“Esta situação caótica começa a trazer algumas consequências desagradáveis e, tomando como exemplo o que se passa noutros lugares do mundo, onde a massificação turística é uma realidade, achámos que devíamos juntar-nos neste dia”, afirmou, em declarações à Lusa, Blanca Martin-Calero, referindo-se ao Colapse Tourism Day, que se assinala hoje com manifestações em várias cidades do sul da Europa.

Residente na ilha de São Miguel, Blanca disse que o problema afeta as várias ilhas dos Açores, mas é mais evidente na maior ilha do arquipélago, que recebe também mais turistas.

Segundo a moradora, os efeitos são já visíveis, por exemplo, na “subida do preço da habitação”, que se torna “incomportável para os locais”, no desaparecimento do comércio local, substituído por serviços “que só servem ao turismo”, e na dificuldade de acesso a espaços públicos, como miradouros e lagoas.

“No fundo, há uma perda da vivência dos espaços e da identidade pelos residentes”, apontou.

A manifestante alegou que isso acontece porque a região não tem “instrumentos para ordenar o turismo” e considerou “preocupantes” as declarações mais recentes da secretária regional do Turismo sobre o assunto.

“Diz que não temos massificação, só temos alguns pontos onde há concentração de pessoas, mas isso não é verdade. Há muitas outras coisas em questão e não podemos cair nesse discurso tão simplista”, salientou.

Blanca Martin-Calero defendeu que o Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma dos Açores (POTRAA) e os Planos Diretores Municipais (PDM) têm de definir “linhas vermelhas”, para evitar um crescimento descontrolado do turismo.

“O Governo, o que está a fazer, é vender um turismo sustentável e de natureza, mas depois, na prática, os instrumentos legais que temos não refletem isso. Vendemos um ‘slogan’, mas na realidade estamos a permitir outras coisas”, frisou.

Segundo moradora, isso leva a que os turistas se sintam “defraudados” e que os residentes vejam a sua qualidade de vida “significativamente piorada”.

“Está a haver um movimento diferente. Haverá quem diga que isso também dá vida à cidade. A questão é sempre de equilíbrio. A massificação não será igual numa cidade como Veneza e numa cidade como Ponta Delgada”, observou.

Se não forem criadas regras que definam, por exemplo, capacidades de carga e tipos de alojamento, pode estar em causa a “identidade” dos Açores, alertou.

“Isso também tem a ver com o consumo de recursos. Somos ilhas, somos altamente dependentes do exterior. Se virarmos toda a nossa economia para o turismo, vamos ficar cada vez mais frágeis e mais dependentes do exterior. Temos de pensar numa estratégia a longo prazo, que é uma coisa que não há”, defendeu.

Blanca Martin-Calero reconheceu que a adesão a manifestações nos Açores não costuma ser muito elevada, mas garantiu que já se começa a sentir em São Miguel algum descontentamento com o crescimento do turismo.

“Há muita conversa informal em que as pessoas se queixam disso e dizem «fui à Poça da Dona Beija e não consegui entrar, porque havia fila» ou «o peixe está caro». As pessoas que estão à procura de casa e não conseguem alugar uma casa. São efeitos desta falta de regulação e de se vender tudo ao turismo”, lamentou.

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