Era dia 31 de Dezembro e eu estava a embarcar rumo ao paraíso. Boracay tem o pôr-do-sol mais bonito das Filipinas, embora haja outras praias filipinas com maior posição no ranking de beleza selvagem. Quanto ao mar, é o mesmo: verde misturado com azul turquesa. Línguas ténues de areia em que quem manda é o oceano… e os tufões. Pois, nesse dia 31 de Dezembro, já em pleno aeroporto confuso de Manila, tendo tratado de trocar a minha bagagem para o destino certo (lá é o viajante que tem de carregar com as próprias malas e mudar de tapete, desde que aterra até que embarca – a minha primeira experiência ‘concierge’ estafada).

Eu estava tão animada que mal me continha, o calor ajudava a subir o meu humor a uma ‘temperatura’ incansável: eu ia conhecer as praias mais belas do mundo! Mal entrei no avião pequenino de Manila para Boracay comecei a perceber que não só os areais seriam pequenos, mas também os aviões, os assentos e o aeroporto. Mas continuei muito bem-disposta pois eu adoro o encontro com a cultura, a diferença das coisas, as dimensões orientais tão distintas. E claro que me ri um pouco quando reparei que o aeroporto de Caticlan (o mais próximo de Boracay) era um pouco rural. Mas, entre dezenas de viagens, já aterrei em similares ‘campos aéreos rurais’, digamos. Adorei!

A coisa ficou menos nítida quando deixei de ver o azul prometido do céu e do mar enquanto os guias (muito bem organizados, de louvar) nos orientavam para uma carrinha entre uma chuva tenebrosa que assolou tudo. Era lama por todo o lado. Nem isso me tirou o sorriso. Tempestade tropical? Era o início do tufão 1 daquele dia 31. Pensei: que seja, a chuva abençoa casamento, então também deve abençoar o ano novo que está quase a entrar. E juro que abençoou. Agora, será que suportará continuar a travessia até entrar no novo ano e numa das praias top do mundo? Vem o tufão 2 incluído.

Da carrinha turística fomos levados para um barco. Ainda antes de sairmos da carrinha, foi feito o devido briefing (basicamente: saber a quantidade de transportes que iríamos ter de tomar e identificar os hotéis de cada um nos três postos que dividem o paraíso Boracay). Todos juntinhos e sem aviso para colocar o colete salva-vidas, entrámos no barco que mais parecia um baloiço na beira do mar. Contei até aqui: várias viagens aéreas, uma viagem terrestre curta e agora iria ser a viagem marítima. No briefing também nos foi dito que em cerca de 45 minutos estávamos no check-point para ainda termos outra viagem terrestre – via motociclo.

Só que ninguém nos falou do tufão que estava a raiar do céu. Nas Filipinas é muito comum o ‘ir e vir’ de tufões e a ocorrência de tempestades tropicais nesta altura do ano, mas eu gostava que me explicassem por que tanta chuva já se confundia com o mar picado. A água era da chuva ou do mar? Não perguntei e, ora com um tufão por cima de mim, fiquei a pensar que era altura de colocar o colete laranja. Estava sentada e molhada, recordo-me que levei com uma onda no rosto. Não me assustei mesmo assim, pois pensei: “eles devem estar tão habituados, olha a cara da equipa…sereníssimos”.

Mas confesso que vi preocupação em muitas pessoas do barco, sobretudo chineses e americanos. Todos a vestirem o colete e a abraçarem as crianças. Eu agarrei uma criança que estava na fila à frente e amparei o susto dela, falando em inglês com ela. Lembrei-a que vinha uma praia muito bonita e que estávamos todos a salvo, era só um barco a dançar. Convenci-me desta historieta de encantar, mas as ondas, negras pois nem a lua ajudava a iluminar o mar, entravam fortes no barco e eu nunca pensei viver aquilo. Estava literalmente a sentir-me uma imigrante ilegal a atravessar mares sem poder reclamar. E tendo pago! Voltei a olhar para o timoneiro, sereno continuava. Eu, às tantas, tinha água até às pestanas e mal conseguia ver as malas que estavam numa zona mais à frente, no convés. Ainda me levantei para sair do barco, estilo Titanic, mas caí logo derramada no meu assento. Nem tentei de novo a proeza. Sim, passagem de ano é para celebrar, mas queria chegar viva.

