Bilhete-postal enviado por Ana Luisa Ferreira de Pinho

Fomos os primeiros portugueses a ficar hospedados naquele hotel e segundo o consulado português, dos poucos que se aventuraram na “Costa dos Sorrisos”.

Como era época baixa fomos mais notados pelo staff do hotel que, desde o primeiro dia, nos tratava pelo primeiro nome com um carinho que não vamos esquecer e nos diziam que éramos "diferentes dos outros brancos", explicando que não sabiam que os “brancos” poderiam ser tão simpáticos e acessíveis.

As histórias e memórias que trouxemos connosco foram tantas e tão únicas que é difícil escolher, mas diria que há uma que nos marcou.

Conhecemos no primeiro dia o Mr. Musik (na Gambia todos têm uma alcunha pela qual gostam de ser tratados), o nosso vendedor de sumos naturais na praia, um rapaz de 26 anos com uma simpatia cativante e genuína, que partilhava a sua barraquinha com os colegas. Eram normalmente cinco, sentados debaixo dos guarda-sois todo o dia a ouvir música e a preparar sumos a pedido.

Quase no final da semana de férias, e depois de algumas horas bem passadas com eles na conversa, recebemos o melhor dos convites: partilhar uma refeição com eles, ali, na praia. A refeição foi trazida por dois miúdos, num enorme prato de barro: arroz, peixe fresco assado e cabaça (uma raiz típica do país), que temperávamos na hora com sumo de limão.

Nunca me vou esquecer do momento em que se pousou o grande prato de barro em cima de uma caixa de madeira e nos aninhámos todos na areia da praia para almoçar. Todos iguais, nós, "os brancos diferentes dos outros", e eles, que nos ensinaram a enrolar o arroz apenas com uma mão e a misturar o peixe e a cabaça. Foi a melhor refeição que fizemos na Gambia, pela generosidade de quem tem pouco mas partilha o que tem. E não saímos sem beber um chá verde cuidadosamente preparado na hora.

No último dia, e em jeito de agradecimento, oferecemos-lhes a coluna bluetooth que tínhamos levado connosco e explicamos como ligar ao telemóvel. Os olhos do grupo iluminaram-se, assim podiam dar mais vida ao negócio no Verão, disseram logo. Tiramos uma fotografia todos juntos para memória futura e trocamos contactos.

Nunca mais vou esquecer a lição de vida de quem tinha tão pouco, mas partilhou tudo o que tinha com todo o prazer e sem esperar nada em troca. E foi de facto uma honra sentir que deixamos a nossa presença.

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