é a ilha que nunca deixará apagar essa triste narrativa – é lá que está a prisão em que as elites brancas encarceravam, torturavam e escravizavam os ativistas negros anti-apartheid. Nelson Mandela, o mais proeminente de todos eles, símbolo maior de resiliência e pacifismo, teve ali a sua cela durante 27 anos. Por causa dele, Robben Island transformou-se num lugar de culto e peregrinação.

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créditos: Francesco Bandarin / CC BY-SA 3.0

E essa é a razão de estar constantemente lotada. Os bilhetes, que incluem a viagem de ferry e a entrada na antiga cárcere, custam 29 euros e devem ser reservados com antecedência. A ilha fica a 12 quilómetros e a viagem de barco proporciona uma vista imperdível de Cape Town a partir do mar, onde é possível perceber o recorte único da Table Mountain. A visita guiada começa a bordo de um autocarro e percorre os lugares mais importantes da masmorra, como a pedreira em que os detidos eram forçados a trabalhar horas a fio, passando depois pelo ponto alto, a cela de Madiba (o “pai” dos sul-africanos, nome pelo qual Mandela é carinhosamente tratado). Pelo meio, um dos antigos presidiários conta aos visitantes como era o quotidiano na prisão, descrevendo as torturas com detalhe e até como os reclusos trocavam em segredo informação com Mandela para prosseguir a resistência do Congresso Nacional Africano (ANC) contra o regime. Esta foi a experiência mais forte que vivi em Robben Island e um elemento diferenciador quando comparada a outros lugares semelhantes no resto do mundo – o apartheid é tão recente que muitas das suas vítimas ainda vivem para contar a história.

Robben Island tem, ainda assim, um senão. O tour está tão rigorosamente organizado e o tempo disponível é de tal forma limitado que se perde a liberdade para explorar o local por iniciativa própria. Para os que gostam de deambular pelos monumentos com tranquilidade, pode ser uma experiência frustrante.

Infelizmente, a questão racial não termina quando o barco deixa Robben Island de regresso à Cidade do Cabo. Em Clifton, o bairro mais rico da cidade, multiplicam-se os carros de luxo e as piscinas. Quase não há negros. No arrabalde, Langa, a primeira township (favela) do país, é habitada quase em exclusividade por negros e mestiços. Ali conheci idosos que viveram até aos 50 anos sem direito ao voto.  Ambos os sítios são dignos de visita para quem pretende conhecer mais profundamente a África do Sul.

victoria & albert áfrica do sul
créditos: Brian Snelson / CC BY 2.0

Para ajudar a acalmar este choque frontal com a realidade, a Cidade do Cabo tem múltiplas opções de lazer. A mais clássica é o porto turístico Victoria & Alfred, pejado de bares e restaurantes virados para a frente marítima. Na primeira vez que lá fui, um dos bares estava a tocar a banda portuguesa Silence 4. Não é de admirar. A comunidade emigrante portuguesa está em força na Cidade do Cabo e não deixa margem para saudades do bacalhau – restaurantes como o Dias Tavern, Portuguese Villa, Petiscos, Gallo e Caramba levam as iguarias nacionais até à ponta meridional de África.

Não deixe a frente marítima sem visitar o Zeitz MOCAA, o maior museu de arte contemporânea do mundo. Fruto de um dos maiores investimentos culturais de sempre em todo o continente, o museu, instalado em 2017 num gigantesco e quase centenário silo, alberga obras dos melhores artistas africanos e da diáspora: entre eles,

Chris Ofili, Kudzanai Chiurai ou o angolano Edson Chagas. O MOCAA deixa bem evidente a razão de a arte contemporânea africana estar na vanguarda.

zeitz museum cidade do cabo
créditos: Erika R. Brenner / CC BY-SA 4.0

A inspiração levou-me até a um dos pontos mais pitorescos da cidade. O bairro de Bo-Kaap, num promontório sobre o centro, deslumbra com as cores garridas das suas casas e é um regozijo para a câmara fotográfica. É um reduto malaio antigo com mais de 50% da população a professar a fé islâmica e depositário de um dos patrimónios arquitetónicos pré-século XX mais preservados em todo o país. Mais recente, mas não menos atraente, é a nova meca hipster do Cabo – Woodstock. O nome, só por si, já apela a grande liberdade de espírito, mas as expetativas foram suplantadas assim que entrei no Old Biscuit Mill – um mercado com bancas de comida deliciosa, galerias de arte, música ao vivo, estúdios e grande sinergia entre a juventude sul-africana. Depois do Old Biscuit não restam dúvidas; passada a tormenta, o Cabo é uma cidade de boa esperança.

Texto: Tiago Carrasco

 

 

 

 

 

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