Algo agora me preocupava mais do que as ondas que entravam e saíam (e eu quase a enjoar) do barco: olhei para as horas, queria chegar antes das 00h a Boracay, sentada nas esplanadas que me contaram, de pés estendidos na água quente. Com palmeiras a beijar o chão. Depois da viagem como uma imigrante ilegal, juntei-me aos magotes de turistas molhados numa espécie de estação e pier. Colaram-me, ao peito, um papel que identificava o posto para onde eu iria: alojamento no posto 3. Todos tinham um papel parecido e nenhuma mala se perdeu. Os tuk-tuk começaram a vir e levavam os grupos (mínimo duas, máximo 4 pessoas). Neste momento uma segunda confusão se começou a ouvir entre turistas: demoravam imenso a chegar os motociclos pois o posto 1 era privilegiado e então eu fiquei na linha dos últimos grupos. Acham que isso me abalou? De pestana rebentada pelo mar, eu estava feliz! Os filipinos, de rosto habituado ao ocidentalismo, mantinham a ordem e chegou a minha vez. Montei o tuk-tuk, cheia de malas (para variar!) e dei o nome do meu hotel ao simpático motorista. Ele percebeu imediatamente e também foi bem rápida a viagem, até lá.

Boracay, Filipinas
créditos: Unsplash

Tudo é pequeno em Boracay, mas místico. Contudo estava muito escuro e eu não vi a estrada, senti só a chuva quente no rosto, as roupas coladas ao corpo pela lama e pela água do céu tropical, o cabelo a cheirar a sal, os buracos da estrada que quase me roubavam uma mala. Sem luz na estrada, só o farol do tuk-tuk era ‘a vela’ da minha véspera de ano novo. E os pneus… nem sei como não rebentaram com tanto peso. Com dois braços segurei tudo e só tentava avistar luz. Onde estava a praia de Boracay?

Finalmente, numa rua estreita que me pareceu um beco, o transporte parou e deu-me as malas. Pediu o valor do combustível e calorosamente dei-lho. Entre receber as malas e abrir a carteira eu estava de olhos postos no fim daquela rua estreita e foi amor que senti: as ondas do mar da praia famosa estavam a 100 metros de mim. Corri, de troley e sacos nas mãos, e fui experimentar o mar. Era quase a hora, fiz o check-in, o quarto era gigante, mas quis descurar tudo isso para voltar ao mar. Estava quente, o tufão tinha ido embora e as pessoas estavam com ‘colares’ de flores e muita música. Depois de jantar, com os pés enterrados na areia e no mar, tal como sonhei fui levada por uma mão dançante e vi-me numa fila com nativos e estrangeiros que bailavam em ‘fila comboio’ cantando “Despacito” e muito mais... era meia-noite. Comecei o meu ano abençoado, ali naquele lado do Oriente, mais tarde do que no Ocidente. Tambores retumbavam como brindes.

Depois saí da fila de canto e dança e desliguei o telemóvel para me ir juntar à calmaria do mar. Pedi todos os meus desejos e realizaram-se sem um único falhar. Só o céu brincou comigo de novo, e com todos ali, pois dois dias após houve um novo tufão, em pleno dia, e eu fiquei de novo com lama no corpo, chuva quente na alma e feliz porque era só um leve tufão e aprendi que tudo pode mudar a cada momento, por isso agradeçam nesta passagem de ano os sobressaltos de 2020 e pensem que a hora dos tufões da COVID-19 está quase a terminar e a calmaria está a chegar. Feliz 2021!

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