Já assinei muitas petições pelos direitos dos animais, mas estou decidido em lançar uma petição pelo falecimento de determinados animais. Sou um tipo que gosta de animais (excepto alguns homo sapiens) mas há alguns que já podiam falecer ao abrigo da lei da selecção natural! Eis as minhas razões.

Viemos para o Sul da Tailândia, mais exactamente para Koh Lanta, uma ilha sem as festas e espalhafato de outras paragens da região. Aqui é possível relaxar, mas não todo o dia. A culpa é deles, dos animais.

Os encontros imediatos com os “amiguinhos” de outras espécies têm sido muitos e, digamos, inesperados.

Na tarde em que chegámos, depois de tirar uma fralda radioactiva à nossa filha e de a fechar cuidadosamente num saco, saio do bungalow, pouso o saco na varanda e volto as costas para fechar a porta. Passam-se uns 5 segundos e quando me volto, a um metro de distância, estão dois macacos a fazerem-se despercebidos. Como tinha a Mia ao colo e, naquele momento, não me apetecia andar à porrada com dois macacos, afastámo-nos uns metros sem perder os meliantes de vista. A minha linguagem corporal foi entendida com luz verde para irem inspeccionar o saco. Vira daqui, vira dali, furo no saco e uma inspiração profunda. Juro que o vi a revirar o olhos e a dizer para o outro: “Fo… que pivete!” (se calhar não juro). Foram-se embora.

No mesmo dia, chegávamos de jantar e vimos que um pacote de muesli estava fora do sítio onde tinha sido deixado. “Bem, ou o bungalow está assombrado ou andaram aqui bicharolos” (como a Mia lhes chama). Depois de umas quantas teorias sobre o acontecimento, preparámo-nos para passar um momento em família antes de adormecer. Começamos a ouvir uns barulhos: lanterna em riste e vimos dois compinchas roedores, um estava a vigiar enquanto o outro foi cometer o delito de furto (na verdade estavam os dois a cometer o mesmo delito mas ou eles não sabiam ou a legislação na Tailândia é diferente) e já se afastava com uma das saquetas do chá de gengibre da Miriam. De tarde, o cocó da filha, à noite, o chá da esposa: não fosse eu do amor e não da guerra e o caldo estaria entornado.

Saí para contar o sucedido ao gerente, sem parecer um mariquinhas com medo de bichos. Depois de uns minutos fora, voltei com o OK para mudar de bungalow e com a fama que temia. Apesar do trabalho que iríamos ter na mudança de casa, estávamos satisfeitos.

Mais pequeno e sem o charme da construção em bambu e palha do primeiro, este parecia mais isolado e protegido de visitantes indesejados.

Tudo a postos para dormir e, de repente, todos ouvimos um barulho alto e bom som. Havia mais “alguém” no quarto.

O que é ito?!” - perguntou a Mia. Toca a inspeccionar o quarto, levantar o que era de levantar e sempre à espera que saísse algum primo Tailandês do Ratattouille de qualquer lado. Nada… aparentemente!

Toda a noite foi passada a erguer-me ao estilo do Drácula sempre que qualquer barulho animalesco soava mais próximo. Sim, mais próximo, porque lá fora a “música” da bicharada não pára, só falta o Avô Cantigas.

No dia seguinte, mal entro na casa de banho vejo um sapo aninhado a um canto com o mesmo olhar de sonso dos macacos. Revisitei o momento do barulho da noite anterior e, claro, só podia ter sido o sapo a armar-se em tenor! Chuveiro na mão e toca a por o sujeito lá fora pelo buraco por onde a água do duche escorre – sim, há um buraco na parede, junto ao chão, do tamanho de uma bola de ténis, deve ser para facilitar a vida à bicharada. Fiquei com pena do sapo que passou por um mau bocado, mas foi o calor da vingança a apoderar-se de mim!

No mesmo dia, à noite, já depois de a Mia estar a dormir e nós a editar fotografias/escrever, levanto-me e o que vejo junto à porta da casa de banho? Outro sapo! Irra, que raio tem este quarto que atrai sapos cá para dentro? Com este fui mais assertivo, “varri-o”, com o chinelo cuidadosamente para o buraco, enquanto falava com ele. Enquanto isso, mãe e filha, na cama, tinham um ataque de riso enquanto me ouviam reclamar com o Neca (é o meu termo para reclamar no trânsito e com os sapos).

Desde então, sempre que entrámos no bungalow, vindos da praia ou de jantar, a rotina é procurar os sapos e convidá-los a sair. Hoje estavam 3 cá dentro, todos diferentes!

O primeiro saiu de boleia no livro de colorir do comboio Thomas e deixou um rasto de chichi no livro da pequena antes de saltar para a relva. O segundo fingiu-se de morto a um canto até perceber que tinha que se por bem vivo rapidamente e partiu para a agressividade, começou a inchar o dorso para ver se me afugentava. Ele não sabia que eu vejo documentários da vida animal, alguns sobre sapos e com um discurso de conhecedor disse-lhe: “Ó Neca, julgas que me assustas por ficares todo inchado?”, enquanto usava o chinelo para o acompanhar à porta. O último estava na casa de banho e deu luta. Parecia uma daquelas cenas de filme passado numa prisão, o chuveiro no máximo e eu, qual guarda-prisional mau da fita, a fustigá-lo implacavelmente. Ele resistiu, agarrou-se onde estava, depois à parede, tentou avançar em direcção do jacto – parecia mesmo uma cena de herói que no fim do filme foge da prisão depois de matar o guarda mau – mas não resistiu à minha ira e saiu pelo buraco.

Antes de acabar o dia e irmos dormir, levantei-me da cama e enquanto circulava pelo quarto, ouviu-se um barulho tal e qual um traque meio abafado por um assento semi-rígido. Recebi um olhar que muitos maridos recebem, mas estava inocente. O som já se repetiu umas quantas vezes e, não vendo nenhum visitante nas zonas descobertas do quarto, só me ocorre que haja (mais) um sapo debaixo da cama.

Agora vamos tentar dormir, esperando que o Neca não tenha comido feijão ao jantar e, pensando melhor, os sapos até são engraçados. Petição cancelada.

Este artigo foi originalmente publicado em Menina Mundo.

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