O número 716 da Rua de Costa Cabral, passa despercebido. O prédio, com uma fachada simples, mistura-se no urbanismo da cidade, sem nada que o destaque ou chame a atenção de quem passa. Numa inscrição discreta, lê-se que o local é a Casa-Museu de Fernando de Castro, o que confirma que estamos no local certo e prontos para a visita.

Fernando de Castro (1889-1946) foi negociante, poeta, caricaturista e, acima de tudo isso, foi um coleccionador apaixonado. As peças que colecionava eram usadas para decorar a sua própria casa. Fernando de Castro reuniu uma enorme colecção de pintura, escultura, livros e objectos, além de imensa talha dourada ou pintada com a qual o seu próprio refúgio artístico.

Quando Fernando de Castro faleceu sem testamento, a irmã, Maria da Luz de Araújo e Castro, cumpriu o desejo do irmão e doou ao Estado a casa e todo o espólio sob a designação de Casa-Museu Fernando de Castro. O espaço depende administrativamente do Museu Nacional de Soares dos Reis, desde a sua fundação em 1952.

Assim que a porta do número 716 se abre, encontramos mil tesouros por descobrir. Os espaços são densamente decorados do chão ao teto. Há sempre a imagem de um santo, um símbolo de portugalidade ou um detalhe brilhante de talha dourada para apreciar. Os espaços estão repletos de elementos religiosos que Fernando de Castro colecionou após vários conventos terem sido desocupados no início do século XX e muitas igrejas terem passado por renovações. Assim, ao longo da visita, é possível apreciar um púlpito num corredor, um altar e uma custódia na sala de jantar e esculturas de santos por todos os cantos, incluindo sobre a cama do colecionador. Além do gosto em adquirir e coleccionar as peças, Fernando de Castro queria, sobretudo, salvar esse património da ruína.

A Sala Amarela, que serviria como salão de baile, contrasta com os restantes espaços da casa, não tendo imagens religiosas. A sala dourada e luminosa está incrivelmente decorada, numa espécie de mini palácio de Versalhes com vista para as ruas do Porto. Entre espelhos ornamentados e candelabros de cristal, o espaço é a representação perfeita do luxo clássico e faz sonhar com as festas que ali teriam acontecido.

O único espaço que permaneceu imune à exuberância e excentricidade da decoração, foi o quarta da irmã, Maria da Luz, que se encontra vazio e com paredes pintadas de branco. É nesse quarto onde estão agora expostas algumas das mais de 300 caricaturas que Fernando de Castro fez ao longo dos anos. Com um toque de humor e trocadilhos inteligentes e simples, os visitantes podem encontrar representações de cidades e vilas e de algumas personalidades bem conhecidas da época, incluindo um auto retrato.

Porto Secret Spots

As visitas ao espaço são agora da responsabilidade da Porto Secret Spots que, com uma narrativa informal e divertida, perfeita para leigos,, apresenta todos os espaços de forma leve. A visita demora uma hora, que parece pouco tempo para descobrir todos os cantos e recantos da propriedade densamente decorada. As visitas decorrem de segunda a sexta-feira, entre as 10h e as 18h. As marcações devem ser feitas diretamente com a Porto Secret Spots, com antecedência mínima de 72 horas. As visitas guiadas têm um preço de 60 € por grupos de 1 a 5 pessoas e 70 € por grupos de 6 a 10 pessoas.

A intenção da Porto Secret Spots é tornar acessíveis espaços que habitualmente não o são, seja por estarem fechados, seja por não serem conhecidos ou até porque o discurso usado não estar adaptado ao público em geral. Como forma de dar a conhecer a Casa-Museu que, embora aberta ao público, passava despercebida, os responsáveis pelo projeto criaram um guião simples para facilitar a compreensão do espaço, sem tornar a visita enfadonha.

Atualmente, além da Casa-Museu Fernando de Castro, a rede da Porto Secret Spots inclui mais 5 locais: Porto Bridge Climb, Quinta de Villar d'Allen, Museu Vivo Pinhais, Torre da Igreja do Marquês e a Galeria Nuno Centeno. Na primeira metade de 2020, irão juntar mais 6 locais à rede, todos no Grande Porto, quase todos fora do eixo Baixa-Ribeira. Segundo explicou Pedro Pardinhas, responsável pelo projeto, a ideia é, sobretudo, levar os turistas para fora do centro do Porto: "Um turista no centro é bom, mas já não muda muito. Um turista na periferia pode transformá-la".

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