Imagem: Rosino CC BY_SA 2.0

Sem obedecerem a um calendário muito específico, estas celebrações têm início por altura do solstício de inverno e podem prolongar-se até ao Carnaval. Tratam-se de manifestações culturais com origens pagãs mas, fruto de um processo de aculturação, em alguns casos acabaram por ficar associadas a algumas datas do ano litúrgico Cristão.

O arranque destas festividades por altura do solstício de inverno prende-se com o facto deste significar o recomeço de um novo ciclo na natureza e, consequentemente na agricultura, já que esta é a estação do ano mais propícia para o cultivo. E porque no mundo rural a Natureza e o homem são indissociáveis, a vida em sociedade também é marcada pelo ritmo das estações do ano, razão pela qual o inverno significa um recomeço. Assim se explica que os mascarados sejam, invariavelmente rapazes, que deste modo participam num rito de entrada na vida adulta. Com as suas máscaras, danças e chocalhos, estas figuras misteriosas surgem ligadas ao culto dos seus antepassados pela fertilidade dos campos, dos homens e dos animais, com vista a assegurar que a cada novo ciclo a vida se renova. Como tal, as Festas de Inverno são simultaneamente um rito de passagem e um rito agrícola.

Grande parte destas festividades, que ainda subsistem em pequenas localidades de Portugal e Espanha, têm particular expressão durante o período que se designa de “Ciclo dos 12 dias”, que vai desde o Natal até à Epifania (dia de reis). Não raras vezes estão associadas às Festas dos Rapazes, em honra de Santo Estevão, considerado pela Igreja Católica o padroeiro da juventude e cuja festa se celebra a 26 de Dezembro. Nestas festas, os jovens têm, à semelhança do que acontecia em algumas civilizações da antiguidade, de mostrar provas de que estão aptos a assumir um papel mais ativo na vida das comunidades em que se inserem, uma vez que entre velhos e crianças, são eles o elemento mais forte. Assim, estas celebrações são também manifestações de coesão social.

O mascarado assume-se como a personagem central das festas, atuando conforme a tradição e ritual de cada lugar. Com as suas máscaras e fatos coloridos, os jovens acendem fogueiras, fazem barulho, provocam as mulheres com o obscuro sentido de fecundidade e participam em atos de sátira social. Trata-se de um misto de ações que funcionam como um efeito catártico e de expurgação dos males locais, atuando com uma espécie de purificação para a entrada no ano que se avizinha.
O Carnaval é o outro ponto alto das Festas de Inverno já que, de certa forma, marca o final da estação anunciando o nascimento da Primavera. De resto, a palavra Entrudo (termo mais antigo para designar Carnaval) provém do Latim entroitus que significa “entrada”, ou seja a referida entrada num novo período. Na verdade, o termo Carnaval é mais recente e surge associado ao período que os Católicos apelidam de Quaresma e durante o qual é suposto absterem-se de comer carne, já que Carnaval provém do latim carnevelare ou carnevale, que significa “adeus à carne”.

Assim, o Entrudo ou Carnaval, assume-se como o último momento antes da Quaresma em que são permitidos os excessos, em que se pode abusar da liberdade, recorrendo à paródia, à sátira social e, de um modo geral, assumir alguns comportamentos que não são socialmente aceitáveis senão nesta época do ano. No fundo, são dias de grande folia que precedem a contenção que caracteriza a Quaresma. Deste modo, os mascarados saem de novo para a rua para a pândega e galhofa que caracterizam estas Festas.

Mas se o Carnaval se disseminou de Norte a Sul da Península Ibérica assumindo as mais variadas formas, as Festas de Inverno tradicionais, que conservam ainda em parte a sua génese, apenas podem ser encontradas em algumas povoações que ao longo dos tempos teimaram em não deixar morrer a tradição. Em Portugal, o fiel depositário deste património cultural é o nordeste transmontano, com manifestações várias nos concelhos de Bragança, Vinhais, Vimioso, Mogadouro e Miranda do Corvo. Na vizinha Espanha, é precisamente do outro lado da fronteira, na província de Zamora, que as Festas de Inverno têm maior expressão, embora na Galiza também se mantenham vivas em algumas localidades.

Se gostava de conhecer melhor estas tradições ancestrais e este ano já não vai a tempo de participar nas Festas de Inverno que ocorrem por altura do Carnaval, lembre-se que lá para o final do ano elas estão de volta. E que cada aldeia tem as suas próprias formas de celebrar, por isso, os trajes, as máscaras, as brincadeiras, são diferentes de lugar para lugar - o único traço comum é mesmo a folia!

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