Aviões "muito complexos"?

Trump lamentou no Twitter que os aviões se tornaram "muito complexos para pilotar" e que é necessário ser "cientista de computação do MIT" para voar hoje em dia.

O transporte aéreo, no entanto, tem um dos níveis mais elevados de segurança vinculado a uma atividade humana e 2017 foi, por exemplo, um ano de "zero mortes" para os aviões comerciais com mais de 20 assentos.

A proeza foi possível graças ao acumular sucessivo - desde o início da aviação comercial - de normas, tecnologias, infraestruturas, assim como da formação dos pilotos.

A Administração Federal de Aviação (FAA) americana foi criada após uma colisão aérea no Grand Canyon, em 1956, que fez perceber que era preciso regulamentar a aviação civil. Hoje em dia cada acidente aéreo é objeto de uma investigação exaustiva.

"Aconteceram mudanças a partir da Segunda Guerra Mundial para melhorar a estrutura do avião, como a introdução da certificação e de testes de voo mais avançados", explica Gérard Legauffre, analista aeronáutico independente.

"Também foi necessário melhorar o nível dos pilotos, com formações cada vez mais exaustivas".

Os fabricantes desenvolveram sistemas para ajudar os pilotos, porque "efetivamente acontecia uma saturação cognitiva" nas situações de crise, ou seja, muita informação para assimilar em pouco tempo.

A automatização da cabine

A mudança aconteceu nos anos 80 com a incorporação de cabines inteligentes, que permitiram reduzir de maneira considerável os acidentes, mas que aparentemente deslocaram a responsabilidade final para os pilotos.

As cabines atualmente são equipadas com uma tela semelhante a um painel de instrumentos, ao invés dos antigos indicadores com agulhas. Estas telas têm como objetivo visualizar de forma clara as principais informações do voo: velocidade, altitude, linha do horizonte, etc.

"Nos anos 70-80 destacou-se o facto de que 75% dos acidentes eram provocados pelos pilotos, mas percebemos que era uma estupidez porque o piloto é o último elo da cadeia e, em função das informações que recebe, da compreensão que tem do sistema, vai ter reações mais ou menos adaptadas", destacou Gérard Legauffre.

É o princípio do "queijo suíço", pelo qual se considera que, com exceção de um ato humano deliberado, um acidente aéreo, em quase todos os casos, se deve a uma conjunção de vários "buracos", várias falhas, cuja acumulação provoca a catástrofe.

No caso de um avaria ou falta de manutenção, não é possível considerar o piloto o único responsável, porém, pode ter o mérito de evitar o desastre.

Os pilotos no comando

Relativamente ao acidente com o avião da Lion Air, os investigadores indonésios concluíram que, durante o voo anterior, o avião da Lion Air havia registado problemas de dados de velocidade.

As falhas surgiram pouco depois da decolagem e os pilotos conseguiram resolver o problema ao desconectarem a fonte de alimentação do compensador da aeronave, que permite controlar a inclinação do avião.

Os aviões atuais, chamados "de quarta geração da segurança aérea", são projetados para evitar uma situação perigosa, mas os pilotos podem retomar o controle "como antigamente a qualquer momento".

No caso da Lion Air, o debate concentra-se no sistema de estabilização "MCAS", desenvolvido pela Boeing, que coloca de forma automática o avião inclinado se detetar que está a perder altitude.

Mas para recuperar o controlo quando um sistema deste tipo falha é necessário que os pilotos tenham sido informados de forma correta, e treinados.

"O problema parece vir do fato que a Boeing decidiu retirar os pilotos do sistema de comando, ao entender que não precisavam de ter conhecimento da existência deste sistema", disse um piloto, sob anonimato.

"Mas, desde os anos 2000, a formação está orientada à identificação e gestão dos riscos por parte da tripulação. A ideia é que o ser humano é mais a solução do que o problema".

Fonte: AFP

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