O Natal e passagem de ano costumam ser época de doces, mas mesmo na quadra festiva há quem não dispense as maçarocas e por isso o negócio não para.

Sentada no meio de fogareiros a carvão, garrafões de água e sacos de maçaroca, dona Lídia não para nem um minuto no único ofício que domina e pratica, no mesmo lugar, há mais de duas décadas.

Alguns, relata à Lusa, já gozam do “estatuto de clientes residentes”, tal é a assiduidade com que vão ao lugar.

Apesar de ser a céu aberto, faça chuva ou faça sol, nada a tem impedido de trabalhar.

“Tenho um guarda-chuva grande. Pode haver chuva, eu não falho”, prossegue, dando conta da dedicação com que faz o seu trabalho, mesmo em dias de mau tempo.

Os clientes é que fogem da chuva, porque do seu lado, diz - sempre com ar sério e ao som de carvão a crepitar -, vender maçaroca é a tarefa que Deus lhe deu.

Desapegada da importância social dos que compram o seu produto, Ana Matusse diz que trata todos por igual, mas reteve o gosto que Carlos Cardoso, um dos jornalistas mais conhecidos de Moçambique, tinha pelas maçarocas assadas.

“Bastava chegar [Carlos Cardoso] e dizia: ‘quero maçaroca, maçaroca muito torrada e leve’”, lembra, numa alusão à preferência do jornalista, assassinado em 1999, quando investigava uma mega fraude bancária.

Dona Lídia
créditos: © 2017 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Outros apreciadores contaram à Lusa que governantes, deputados e empresários estacionam ali as viaturas e compram uma ou mais.

Sobre o sucesso do negócio, diz que a base de tudo é a preocupação com o gosto dos clientes. “Pedem-me mais leve e torrada e eu faço, alguns querem mais dura, mas são poucos”.

Com o dinheiro da maçaroca ajudou o marido, trabalhador na seção de basquete do Clube Ferroviário de Maputo, a pagar os estudos dos três filhos, um rapaz e duas meninas.

“Para mim, [vender maçaroca] é uma ajuda muito importante: não peço dinheiro ao meu marido, tenho sempre o meu dinheiro”, destaca, consciente de viver num país onde a dependência económica da mulher é apontada como uma das causas da submissão ao homem.

O negócio de dona Lídia também acompanha a maratona que o metical tem vindo a fazer ao longo dos anos.

Começou por vender uma maçaroca por um metical, passou para dois, 2,5, 10, 15 e agora vende cada uma por 20 meticais (0,27 cêntimos de euro).

E explica a longa viagem dos preços através de um movimento ascendente dos dedos.

Manuel Niquice, 25 anos, vendedor ambulante de algodão doce, que habitualmente compra amendoim torrado à dona Lídia, desta vez compra uma maçaroca e não esconde o contentamento.

“Que venham comprar, são muito saborosas. Comprava amendoim, a maçaroca é a primeira vez que compro, mas gostei”, refere.

Com o corrupio de gente, dona Lídia diz que quando está na esquina entre as avenidas Agostinho Neto e Amílcar Cabral, sente-se como a maioria das pessoas da sua idade, do Sul de Moçambique, que em tempos emigrava à procura de melhor vida.

“Aqui é a minha África do Sul”, conclui.

Lusa

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